Gilberto Mestrinho, o boto que manejava o futuro

“A morte de Gilberto Mestrinho, em julho de 2009, não silenciou sua voz. Seus pronunciamentos permanecem vivos, como orientações para uma política moderna, justa e ecológica. Seu exemplo desafia os discursos vazios, desnuda o oportunismo de certas causas e reafirma que defender a floresta é também gerar dignidade para quem nela vive”

Há 16 anos partia Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo — o mais visionário dos líderes amazônidas do século XX. O “boto navegador”, como se autodefinia com orgulho e ironia, era muito mais que um político experiente: era um formulador intuitivo de políticas públicas ancoradas na floresta, um estrategista da autonomia amazônica e, acima de tudo, um patriota da sua terra.

Em 1999, no plenário do Senado Federal, ele pronunciou um discurso sobre manejo florestal que permanece atual, científico, legítimo e urgente. Sem os jargões ambientais da moda, ele afirmou com a clareza de quem conhece a floresta por dentro:

“A planta em fase de desenvolvimento absorve gás carbônico em maiores quantidades. É preciso fazer a renovação. Se não se fizer o corte da planta velha, não haverá renovação do estoque de carbono.”

Naquele momento, enquanto o mundo ainda discutia timidamente o aquecimento global, Gilberto Mestrinho já apresentava a floresta como solução. Com base em evidência empírica e sensibilidade social, defendia o manejo sustentável — hoje reconhecido pela ONU como uma das ferramentas mais eficazes para manter os estoques florestais, ampliar a captura de carbono e gerar emprego com dignidade na Amazônia.

gilberto mestrinho

Sua visão era profética. No lugar da Amazônia congelada por decretos exógenos, Mestrinho defendia uma Amazônia viva, manejada por seus povos, valorizada por seus saberes e reconhecida como força produtiva de uma bioeconomia planetária. Ao criticar políticas que transformavam a floresta em objeto de contemplação estrangeira, antecipava o dilema entre conservação e soberania que ainda enfrentamos hoje.

Foi também um formulador de soluções locais: propôs bancos florestais, distritos de manejo, estímulo ao reflorestamento com espécies nativas e articulação entre técnicos e comunidades. Um programa de Estado para a Amazônia — ignorado à época, mas aclamado hoje como diretriz técnica e ética da sustentabilidade.

A morte de Gilberto Mestrinho, em julho de 2008, não silenciou sua voz. Seus pronunciamentos permanecem vivos, como orientações para uma política moderna, justa e ecológica. Seu exemplo desafia os discursos vazios, desnuda o oportunismo de certas causas e reafirma que defender a floresta é também gerar dignidade para quem nela vive.

Ao recordá-lo, 17 anos depois, honramos o legado de um homem que ousou pensar a Amazônia com os pés no chão da mata e os olhos voltados para o futuro. O boto sabia o rumo. Resta a nós, hoje, não desviar do caminho.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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