Estradas na Amazônia já afetam 41% do bioma e ameaçam floresta e povos tradicionais

Segundo mapeamento, 67% das estradas na Amazônia estão em propriedades privadas e assentamentos, enquanto 33% estão em terras públicas

Em mapeamento inédito, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) revelou que 41% da área florestal da Amazônia brasileira já é cortada por estradas ou está a menos de 10 km de uma via. Os dados foram publicados na revista científica Remote Sensing e detalham em quais tipos de territórios essas estradas estão localizadas, reforçando a relação entre o avanço da infraestrutura viária e o desmatamento na região.

Por meio de inteligência artificial, foram identificadas 3,46 milhões de km de estradas na área de Amazônia Legal. Os estados com maior quilometragem de estradas na Amazônia são Mato Grosso e Pará, porém a maior densidade de vias – ou seja, locais com mais estradas em relação à sua área – está no Tocantins e Maranhão.

Proliferação de estradas na Amazônia de forma ilegal impulsiona desmatamento.
Proliferação de estradas na Amazônia de forma ilegal impulsiona desmatamento | Foto: Daniela de Paula/ISA

Além disso, a pesquisa mapeia em quais tipos de territórios estão as estradas identificadas: 67% das estradas na Amazônia estão em propriedades privadas e assentamentos, enquanto 33% estão em terras públicas.

Entre as áreas públicas, o maior número de estradas foi identificado nas chamadas “terras não destinadas”, que somam 854 mil km de vias – o equivalente a 25% do total mapeado. Essas áreas, por não terem uma destinação oficial, estão mais vulneráveis a crimes ambientais, como extração ilegal de madeira, garimpo e grilagem, indicando forte pressão sobre a floresta.

Já nas áreas protegidas, o mapeamento do Imazon identificou 280 mil km de estradas, o que representa 8% do total na Amazônia. Desse total, 184 mil km (5%) estão em unidades de conservação, enquanto 91 mil km (3%) foram registrados em terras indígenas.

Terras Indígenas
Estradas em terras indígenas – Rede Xingu

“Por isso, mapear e monitorar as estradas é crucial para identificar ameaças à floresta e aos povos e comunidades tradicionais que vivem nela, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Em estudos anteriores, já havíamos indicado que 95% do desmatamento na Amazônia se concentrava em até 5,5 km das estradas. E que 85% das queimadas ocorriam em até 5 km delas”, explica o coordenador da pesquisa, Carlos Souza Jr.

Nova técnica de mapeamento

A base de dados das estradas gerada com inteligência artificial pelo Imazon já está sendo utilizada na plataforma de previsão de desmatamento PrevisIA.

Devido à forte relação entre a abertura de estradas e novos desmatamentos, essa informação se tornou a principal variável do modelo de risco da ferramenta, auxiliando na identificação e prevenção do desmatamento na Amazônia.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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