Desenvolvimento e soberania na era da geoeconomia

“Na era da geoeconomia, seguimos subordinando o país a interesses internacionais e mantendo um olhar colonial sobre nossas próprias regiões. No caso da Amazônia, o debate tem se concentrado no “ativo” de valor financeiro — petróleo, minério, commodities — sem considerar o valor das pessoas que vivem ali. É hora de superar a visão mercantilista e extrativista, e colocar os seres humanos no centro das decisões, não os mercados, as finanças ou as ambições de potências estrangeiras”

Entender o contemporâneo é sempre um desafio. Somos levados, para aqui ou para acolá pelos afetos, emoções e cansaços da vida. Edward Luttwak, em artigo de 1990 argumentou que a economia passou a ser um campo de combate. As sanções econômicas, com bloqueios financeiros são exemplos de parte do Ocidente contra a Rússia ou o Irã, da mesma forma que a iniciativa do Cinturão e das Novas Rotas da Seda, da China, demonstram uma iniciativa de domínio pelo investimento em infraestrutura – e temos perto do Brasil o Porto de Chankay, com investimento da empresa chinesa Cosco. 

As ideias neoliberais propagavam um Estado Mínimo, mas no contexto da Geoeconomia ele passa a ser um Estado presente e estratégico, com intervenções no mercado, contrariando a visão neoliberal do livre mercado. O comércio neoliberal, visto como um ambiente de cooperação, passa a ser um ambiente de disputa num contexto contemporâneo.

A Globalização anteriormente percebida como separada da política (com o mercado dominando as visões), em um ambiente mais contemporâneo, de Geoeconomia, passa a ter uma crescente intervenção dos interesses econômicos e ainda mais visível interferência das empresas nos espaços políticos. As ações tarifárias e de subsídios ou defesas de empresas específicas demonstra mais fraqueza dos negócios em um ambiente de competição, do que uma fortaleza.

Desenvolvimento e soberania na era da geoeconomia

Empresas multinacionais (ou transnacionais, como preferem alguns) estão sempre em busca de mais estrutura de poder global. Em artigo de 12/02/2025 de Gillian Tett (publicado no Financial Times, reproduzido em síntese na Folha de São Paulo de 13/07), há uma ampla reflexão sobre este assunto. Trazendo para uma perspectiva do Norte do Brasil, de onde escrevo, tenho a sensação de que temos dificuldade como sociedade, de inserir uma multiplicidade de visões que interessem ao país, às nossas pessoas e pouco interesse com nossas empresas. Há um excesso de olhar para agradar o estrangeiro, renunciando à soberania, seja pelo capital ou pela política. Há um certo conforto em ser subserviente, em troca de alguns trocados, interesses ou tecnologias.

Há uma certa ilusão reinante sobre o Desenvolvimento, com um olhar excessivo sobre o que interessa aos “mercados”, com o interesse financeiro se sobrepondo aos interesses das pessoas. Precisamos não nos perdermos, pois subalternizar o interesse nacional para uma potência ou um conjunto de empresas estrangeiras não será muito diferente do que as trocas desiguais do passado. Mais do que fazer o interesse do Brasil prevalecer (parafraseando a frase norte-americana), precisamos colocar as necessidades de desenvolvimento nacional e de redução das desigualdades regionais nos nossos atos e discussões. 

Por ora, temos o triste e recorrente hábito de subordinar o país para os interesses internacionais e de olhar regiões com uma perspectiva colonial. No contexto Amazônico, temos refletido apenas sobre o “ativo” de potencial financeiro, mas não no olhar das suas pessoas. Sempre queremos o petróleo ou o minério, na perspectiva da extração. Precisamos transcender a visão mercantilista, extrativista e encontrar um interesse central nos seres humanos, ao invés dos mercados, finanças ou de algum império estrangeiro.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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