Banco Mundial comete gafes, repete o que fazer para a Amazônia mas não diz como

As interpretações questionáveis ou a falta de indicação de como fazer determinadas ações propostas não é privilégio do Banco Mundial, já que também os brasileiros estão às voltas com tentativas e planos diversos ao longo dos últimos 100 anos para dominar ou ao menos equacionar a Amazônia, ainda em curso.

Por Juarez Baldoino da Costa
________________

O relatório Equilíbrio Delicado para a Amazônia Legal Brasileira publicado pelo Banco Mundial em 09 de maio de 2023, editado pelo economista Dr. Marek Hanusch, sugere 4 ações estratégicas para a região que na verdade repetem o mesmo quadro já trazido por outros autores que pensam a Amazônia, porém também não foram acompanhadas das respectivas sugestões de como fazer.

Contém ainda algumas gafes ao afirmar que a Suframa foi criada pela SUDAM, ignorando o DL 288/67, que a floresta tropical já perdeu 75% de sua capacidade de regeneração, quando o percentual dos dados do INPE e da NASA são de menos de 20%, e sugere que a chuva seja vendida, estimando que, entre outros serviços, o valor atinja 20 bilhões de dólares, sem indicar como “emitir a nota fiscal” e para quem.

Banco Mundial
Crédito: Vicente Sampaio/Imaflora

Destaca ainda que a Amazônia é foco da criminalidade do tráfico de drogas, e que a geração de empregos poderia resolver a questão.
Marek se engana ao atribuir às condições da Amazônia este estigma, porque a origem e a sustentação do tráfico de drogas estão na demanda de forte poder aquisitivo dos dependentes químicos do Brasil, da Europa e também de Washington, sede do Banco Mundial.

Esta é a questão e não a Amazônia. Se por hipótese houvesse pleno emprego para todos os amazônidas, ainda assim alguém terá que levar a droga para alguém, passando pela Amazônia Legal ou ilegal.

As 4 ações estratégicas citadas, com observações do signatário deste artigo entre parênteses, são:

1 Melhorar o bem-estar da população, promovendo a produtividade por meio da transformação estrutural em áreas rurais e urbanas; (tarefa ainda inalcançada pelos governos por falta de recursos e de projetos pontuais, o que também não foi apontado pelo relatório);

2 Proteger a floresta, fortalecendo a governança territorial e florestal, inclusive por meio da aplicação da legislação em vigor – comando e controle; (não há nenhuma indicação de como executar o que já está em lei para uma área de 5,5 milhões de Km² e que o Brasil vem tentando atender, ainda sem sucesso);

3 Fomentar meios de subsistência rurais sustentáveis, acessando o capital natural associado a floresta em pé e protegendo os mais pobres e os modos de vida tradicionais; (nenhuma proposta foi feita pelo relatório que indique o que fazer além do que o Brasil já tem buscado, ainda também sem êxito por razões contextuais amplas e complexas não abordadas pelo relatório);

4 Estruturar o financiamento para a conservação, vinculando-o a redução mensurável do desmatamento e fazendo uso de recursos públicos e privados, ou de soluções baseadas no mercado. ( O BNDES e o BASA já fazem esta tentativa ainda com pouco resultado dadas as peculiaridades da Amazônia; o relatório não apresenta um projeto alternativo exequível).

Entretanto, o relatório, tecnicamente bem estruturado e de alta qualidade, com 351 páginas, compilou, de importantes fontes, vários dados sobre a região, que por estarem reunidos num só trabalho se constitui em rica fonte de pesquisa para gestores públicos e pesquisadores. Algumas divergências de dados são até compreensíveis dada a abrangência do trabalho e ao fato do campo de estudo ser a Amazônia.

As interpretações questionáveis ou a falta de indicação de como fazer determinadas ações propostas não é privilégio do Banco Mundial, já que também os brasileiros estão às voltas com tentativas e planos diversos ao longo dos últimos 100 anos para dominar ou ao menos equacionar a Amazônia, ainda em curso.

Há ainda abordagens controversas sobre a ZFM – Zona Franca de Manaus e outras questões que não caberiam neste artigo, mas talvez em um outro, e que estão disponíveis no relatório, com leitura recomendável para os que se interessam pela temática, a apaixonante Amazônia!

reforma tributária indústria zona franca de manaus amazonas Juarez Baldoino da Costa

Juarez é Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

Juarez Baldoino da Costa
Juarez Baldoino da Costahttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Juarez Baldoino da Costa é Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

Artigos Relacionados

Embrapa investiga como mudar a digestão do gado para reduzir emissões de metano 

Embrapa identifica alvos na microbiota do gado Nelore que podem ajudar a reduzir emissões de metano e melhorar a eficiência alimentar.

Lula assina decreto que põe minerais críticos no Brasil em ordem de prioridade

Lula define três níveis de prioridade para minerais críticos no Brasil, com critérios de abastecimento, relevância econômica e impacto ambiental.

Desastre de Mariana completa 11 anos com registros de peixes com tumores e deformidades

Onze anos após o desastre de Mariana, monitoramento registra tumores e deformidades em peixes, apesar da redução da contaminação.