Pesquisadores descobrem grupo de onças-pintadas é Serra do Mar no Paraná

Registros das onças tornam essa região da Mata Atlântica área prioritária para conservação

Pesquisadores do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar estão há oito anos trabalhando na Mata Atlântica e recentemente confirmaram a presença de uma população de onças-pintadas (Panthera onca) na Serra do Mar paranaense, com o registro de cinco animais. O estudo foi divulgado na revista científica Oryx, publicada pela universidade britânica de Cambridge.

Com a descoberta, a área de ocupação da onça-pintada na Mata Atlântica foi ampliada em 9%. Considerando a Serra do Mar, esta ocupação subiu para 46,9%, o que torna a região a maior área de prioritária para a conservação da espécie no bioma brasileiro.

A descoberta é ainda mais relevante pela presença confirmada de machos e fêmeas, indicando a existência de uma população de onças com potencial reprodutivo.

onça-pintada
Primeiro registro feito por armadilhas fotográficas na região, em 2018, mostra um macho e uma fêmea, em comportamento de acasalamento. Fotos: Reprodução | Oryx

“Os indivíduos que registramos estão em uma área florestal extensa e de difícil acesso. Por isso, a ausência de registros de onça-pintada nos últimos 20 anos pode ser resultado da falta de levantamentos, ao invés de refletir a ausência da espécie necessariamente. Investimos na investigação e tivemos esses importantes registros, que mudam o olhar sobre a política de conservação da espécie em nível nacional e local, atestando a importância da região e da sua proteção”, conta Roberto Fusco, Doutor em Ecologia e Conservação e pesquisador e coordenador técnico do Programa.

Fusco explica que esses animais foram pressionados para áreas montanhosas e de difícil acesso principalmente por conta da caça, desmatamento e extração de palmito. “As onças-pintadas, assim como outras espécies de grandes mamíferos, são as que mais sofrem, direta e indiretamente, com a fragmentação das florestas e a pressão de caça porque dependem de áreas extensas e saudáveis para sobreviver. Na Serra do Mar, esses animais encontraram refúgio em áreas montanhosas, mais remotas e com difícil acesso para humanos, fator que talvez tenha contribuído para que esses felinos ficassem tanto tempo sem ser registrados”, diz.

Hoje, a população de onças-pintadas na Mata Atlântica está em torno de 300 indivíduos, distribuídos em pequenas e restritas subpopulações, inclusive em florestas maiores. No bioma, uma das florestas tropicais mais ameaçadas do planeta, a espécie já perdeu 85% de seu habitat.

serra do mar onça-pintada
Região da Serra do Mar e localização das armadilhas fotográficas. Imagem: Reprodução | Oryx

“Temos os dados e estamos indicando o que é necessário ser feito para salvar a espécie que é símbolo da biodiversidade brasileira e que será exposta ao mundo no uniforme da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo”, ressalta Fusco.

Florestas preservadas

A Serra do Mar no Paraná, onde a nova população de onças foi descoberta, integra o território da Grande Reserva Mata Atlântica, o maior contínuo de floresta protegida desse bioma no país e se torna uma região mais segura para estes felinos.

Para Marion Silva, gerente de Ciência e Conservação da Fundação Grupo Boticário, a descoberta é o início de um novo marco para o território. “A Grande Reserva é uma oportunidade única para a conservação de uma das áreas mais importantes em biodiversidade do mundo. A presença da onça-pintada mostra o quanto os 2,7 milhões de hectares desse território são valiosos para a fauna, a flora e as pessoas. Esses resultados também demonstram a importância de investir em iniciativas que impactem positivamente a região”, reflete Marion, explicando que a Grande Reserva Mata Atlântica faz parte de 60 municípios de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

onça-pintada
Foto: Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar

Área prioritária para conservação da onça-pintada

A atuação do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar na localidade integra a Estratégia de Conservação da Onça-Pintada 2020-2030, um programa da Rede WWF em parceria com outras organizações, que contempla 15 áreas prioritárias, em 14 dos 18 países onde o felino ainda vive.

“Essa estratégia é um plano transfronteiriço, com o objetivo de garantir a conservação e recuperação da onça-pintada, especialmente em áreas prioritárias. Essa descoberta é um enorme passo nesse sentido, tendo muito impacto nas ações locais e globais de conservação. Ao proteger uma espécie topo de cadeia, como a onça-pintada, todo o entorno é beneficiado”, diz Felipe Feliciani, Analista de Conservação do WWF-Brasil.

Para Felipe, a onça-pintada pode se tornar um símbolo de desenvolvimento sustentável na América Latina, e os esforços dirigidos para a sua conservação podem ajudar os países a cumprirem suas metas nesse tema.

onca pintada programa grandes mamiferos 1
Foto: Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar

Histórico de registros

Nos últimos oito anos, os pesquisadores do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar buscaram a ocorrência da onça-pintada em 6.500 quilômetros quadrados de floresta, utilizando dois métodos científicos: armadilhas fotográficas (câmeras escondidas que registram imagens da movimentação na floresta) e entrevista com moradores de comunidades rurais.

Ao todo, foram 98 estações com armadilhas fotográficas e 249 entrevistas que apontaram áreas com o potencial de presença do animal. Os resultados culminaram em registros inéditos para a região de cinco onças-pintadas: duas fêmeas, dois machos e um indivíduo que não foi possível definir o sexo por meio das imagens.

O primeiro registro foi feito em 2018, de um casal, exibindo comportamento de acasalamento (fotos no início da matéria) e, posteriormente, novos indivíduos em 2019. A presença de fêmeas e machos próximos indica que o uso dessa área pelas onças não é ocasional, mas que estão utilizando-a como parte de seus territórios para patrulhamento e reprodução, segundo Fusco.

mata atlântica plantio agrofloresta
Foto: Facebook | Grande Reserva Mata Atlântica

O biólogo explica que os novos registros modificaram o status de uma área não ocupada para ocupada de onças-pintadas. “Tivemos um aumento de 9% na área de ocupação de onças na Mata Atlântica e um aumento de 46,9% na ocupação na Serra do Mar, em comparação com as áreas anteriormente estimadas de 37.825 e 7.315 quilômetros quadrados, respectivamente.

Fusco acrescenta que, com o monitoramento em larga escala, seria possível entender os padrões e o processo de expansão e retração da população de onças ao longo do tempo e identificar potenciais conflitos de humanos com onças, um dos fatores que levam à morte desses animais por retaliação.

onça-pintada
Foto: Haroldo Palo Jr

“Esses dados são cruciais para a identificação de corredores e áreas de população que requerem proteção, para a mitigação de conflitos e planejamento de conservação. A descoberta é um sopro de esperança para espécie que está criticamente ameaçada de extinção na Mata Atlântica. Mas agora também é uma responsabilidade”, explica Fusco.

O pesquisador ainda reforça a importância de áreas protegidas para a conservação da espécie e a necessidade urgente de ações para reduzir a caça de onças e suas presas (como porcos-do-mato, veados, pacas, tatus e etc) de forma que garanta a persistência e a expansão populacional da onça-pintada ao longo da Mata Atlântica costeira.

Fonte: CicloVivo

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

José Alberto da Costa Machado e a inteligência de servir à Amazônia

Ele nos recorda uma lição simples e fundamental: o verdadeiro progresso continua sendo aquele que coloca o conhecimento a serviço das pessoas, da prosperidade e da floresta.

El Niño: Nova plataforma do IBGE vai identificar áreas vulneráveis antes que os desastres aconteçam

IBGE lança sistema com foco no El Niño para apoiar gestores na prevenção de desastres climáticos e no uso de dados territoriais.

8 cogumelos comestíveis da Amazônia que unem ciência e tradição

Metadescrição: Conheça cogumelos comestíveis da Amazônia usados por povos tradicionais e estudados pela ciência.

Impactos do super MEI na distribuição de renda do Brasil

Por Alfredo Lopes Lopes PAULO HADDAD: O ECONOMISTA QUE...

O problema do Brasil é educacional, mas não apenas

“A China decidiu qual futuro quer fabricar. O Brasil...