ZFM: a reinvenção do modelo pela diversificação produtiva


A Zona Franca de Manaus chegou a 2026 apoiada em uma estrutura industrial que poucas regiões brasileiras conseguiram construir. São décadas de investimentos, formação de trabalhadores, criação de fornecedores, domínio de processos produtivos e desenvolvimento de competências técnicas. Essa trajetória precisa ser reconhecida quando se discute o futuro econômico do Amazonas.

Durante recente apresentação a empresários – organizada pela FIEAM – o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Gustavo Igrejas, fez uma leitura histórica do modelo e chamou atenção para transformações que muitas vezes desaparecem no debate nacional. A indústria instalada em Manaus tornou-se mais complexa, incorporou processos de produção verticalizados, formou clusters e reuniu mão de obra especializada em segmentos de elevada exigência tecnológica.

Entre janeiro e maio de 2026, o Polo Industrial de Manaus registrou faturamento de US$ 19,3 bilhões. Em 2025, manteve uma média superior a 132 mil trabalhadores diretos. É um contingente expressivo, sobretudo quando se considera o avanço da automação nas fábricas e a pressão permanente por produtividade.

Esses números ajudam a afastar a visão antiga de uma Zona Franca limitada à montagem de produtos importados. Manaus fabrica motocicletas, televisores, aparelhos de ar-condicionado, componentes eletrônicos, equipamentos de informática, concentrados, produtos químicos e uma ampla variedade de bens que abastecem o mercado brasileiro. Ao redor das fábricas, cresceu uma rede de serviços, comércio, transporte, pesquisa, manutenção, engenharia e qualificação profissional.

O próximo ciclo do modelo começa exatamente nesse patrimônio acumulado.

Diversificar a partir da indústria existente

A diversificação produtiva costuma aparecer como uma palavra ampla, capaz de acomodar expectativas muito diferentes. Para o Amazonas, ela precisa assumir um sentido mais concreto. Diversificar significa aproveitar a base industrial já instalada para criar novas cadeias produtivas, incorporar conhecimento regional, desenvolver fornecedores e ampliar a participação do estado em mercados nacionais e internacionais.

A biodiversidade oferece uma frente promissora, desde que seja tratada com pesquisa, tecnologia, escala empresarial, proteção do conhecimento e repartição adequada dos benefícios. A floresta contém moléculas, fibras, óleos, alimentos, microrganismos e materiais com aplicações potenciais na indústria farmacêutica, cosmética, alimentícia, química, energética e de novos materiais. Sua transformação em riqueza exige universidades, institutos de pesquisa, comunidades, empreendedores, investidores e fábricas trabalhando de maneira articulada.

Essa conexão ainda é insuficiente. Temos conhecimento científico acumulado, uma das maiores biodiversidades do planeta e um parque industrial sofisticado, mas esses três ativos continuam separados por lacunas institucionais, tecnológicas e financeiras.

A reinvenção da Zona Franca passa pela aproximação entre esses mundos. O Distrito Industrial pode oferecer capacidade de produção, engenharia, controle de qualidade, logística empresarial e acesso a mercados. A ciência amazônica pode fornecer conhecimento e inovação. As populações tradicionais e os moradores do interior possuem saberes construídos pela convivência com a floresta e os rios. As startups podem converter problemas regionais em soluções de água, energia, alimentos, monitoramento ambiental, saúde e conectividade.

Quando esses elementos se encontram, a diversificação deixa de ser apenas uma intenção e passa a formar empresas, produtos, patentes, empregos e renda.

O interior precisa participar dessa transformação

A diversificação também deve enfrentar uma das fragilidades históricas da economia amazonense: sua concentração em Manaus. O Polo Industrial cumpre um papel decisivo na sustentação econômica do estado, mas seus benefícios ainda precisam alcançar o interior de forma mais consistente.

A agroindústria, a piscicultura, o manejo florestal, a produção de alimentos, o turismo, a mineração responsável e as cadeias da sociobiodiversidade podem ampliar as oportunidades nos municípios. Para isso, será necessário organizar assistência técnica, regularização fundiária, financiamento, armazenagem, energia, comunicação, transporte e acesso aos mercados.

Não basta identificar potencialidades. A experiência mostra que abundância de recursos naturais, sozinha, raramente produz desenvolvimento. São necessários organização produtiva, conhecimento, infraestrutura, segurança jurídica e capacidade de transformar produção local em negócios economicamente sustentáveis.

A indústria de Manaus pode participar desse movimento como consumidora de matérias-primas regionais, desenvolvedora de equipamentos, parceira de projetos tecnológicos e fonte de demanda para novos fornecedores. A diversificação ganha força quando estabelece relações entre a capital e o interior, formando uma economia mais integrada.

A logística define o alcance do projeto

Nenhuma estratégia produtiva conseguirá avançar plenamente enquanto a logística continuar submetida a custos elevados, longos prazos e baixa previsibilidade.

A experiência apresentada pelo empresário Fábio Gobeth, diretor adjunto da FIEAM e chefe de Projetos Especiais da Bertolini, expõe a dimensão prática desse problema. A logística amazônica combina transporte rodoviário e fluvial, operações portuárias, estaleiros, balsas, empurradores, armazenagem e manutenção naval. É uma engenharia complexa, desenvolvida por empresas que aprenderam a operar em um território continental, marcado por grandes distâncias e fortes variações do nível dos rios.

Essa capacidade empresarial, entretanto, encontra limites que dependem da ação pública. A dragagem dos rios, a manutenção das hidrovias, a modernização dos portos e a recuperação da BR-319 são investimentos de interesse regional e nacional.

A rodovia pode representar uma alternativa importante para o abastecimento de Manaus e o escoamento da produção industrial, com redução do tempo de transporte e maior flexibilidade operacional. Sua recuperação precisa ser acompanhada por fiscalização, monitoramento ambiental, ordenamento territorial e presença permanente do Estado, de modo a combinar integração logística e proteção da floresta.

Também precisamos considerar a nova realidade climática. Nos últimos 15 anos, a Amazônia enfrentou algumas das maiores secas e cheias já registradas. A variação extrema dos rios altera rotas, encarece fretes, dificulta o abastecimento e ameaça a continuidade das operações industriais. A infraestrutura regional precisa ser planejada para esse cenário, incorporando previsões climáticas, dragagem preventiva, terminais adaptáveis e diferentes opções de transporte.

As conexões com Peru, Equador e Guiana, além das possibilidades de acesso ao Pacífico e ao Caribe, merecem estudos técnicos e decisões diplomáticas de longo prazo. O Amazonas ocupa uma posição geográfica capaz de aproximar a indústria brasileira de novos mercados, mas essa vantagem só se realizará com infraestrutura eficiente e acordos que assegurem fluidez às rotas.

O tempo até 2073 precisa produzir um novo patamar

A garantia constitucional dos incentivos da Zona Franca até 2073 oferece um horizonte de estabilidade. Esse prazo deve ser utilizado para consolidar a indústria existente e construir novas fontes de competitividade.

Reduzir gradualmente a dependência dos incentivos exige pesquisa, inovação, infraestrutura, formação profissional, escala produtiva e acesso a mercados. Trata-se de um processo de décadas, que precisa começar agora e manter continuidade entre governos, instituições e lideranças empresariais.

Os incentivos fiscais continuam essenciais para compensar os custos de produzir longe dos grandes centros consumidores. Ao mesmo tempo, a proteção jurídica do modelo abre espaço para uma agenda mais ambiciosa, voltada à agregação de valor regional, às exportações, à bioeconomia e ao desenvolvimento tecnológico.

O Amazonas já possui uma base industrial mundialmente relevante. Possui também universidades, centros de pesquisa, trabalhadores qualificados, empreendedores e uma biodiversidade sem equivalente. O desafio está em aproximar esses ativos, eliminar gargalos e estabelecer prioridades que sobrevivam às mudanças políticas.

A reinvenção da Zona Franca será construída com a modernização do que já existe, a criação de novas cadeias produtivas e a participação mais ampla do interior. A indústria continuará ocupando posição central nesse processo, apoiada por ciência, infraestrutura e uma política regional capaz de transformar as vantagens amazônicas em trabalho, conhecimento e renda.

É assim que a segurança conquistada até 2073 poderá se converter em um futuro econômico mais sólido para o Amazonas e em uma contribuição ainda maior da Amazônia ao desenvolvimento brasileiro.


Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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