Caprichoso e Garantido são protagonistas de uma rivalidade centenária que se desdobra em um espetáculo de música, dança, alegorias e emoção no Festival de Parintins
Após três noites de apresentação, o Festival de Parintins 2025 termina hoje com o retorno do boi Garantido ao pódio, após defender o tema “Boi do Povo, Boi do Povão” – seu 33° título da história. As disputas foram travadas na Arena Bumbódromo, nos dias sexta-feira (27), sábado (28) e domingo (29). Cada boi apresentou sua própria narrativa com temas que celebram a Amazônia, os povos originários e a diversidade cultural da região.
A festa transforma anualmente a cidade de Parintins, no interior do Amazonas, no epicentro de uma das mais vibrantes celebrações da cultura popular brasileira. No coração do festival estão os bois Caprichoso e Garantido, protagonistas de uma rivalidade centenária que se desdobra em um espetáculo de música, dança, alegorias e emoção.
Mas, afinal – qual a diferença entre os bois Caprichoso e Garantido? O que explica as cores azul e vermelha usadas em sua identidade e o que leva a torcida a escolher seu lado?
Em Manaus, uma pesquisa realizada pelo Action Instituto de Pesquisa com 1.646 manauaras revelou uma torcida equilibrada. Segundo os dados, 37,2% dos entrevistados afirmaram não torcer nem pelo Caprichoso nem pelo Garantido. Entre aqueles que declararam ter uma preferência, o Boi Garantido aparece com 29,9% das menções, enquanto o Caprichoso é apoiado por 26,5%. Já 6,2% dos participantes se consideram neutros, afirmando gostar igualmente dos dois bois.
Boi Garantido
O Boi Garantido, fundado em 1913, tem origem em uma promessa religiosa feita a São João Batista por Lindolfo Monteverde, seu criador. Segundo a Gazeta da Amazônia, após adoecer gravemente, Lindolfo prometeu construir um boi para alegrar o povo durante as festas juninas caso fosse curado. Cumprida a promessa, nascia o Garantido, que com o passar dos anos se tornou um dos símbolos mais icônicos do Festival de Parintins e do folclore amazonense.
Quanto ao característico vermelho do boi, o historiador e antropólogo Diego Omar explica em entrevista ao portal A CRÍTICA que “não existe uma explicação, mas evidências (que esclarecem a escolha da cor)”. “Uma dessas evidências mais significativas é de que boa parte da família Monteverde tinha ligações com a umbanda e, em função de Xangô, que é relacionado a São João Batista, escolheu o vermelho”, explicou.
Em 2025, o boi vermelho e branco retorna ao Bumbódromo com o tema “Boi do Povo, Boi do Povão”, reafirmando sua forte ligação com a torcida e as raízes populares. Carregando seu tradicional slogan criado em 1980, o Garantido promete um espetáculo vibrante, emocionante e inovador, exaltando a tradição cultural e o protagonismo das vozes da comunidade que o sustenta.
Boi Caprichoso
Campeão por três edições seguidas, o Boi Caprichoso, também conhecido como Touro Negro, foi fundado em 1913 pelas famílias Cid e Gonzaga, de origem nordestina, que se estabeleceram em Parintins. Desde então, o boi azul e branco é reconhecido por sua musicalidade potente e forte valorização dos povos indígenas.
Sobre a cor azul do Caprichoso, Diego Omar afirma que uma das evidências é de que as cores fazem referência à proximidade do “Touro Negro” com a região portuária de Parintins, que tinha intensa movimentação de oficiais da Marinha, com a predominância das cores azul e branca.
Em 2025, o Caprichoso apresenta o tema “É Tempo de Retomada”, definido como um manifesto da cultura popular em defesa da vida e da continuidade da humanidade. De acordo com Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Arte do boi, a proposta é um “chamado para retomarmos práticas antigas e curativas”, resgatando saberes ancestrais e formas de viver em harmonia com a natureza. A agremiação entregou um espetáculo com apelo à sustentabilidade, à sabedoria dos povos tradicionais e ao papel transformador da arte popular.
Como os bois são avaliados?
Cada boi teve entre duas horas e duas horas e meia para se apresentar por noite no Bumbódromo, seguindo regras estabelecidas pelo regulamento oficial.
Os julgamentos são organizados em três blocos de avaliação — A, B e C — que englobam 21 quesitos da apresentação, como itens artísticos, musicais e culturais. Cada bloco é avaliado por um grupo de três jurados especializados, que atribuem notas conforme critérios técnicos específicos do setor que representam.
- Bloco A: compreende quesitos comuns e musicais;
- Bloco B: itens relativos à cenografia e coreografia;
- Bloco C: reúne a parte artística do evento.
Vence o festival o boi que somar a maior pontuação total em todos os blocos e apresentações.