“A ideia de instalar data centers na Amazônia não é contraditória — é visionária. Se a floresta amazônica é essencial para o equilíbrio climático do planeta, por que não ser também um dos centers da sustentabilidade, abastecendo o mundo com infraestrutura limpa, segura e responsável? O mundo precisa de menos carbono e mais inteligência. A Amazônia pode entregar os dois“
Artigo de Sandro Breval e Alfredo Lopes
Você pode até não saber exatamente o que é um data center, ou um data space, mas usa um todos os dias — várias vezes por dia. Cada mensagem que você envia, cada vídeo que assiste, cada pesquisa que faz ou compra que realiza na internet passa por esses gigantescos centros de processamento e armazenamento de dados. Eles são a espinha dorsal da era digital. E, como toda espinha dorsal, precisam de muito suporte, energia e estabilidade.
O que é um data center?
Data centers ou Data Space são instalações físicas que abrigam milhares de servidores e equipamentos de rede, responsáveis por processar, armazenar e transmitir as informações digitais que usamos o tempo inteiro — redes sociais, streaming, comércio eletrônico, inteligência artificial, bancos, governo, saúde, trânsito e até agricultura. São os bastidores da “nuvem” — que, na prática, não está no céu, mas sim em grandes galpões climatizados, conectados por cabos de fibra ótica e abastecidos por muita, muita eletricidade.
Por que se fala tanto em data centers agora?
Porque o consumo global de dados cresce exponencialmente. E com ele, o consumo de energia também. Especialistas projetam que, até 2030, os data centers vão consumir tanta eletricidade quanto países inteiros como o Japão. Além disso, com a explosão da inteligência artificial, os data centers estão se transformando em verdadeiras cidades de processamento, com consumo concentrado de até 4 ou 5 gigawatts — equivalente à energia residencial de uma metrópole como Salvador. O problema? A maior parte da energia que move esses centros, hoje, vem de fontes fósseis e poluentes, como carvão e gás natural. E isso compromete os compromissos climáticos assumidos pelas grandes empresas de tecnologia.

Por que a Amazônia pode ser o lugar certo?
A Amazônia pode se credenciar como o território da nuvem limpa, sustentável e soberana por três razões principais:
1. Energia limpa em abundância: O Brasil já possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta. A região amazônica, em especial, tem enorme potencial solar e hidrelétrico — além da possibilidade de instalar data centers próximos de usinas, reduzindo perdas e custos de transmissão.
2. Segurança climática e estratégica: Com o avanço de tecnologias de refrigeração e conectividade, é possível instalar data centers fora dos grandes centros urbanos, em locais que combinem:
– Estabilidade elétrica
– Acesso à água (para resfriamento)
– Proximidade de fontes limpas de energia
A Amazônia pode oferecer essas condições, desde que haja planejamento, infraestrutura e governança adequada.
3. Nova economia para a floresta em pé: A implantação de data centers sustentáveis na Amazônia pode gerar empregos qualificados, atrair investimentos verdes e acelerar a inclusão digital da região, fortalecendo uma economia que valorize a floresta como ativo e não como obstáculo. Ao invés de desmatar para plantar soja ou extrair minério, podemos armazenar conhecimento, processar inteligência e distribuir inovação a partir da floresta.
Sustentabilidade digital é possível?
- Sim — mas exige escolhas. Para que os data centers sejam aliados da transição ecológica, é preciso:
• Priorizar o uso de energia renovável
• Minimizar emissões com sistemas eficientes de resfriamento
• Planejar sua localização estratégica
• Desenvolver uma política pública nacional de conectividade e soberania de dados - O Brasil já lançou um plano nacional para atrair investimentos em data centers, reduzindo impostos sobre equipamentos e reforçando sua rede elétrica. A Amazônia precisa entrar nessa agenda com protagonismo.
Uma Amazônia conectada com o mundo, mas com raízes locais
A ideia de instalar data centers na Amazônia não é contraditória — é visionária. Se a floresta amazônica é essencial para o equilíbrio climático do planeta, por que não ser também um centro de equilíbrio digital, abastecendo o mundo com infraestrutura limpa, segura e responsável? O mundo precisa de menos carbono e mais inteligência. A Amazônia pode entregar os dois.¹

Sandro Breval é Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestrado em Engenharia de Produção Pela Universidade do Amazonas (2009), Especialização em Gerência Financeira Empresarial e graduação em administração pela Universidade Federal do Amazonas (2000). Experiência em direção e gerenciamento no segmento industrial com destaque para Metal-Mecânico, em tecnologia da informação, atuando em implantação de ERP e automação bancária. Professor da Ufam. Especialização: Universidade de Chicago (EUA) Finanças e Políticas Públicas Insead (França) Gestão Estratégica, Wharton School (EUA) Strategy and Business Innovation, Insead (Madrid) Alta performance em Liderança.

