Jacaré-anão tem registro inédito feito por pesquisadores no Pantanal

Indivíduos da menor espécie de Jacaré do mundo, tinha sido visto apenas em áreas específicas; os registros dos pesquisadores levantaram imagens na na Estação Ecológica de Taiamã

Um levantamento de anfíbios e répteis (herpetofauna) realizado na Estação Ecológica (ESEC) de Taiamã fez uma descoberta que surpreendeu pesquisadores brasileiros no Pantanal mato-grossense. Pela primeira vez, cientistas registraram a ocorrência de jacarés-anão (Paleosuchus palpebrosus) na planície de inundação do bioma. Considerado a menor espécie de jacaré do mundo – machos medem em média 1,7 m e fêmeas 1,2 m –, o réptil tinha, até então, registros de sua ocorrência restritos aos entornos do bioma. 

O resultado, que indica a possibilidade do jacaré-anão estar ampliando a sua área de ocorrência, acaba de ser publicado em nota científica na revista Brazilian Journal of Biology, que fez o primeiro levantamento de herpetofauna da ESEC de Taiamã, Unidade de Conservação (UC) de mais de 11 mil hectares circundada pelo rio Paraguai, e que está situada em Cáceres, no Mato Grosso.

O objetivo dos pesquisadores foi gerar uma lista de anfíbios e répteis presentes na ESEC de Taiamã. O artigo caracterizou o macrohabitat da UC como sendo composto por campos flutuantes (batumes), campos alagados, lagos, florestas monoespecíficas de açaçurana (Erythrina fusca) e florestas poliespecíficas – que ficam ao longo dos rios –, sendo esta última a escolhida como a área de estudo. “Porque elas têm terra firme na estação seca e um ambiente adequado para a instalação de armadilhas no solo”, diz trecho da publicação. 

As amostragens da pesquisa ocorreram em dois períodos distintos: agosto de 2017 e janeiro e fevereiro de 2018. Ao final da coleta, os pesquisadores registraram 11 espécies de anfíbios, 8 espécies de répteis, sendo seis espécies de répteis Squamata (cobras e lagartos) e duas espécies de répteis da linhagem Crocodylia: jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) e jacaré-anão (Paleosuchus palpebrosus).

“A ausência de informação sobre a herpetofauna na ESEC de Taiamã torna esse artigo pioneiro e os resultados encontrados importantes de modo geral. Nossos resultados apontam que a estação ecológica pode apresentar uma diversidade de espécies maior do que esperado e interações ecológicas ainda não conhecidas para o grupo de herpetofauna”, disse a ((o))eco o biólogo especialista em herpetofauna Vancleber Divino, doutorando em Ciências Ambientais pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e primeiro autor do artigo. 

O caso do jacaré-anão

O resultado do levantamento chama atenção para a abundante população de jacarés-anão encontrada na planície de inundação do Pantanal. No total, foram feitos 99 registros da espécie na ESEC de Taiamã. O índice foi maior até mesmo do que a ocorrência de jacarés-do-pantanal , que teve 85 registros. 

“Observamos que indivíduos ou grupos de Paleosuchus palpebrosus (jacaré-anão) estavam perto da margem do rio, onde havia galhos, troncos ou raízes de arbustos ou árvores, enquanto Caiman yacare (jacaré-do-pantanal) foi encontrado principalmente em áreas abertas, como pequenos canais e baías”, acrescenta outro trecho do artigo. 

A ((o))eco, a bióloga Jessica Rhaiza Mudrek, doutora em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e segunda autora da nota científica, conta que a ocorrência de jacarés-anão na planície inundável representa uma novidade para a história natural da espécie. “É uma espécie de hábitos noturnos, menor espécie de jacaré do mundo. Geralmente está associada a córregos pequenos, estreitos e de águas correntosas. Por isso é uma surpresa […] é inédito”.

De acordo com o artigo, até então, estudos afirmavam que a ocorrência da espécie estava restrita aos entornos da área úmida do Pantanal, e não havia registros no interior da planície inundável do bioma, como constatou os pesquisadores. Em 2004, por exemplo, estudo da Embrapa abordou a presença da espécie na Serra do Amolar, região situada nas bordas do bioma.

pantanal
À esquerda, em laranja, zona de ocorrência até então conhecida do jacaré-anão. À direita, na estrela, registros do jacaré-anão feitos na ESEC de Taiamã. Foto: Reprodução/A first approximation for the Herpetofauna species composition of the Taiamã Ecological Station, Pantanal of Mato Grosso, Brazil

Como trata-se de um levantamento, os pesquisadores não chegaram a analisar os fatores que podem ter contribuído para a ocorrência do jacaré-anão na planície de inundação do Pantanal. No entanto, Mudrek diz que isso pode ter relação com a adaptação da espécie: “Ela pode estar ampliando a área de ocorrência, se adaptando a novos ambientes”, acrescenta. 

Para a bióloga, a descoberta reforça a importância da preservação da ESEC de Taiamã assim como toda a biodiversidade abrigada por ela. “Uma razão a mais para preservar”, conclui. 

Lista de espécies

Confira abaixo a lista de espécies encontradas pelo levantamento feito na ESEC de Taiamã. No total, foram 20 espécies da herpetofauna, que estão dividas entre sapos, rãs e perecas (11 espécies); lagartos (3); serpentes (3); jacarés (2); e tartarugas (1). 

Sapos, rãs e pererecas (11)

Sapo-cururu (Rhinella diptycha)

Rhinella scitula

Perereca (Dendropsophus nanus)

Perereca-pontilhada (Boana punctata)

Perereca-quarenta-e-três (Boana raniceps

Perereca-fucinhuda-verruguenta (Scinax acuminatus)

Rã-manteiga (Leptodactylus luctator)

Rã-do-ventre-salpicado (Leptodactylus podicipinus)

Sapo-cururu (Rhinella diptycha)

Rhinella scitula

Perereca (Dendropsophus nanus)

Perereca-pontilhada (Boana punctata)

Perereca-quarenta-e-três (Boana raniceps

Perereca-fucinhuda-verruguenta (Scinax acuminatus)

Rã-manteiga (Leptodactylus luctator)

Rã-do-ventre-salpicado (Leptodactylus podicipinus)

Leptodactylus cf. brevipes 

Elachistocleis corumbaensis 

Elachistocleis matogrosso

Lagartos (3)

Iguana verde (Iguana iguana)

Lagarto-de-mancha-preta (Copeoglossum nigropunctatum)

Tupinambis matipu

– Serpentes (3)

Cobra-cipó (Chironius laurenti)

Jararaca-d’água (Helicops leopardinus)

Amerotyphlops brongersmianus

– Jacarés (2)

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare)

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare)

– Tartaruga (1)

Tracajá (Podocnemis unifilis)

Ameaças à ESEC de Taiamã

Considerada uma das porções mais frágeis e conservadas do Pantanal, a ESEC de Taiamã é rondada por uma ameaça silenciosa: o avanço de projetos que preveem a construção de portos e, ainda, a consolidação da hidrovia Paraguai-Paraná. Como mostrou ((o))eco, apenas neste ano dois projetos desse tipo receberam licença prévia para implantação neste que além de ser o principal formador do Pantanal é também o rio que circunda a ESEC de Taiamã. 

O risco reside no fato de que a instalação dos portos, também como mostrado em reportagem de ((o))eco, deve forçar dragagens permanentes, remoção de rochas, de curvas e até de ilhas de vegetação, para “retificar” o rio e garantir a navegação no curso d’água. Com essa remoção de barreiras naturais, mais água deverá fluir para o rio, o que pode reduzir os alagamentos anuais que mantêm o Pantanal vivo.

mapa ESEC caceres
ESEC de Taiamã circundada pelo rio Paraguai. Foto: Reprodução/ICMBio

O geógrafo Clovis Vailant, integrante do Instituto Gaia, ONG de Cáceres (MT) que atua em defesa do Pantanal, explica que UCs como as ESECs são importantes por preservar o que há de mais importante nos biomas brasileiros. “Uma estação ecológica é sempre uma unidade de conservação de uso restrito. São muito importantes no sentido de representar o que há de mais significativo e representativo para aquele ecossistema onde ela está instaurada”, explica. 

No caso específico da ESEC de Taiamã, ele destaca o papel da unidade como ponto de apoio para pesquisas voltadas para a conservação do bioma: “Essa nova descoberta reforça a importância desse tipo de unidade para a conservação geral do Pantanal”, conclui. 

Fonte: O Eco

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...