“Governar com alma não é um luxo. É uma urgência. Em especial, quando o território é a Amazônia – essa entidade viva, complexa, fraturada, estratégica e sistematicamente desconsiderada pelos centros decisórios. Arte amazônica também é expressão dessa urgência.”
No coração da Amazônia, onde a floresta impõe silêncio, sabedoria e complexidade, cresce a necessidade de novas linguagens institucionais, mais sensíveis à diversidade, mais conectadas ao território e mais abertas à escuta social. Foi nessa encruzilhada entre o dever público e os desafios de um novo tempo que brilhou, com intensidade crescente, a atuação da conselheira Yara Lins.
A recente homenagem recebida durante o IX Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas, promovido pelo Instituto Rui Barbosa, é apenas o reflexo de uma trajetória que inscreveu no cotidiano do Tribunal de Contas do Amazonas uma gestão feminina, firme, ética, integrada e corajosa.
Primeira mulher a presidir o TCE-AM em mais de sete décadas, Yara não fez da sua presença uma bandeira isolada: transformou sua liderança em plataforma de renovação institucional.
Governar é escutar, interpretar, transformar
Num país ainda marcado por modelos de gestão reativos, burocráticos e voltados à mera conformidade legal, a conselheira ousou trilhar outro caminho. Conjugou rigor técnico com escuta cidadã, controle com orientação, fiscalização com pedagogia. Seu estilo de governança é marcado por uma visão transdisciplinar, territorializada e humanista, algo raro – e precioso – em tempos de algoritmos, pressa e desconfiança.
Yara Lins entendeu cedo que o controle externo não é um fim em si mesmo. É instrumento de transformação e garantia de direitos. E, sendo a Amazônia palco de contradições históricas e potencialidades planetárias, o TCE-AM, sob sua batuta, passou a se posicionar como uma instituição viva, conectada ao que pulsa nos rios, nos territórios, nas periferias, nos dados e nos sonhos.
A Amazônia precisa de exemplos
A celebração do nome de Yara Lins, portanto, é mais que um reconhecimento individual. É afirmação de um novo ethos público para a Amazônia. É sinal de que é possível, sim, construir instituições mais respeitadas sem perder a ternura, mais eficientes sem abrir mão da escuta, mais rigorosas sem se tornarem intransigentes.
Num país em que os retrocessos éticos e ambientais parecem se infiltrar até nos poros da máquina pública, Yara Lins representa resistência sofisticada, coerência rara e beleza política. A beleza de quem governa com sensibilidade, sem perder a força; de quem ocupa espaços de poder sem se descolar da realidade das mulheres, dos povos e da floresta.
Quando uma mulher governa, o território agradece
Governar com alma não é um luxo. É uma urgência. Em especial, quando o território é a Amazônia – essa entidade viva, complexa, fraturada, estratégica e sistematicamente desconsiderada pelos centros decisórios.
Ao afirmar a relevância de Yara Lins no cenário nacional do controle público, o Congresso promovido pelo Instituto Rui Barbosa também lançou luz sobre o tipo de inteligência que a região tem a oferecer ao Brasil. A inteligência do cuidado, da escuta, da interdisciplinaridade. A inteligência amazônica que não teme o barro nem a biodiversidade institucional. Que sabe que política pública não se faz só com planilha, mas também com poesia.
Que esta homenagem, portanto, inspire novas lideranças a se erguerem nos cantos mais improváveis da gestão pública. E que os conselhos, tribunais e instituições do país aprendam, com Yara, a arte amazônica de governar com sabedoria, coragem e beleza.