Amazônia: o PPB, o ministro e as facções do garimpo

E para seguir coerente com seu desprezo pela economia da Amazônia, o governo federal acaba de disparar o tiro de misericórdia na Indústria da ZFM. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que prometeu, junto com o presidente da República, Jair Bolsonaro, corrigir os danos do Decreto 10.979/22, não corrigiu, mentiu e mais, ampliou por seis meses os danos de seu equívoco. Pelo andar da carruagem, sob Guedes, a União seguirá esvaziando o programa ZFM, como anunciou e sempre quis desde antes de assumir seu encargo de gestor da economia do país. Ainda restam dúvidas?

Por Alfredo Lopes
______________________

O que é o PPB? E por que essa figura burocrática e anacrônica permanece impedindo que a economia do Amazonas seja abençoada, diversificada e regionalizada para benefício da população, com a geração de empregos e oportunidades? E por que estamos particularizando o PPB, que é apenas mais um entre tantos embaraços que o governo central tem interposto para Amazônia ter um desenvolvimento sustentável e solidário que nós insistimos em consolidar há anos?

Essa pergunta sobre o PPB foi feita por um servidor público do Ministério da Economia, do alto escalão, durante a movimentação dos atores locais, deslocados para Brasília, buscando esclarecer os equívocos constantes do Decreto 10.979/22, que não irá aliviar a cangalha tributária do Custo Brasil, entretanto fere de morte a economia do Amazonas. A pergunta, aparentemente inocente, se junta a outras muito frequente que ratificam o desconhecimento, descaso e desimportância com que a União trata os interesses da Amazônia em geral e do Estado do Amazonas em particular. É comum, a propósito, que muitos agentes encastelados em Brasília não saibam a diferença entre Amazônia e Amazonas. Façam o teste.

Mas o que é mesmo o PPB? Bem, essa sigla significa processo produtivo básico, ou seja, um conjunto detalhado de exigências – elaborado no século passado – para licenciar as empresas que optam por se instalar no Polo Industrial de Manaus. O argumento, teoricamente, era controlar o que se chamava de Índice de Nacionalização. Na verdade, a prática confirmou, a burocracia foi desenhada para proteger grupos e segmentos interessados historicamente em boicotar o PIM. A partir da abertura da economia e da tolerância com o contrabando asiático, muitas empresas nacionais passaram a usufruir dos mesmos benefícios da Zona Franca de Manaus sem as exigências do PPB. E o Amazonas, de pés e mãos amarradas, segue obrigado a cumprir a liturgia burocrática e extemporânea deste embargo disfarçado. E pensar que a Constituição Federal proíbe apenas 5 produtos no regime fiscal da ZFM: perfumes, cigarros, automóveis de passeio, bebidas alcoólicas e armas e munições.

E para seguir coerente com seu desprezo pela economia da Amazônia, o governo federal acaba de disparar o tiro de misericórdia na Indústria da ZFM. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que prometeu, junto com o presidente da República, Jair Bolsonaro, corrigir os danos do Decreto 10.979/22, não corrigiu, mentiu e mais, ampliou por seis meses os danos de seu equívoco. Pelo andar da carruagem, sob Guedes, a União seguirá esvaziando o programa Zona Franca de Manaus, como anunciou e sempre quis desde antes de assumir seu encargo de gestor da economia do país. Ainda restam dúvidas?

Bolsonaro e Paulo Guedes agencia brasil

E qual é o plano federal para a Amazônia? O mesmo de sempre. O saque e a demagogia das promessas que, rapidamente, se revelam não cumpridas. Estão aí os anúncios da enganação. A começar pela BR-319, uma rodovia que já existiu e que a União deixou de fazer sua manutenção. E que foi “empenhada” pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas. Jura? O atual candidato ao governo paulista foi eloquente em suas miragens que resultaram em novas miragens e decepção. A transformação da Amazônia em Centro Mundial de Bioeconomia, o CNPJ do CBA e uma lista infinita de blá, blá, blá, são de fazer inveja a Greta Thunberg, que assim traduziu as promessas dos países industrializados de enfrentamento da mudança climática.

Mas nem só de omissão vive a nova política do Estado Brasileiro para a Amazônia. Desde o começo do atual governo, a União tratou de liberar e tolerar o desmatamento para retirada de madeiras nobres e fazer avançar a fronteira da pecuária predatória. O ex-ministro do Meio Ambiente foi obrigado a deixar o cargo porque a Polícia Federal descobriu suas digitais na venda de madeira ilegal para os Estados Unidos. Antes, atendendo ordens superiores, o então ministro Ricardo Salles liberou o garimpo ilegal em terra indígena. Entregue ao apetite político e pecuniário do Centrão, o governo busca aprovar no Congresso autorização provisória de atividades mineradoras sem estudos de impacto ambiental e à revelia constitucional.

Em artigo publicado na semana passada, o Documentarista João Moreira Sales, da Revista Piauí, assim resumiu a nova matriz econômica abençoada com a liberação federal do garimpo em terras indígenas: “Conhecemos bem o garimpo. Como mostram vários estudos recentes, ele se tornou um braço das facções criminosas, a começar pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje domina a atividade em terras yanomamis. O garimpeiro de bateia na beira do rio, brasileiro pobre atrás do seu pão, é um personagem extemporâneo sem outra serventia a não ser mascarar com tinturas sociais uma atividade cada vez mais violenta e capitalizada. Os meios de produção do garimpo atual são balsas que custam 2 milhões de reais, mercúrio de comercialização ilegal no Brasil, condições de trabalho degradantes e fuzis AR-15, agora municiados com projéteis não rastreáveis graças à bonomia presidencial”. Pois é: o garimpo foi autorizado por determinação presidencial e a produção de armas, sem PPB, também. Precisa dizer mais alguma coisa?

Alfredo Lopes 5
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...