2022: Cenários Econômicos na perspectiva global, nacional e local – Debates na ABRH Amazonas

Em resumo, a economia regional tende a, no saldo, ter mais benefícios do que prejuízos das grandes tendências globais e nacionais em 2022. Dada a pobreza na qual vive o interior, o crescimento acontece com poucos recursos no curto prazo. No longo prazo, não há indícios de investimentos que aumentem a produtividade para sustentar prosperidade maior no médio prazo. Estimo crescer um pouco mais que o Brasil.

Anotações de Denis Minev
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Do ponto de vista geopolítico internacional, a guerra Rússia-Ucrânia é a protagonista, coloca em xeque a estrutura pós II Guerra Mundial (sem guerras), principalmente na Europa. Há um novo modelo de guerra, assimétrica, desestabilizando oponentes e opinião pública sem dar um tiro. Atores como Rússia, Irã, Coréia do Norte ampliam sua capacidade de desestabilizar democracias. O modelo de sociedade liberal está fragilizado; híbridos como Hungria e Turquia surgem. Próximos capítulos podem incluir Taiwan. Perda de capacidade de cooperação internacional exacerba crises de refugiados, insegurança hídrica e alimentar, conflitos regionais e mudanças climáticas, com inúmeras consequências econômicas. Confronto direto OTAN-Rússia (improvável mas possível) seria catastrófico.

Na economia internacional, EUA e UE enfrentam inflação acima do esperado, com aumento de juros. Dado o período tão longo de juros baixos (desde 2008, 14 anos), é provável a desvalorização de ativos e possível estouro de bolhas. China já tem mercado imobiliário fragilizado (caso Evergrande), que combinado com maior repressão política (vide Alibaba, Hong Kong), causam crescimento menor. Durante esses 14 anos, acumulou-se déficits grandes e dívidas públicas altíssimas. Discussão de que dívidas não importam (vide Modern Monetary Theory) lembra o Brasil dos anos 80 em heterodoxia, não acabará bem. “There is no free lunch” nos lembra Milton Friedman. Provável combinação de inflação, restrições de despesas governamentais e aumento de impostos parece à frente na próxima década; tamanho do estado será maior.

Por segmento da economia, com as restrições devido ao COVID diminuídas, haverá retomada de viagens e serviços presenciais. Aprendizado de trabalho remoto destrava alguma produtividade global. Trabalhadores em Manaus podem trabalhar para empresas em qualquer lugar. Oportunidade para lugares remotos, como a Amazônia, desde que desenvolva recursos humanos. Cadeias de suprimento foram desorganizadas, serão mais curtas, caras e resilientes, com inflação, protecionismo/nacionalismo e investimentos corporativos. COVID causou alta demanda por produtos (com redução de demanda por serviços) e, em conjunto com gastos fiscais, gerou novo ciclo de commodities (do ferro e petróleo à soja e carne). Restrições de fornecimento (ambientais, regulatórias) e baixo investimento devem manter preços de commodities altos, beneficiando alguns países mas gerando inflação para todos.

Como fatores exógenos, há o possível surgimento de novas variantes de COVID, de mortalidade e transmissibilidade incertas, e o avanço tecnológico incrível da humanidade, com muitas consequências positivas e algumas negativas. Listo algumas frentes: 5G, exploração do espaço, biotecnologia, energia renovável, TI, dentre outros. Perigos vão de guerra cibernética e bioterrorismo a monitoramento governamental.

Em resumo, o cenário global é de crescimento mediano com balanço de riscos mais negativos. Creio que as perspectivas de médio prazo são razoáveis principalmente devido aos avanços tecnológicos; serão melhores se contarmos com pragmatismo (ainda incerto) no relacionamento China, EUA e UE para lidar com problemas globais.

No cenário nacional, foco na economia e na geopolítica

Na economia, a crise energética global encontra no Brasil o problema das chuvas. Consequência provável é inflação e restrições ao crescimento. Já vivemos com alta inflação (acima de 10%) e com juros altos (10,75%, indo para 12%), que limita o crescimento. A intervenção estatal na economia, necessária no auge do COVID, se mantém com novo Auxílio Brasil. Não há nada mais permanente do que um programa de governo temporário. O diálogo político nacional aponta na direção de mais gastos e programas sociais, colocando pressão na inflação e aumento de impostos no médio prazo. Novamente, “there is no free lunch”. A insegurança com medidas como rompimento de teto de gastos e calote de precatórios tende a aumentar o custo Brasil. Em 2021 e janeiro de 2022 tivemos crescimento de arrecadação – ligado à inflação – o que dá fôlego para despesas de governos (federal, estadual e municipal) em 2022 sem crise orçamentária. Commodities em alta também beneficiam exportações. Combinação de fiscal e exportação fortalece o câmbio, com apreciação recente (chegando abaixo de R$5). A agenda de produtividade nacional, tema mais importante para o médio prazo, vai bem em concessões de infraestrutura (saneamento, aeroportos, 5G), e mal em reformas, privatização, redução da informalidade, investimentos em gente e ciência.

Na geopolítica, perdemos o bonde da história em todos os grandes avanços tecnológicos. Seremos beneficiados como usuários e clientes apenas. Ao mesmo tempo temos relações ruins com os três maiores atores internacionais, EUA, UE e China. Perdemos capacidade de cooperar com o mundo ou com a América do Sul. A imagem deteriorada do Brasil no exterior freia até a melhoria do câmbio; variáveis econômicas indicam que deveria estar mais apreciado, algo tipo R$4,50. A insegurança política ligada à eleição de 2022 representa um desafio – lembremos que caminhoneiros já facilmente paralisaram a economia nacional em 2018, causando queda no PIB e inflação de transportes. Discutimos redução de impostos sobre combustíveis fósseis, indo na contramão do mundo. A alta de gastos de 2022 não está acompanhada de investimentos em produtividade. Será um provável voo de galinha no 2o semestre.

Em geral, o Brasil deve crescer pouco, com possibilidades de surpresas positivas em frentes ligadas a commodities, serviços presenciais e breves aumentos de despesas governamentais. A economia regional (Amazonas) se beneficiou nos últimos anos tanto do Auxílio Emergencial quanto do movimento Fica em Casa (que aumentou a demanda por produtos que produzimos como TVs e ar condicionados), a despeito da terrível tragédia que vivemos.

De 2022 em diante, alguns fatores nos beneficiam. O crescente protecionismo e encurtamento de cadeias são bons para o PIM. O novo Auxílio Brasil irriga a economia do interior, dado que transferências federais são (infelizmente) a principal fonte de renda do interior. A Copa do Mundo em novembro de 2022 aumenta a produção de TVs no PIM. Os cofres públicos fortalecidos pela arrecadação recente tendem a sustentar altos gastos de governos até a eleição em outubro. Apesar da torcida e da aparência midiática, a bioeconomia amazônica ainda não tem significância econômica.

Em resumo, a economia regional tende a, no saldo, ter mais benefícios do que prejuízos das grandes tendências globais e nacionais em 2022. Dada a pobreza na qual vive o interior, o crescimento acontece com poucos recursos no curto prazo. No longo prazo, não há indícios de investimentos que aumentem a produtividade para sustentar prosperidade maior no médio prazo. Estimo crescer um pouco mais que o Brasil.

denis
Denis Benchimol Minev é CEO do Grupo Bemol.
Possui graduação em Bachelor of Arts pela Stanford University(1998), mestrado em Master of Arts pela Stanford University(1999), mestrado-profissionalizante em MBA pela The Wharton School – University of Pennsylvania(2003) e ensino-medio-segundo-graupelo Colégio Militar de Manaus(1993).
É co-fundador do portal BrasilAmazoniaAgora

Redação BAA
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