Raoni e a dignidade no poente da vida

Durante mais de sete décadas, Raoni Metuktire ofereceu o próprio corpo à defesa da vida. Levou a pintura, o botoque, a voz grave e a memória de seu povo a aldeias, parlamentos, conferências internacionais e gabinetes de chefes de Estado. Onde esteve, lembrou ao mundo que a floresta possui habitantes, línguas, espíritos, histórias e direitos anteriores às fronteiras que hoje a repartem.

Aos 94 anos, segundo a idade estimada, é o corpo desse homem que agora pede cuidado. Raoni foi diagnosticado com um câncer agressivo no aparelho digestório, após sucessivas internações, uma grave obstrução intestinal, cirurgia e episódios de hemorragia. Em razão da idade, das condições clínicas e dos riscos de tratamentos oncológicos mais agressivos, as equipes médicas recomendaram cuidados paliativos.

A expressão ainda provoca medo. Em uma sociedade acostumada a enxergar a medicina como uma guerra permanente contra a doença, os cuidados paliativos costumam ser confundidos com desistência. O Instituto Raoni fez questão de esclarecer que o cacique continua recebendo tratamento, com controle da dor e de outros sintomas, alimentação, hidratação, fisioterapia, assistência de enfermagem, acompanhamento médico e prevenção de complicações.

Há uma mudança de prioridade. Em vez de submeter um homem idoso e clinicamente fragilizado a procedimentos que poderiam ampliar seu sofrimento sem oferecer uma possibilidade razoável de cura, o cuidado passa a se orientar pelo conforto, pela autonomia possível e pela qualidade do tempo que permanece.

raoni
O cacique Raoni Mẽtyktire (Eduardo Kalif/Divulgação)

Raoni passou a vida defendendo o direito dos povos indígenas de decidir sobre seus territórios, seus corpos, seus modos de viver e suas formas de compreender o mundo. Seria uma violência retirar-lhe, justamente agora, a possibilidade de participar das decisões sobre o próprio cuidado. Sua história pede coerência também neste momento. O respeito que lhe devemos inclui reconhecer os limites impostos pela doença e permitir que a medicina caminhe ao lado de sua vontade, de sua família e de sua cultura.

Há algo profundamente significativo no fato de Raoni permanecer próximo de seu povo, cercado por parentes, falando sua língua e recebendo a assistência dos pajés de sua confiança. O tratamento reúne profissionais da medicina, da enfermagem, da fisioterapia e da nutrição, ao mesmo tempo que preserva as referências espirituais do povo Mẽbêngôkre. Os saberes não precisam disputar o leito. Podem se aproximar em torno da pessoa que sofre.

Sua compreensão da existência não cabe inteiramente nos prontuários, nos exames ou nas classificações clínicas. A floresta que ele defendeu durante toda a vida possui dimensões materiais e espirituais inseparáveis. Nela vivem os animais, os rios, as plantas, os antepassados e as forças que sustentam a comunidade. Respeitar essa cosmologia faz parte do cuidado, assim como controlar a dor, garantir alimentação e acompanhar o funcionamento do coração.

A médica Ana Claudia Quintana Arantes, no livro A morte é um dia que vale a pena vivermostra que os cuidados paliativos começam quando a medicina deixa de perguntar somente quanto tempo uma pessoa ainda poderá viver e passa a considerar como ela deseja viver o tempo que possui. Há sempre algo a fazer quando já não existe possibilidade de cura. É possível aliviar a dor, reduzir o medo, favorecer reconciliações, preservar afetos, oferecer companhia e permitir que alguém permaneça reconhecível para si mesmo.

Provavelmente, essa seja uma das formas mais generosas da medicina. Ela já não tenta impor ao corpo uma vitória impossível. Dedica-se a escutar a pessoa inteira, com sua biografia, suas crenças, seus vínculos e seus desejos. O paciente deixa de ser apenas portador de uma enfermidade e volta a ser o centro de sua própria história.

No caso de Raoni, essa história se confunde com parte importante da vida pública brasileira. Ele participou das mobilizações indígenas durante a Assembleia Nacional Constituinte, esteve no encontro de Altamira contra os projetos de grandes hidrelétricas no Xingu, percorreu cerca de vinte países e ajudou a transformar a proteção das terras indígenas em uma questão internacional. 

Em janeiro de 2023, subiu a rampa do Palácio do Planalto na posse presidencial do presidente Lula, imagem que devolveu aos povos originários um lugar simbólico no coração da democracia brasileira. Em 2025, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito.

lula sobe a rampa
FOTO: CARLOS BORGES/SUMAÚMA

As homenagens, entretanto, não esgotam a dívida que o país possui com ele. Raoni atravessou décadas nas quais os indígenas foram tratados como obstáculos ao desenvolvimento, enquanto garimpeiros, madeireiros e invasores avançavam sobre seus territórios. Enfrentou governos, interesses econômicos e campanhas de hostilidade. Viu a floresta perder áreas imensas e acompanhou o assassinato de lideranças que defendiam as mesmas causas. Continuou falando.

Agora, quando sua saúde mobiliza uma ampla rede de assistência, ocorre uma espécie de inversão delicada. O homem que cuidou da floresta precisa ser cuidado. Aquele que dedicou a existência às futuras gerações passa a depender da presença de familiares, profissionais de saúde, amigos e companheiros de luta. Receber cuidados, porém, não diminui sua autoridade. Há dignidade também em permitir que os outros se aproximem.

O poente da vida não apaga o caminho percorrido. A luz muda de direção e alcança, sob outro ângulo, aquilo que uma pessoa construiu. Raoni chega a essa etapa cercado pelo povo cuja existência ajudou a proteger e pela floresta que sempre reconheceu como casa, memória e parentesco. Sua permanência entre os seus possui um valor que nenhum aparato hospitalar conseguiria substituir.

Validar os cuidados paliativos significa reconhecer essa forma de presença. Significa aceitar que a duração biológica não é a única medida de uma vida e que a obstinação terapêutica pode prolongar funções orgânicas enquanto reduz o espaço da pessoa, da família e do afeto. A boa medicina também sabe a hora de aliviar, acompanhar e escutar.

Essa decisão pertence a Raoni, a seus familiares e às equipes responsáveis por sua assistência. Cabe à sociedade respeitar sua privacidade, evitar especulações e compreender que o cacique continua vivo, consciente de sua história e amparado por uma comunidade que reconhece seu valor. O luto antecipado, quando transforma uma pessoa enferma em alguém que já partiu, rouba-lhe o tempo presente. Raoni ainda está aqui.

Está entre familiares, pajés e profissionais de saúde. Continua recebendo alimento, medicação, fisioterapia, atenção espiritual e carinho. Continua sendo cacique, liderança e referência de seu povo. O câncer não suspendeu sua biografia nem reduziu sua existência ao diagnóstico.

Há uma coerência serena nessa escolha. Raoni sempre defendeu que a vida fosse preservada em seus próprios territórios, relações e ritmos. No momento em que seu corpo envelhecido enfrenta uma doença grave, ele recebe um cuidado que procura respeitar esses mesmos princípios. Permanece próximo de sua família, de sua língua, de sua cultura e das presenças espirituais que o acompanharam ao longo da jornada.

É assim que compreendo e acolho a proposta de cuidados paliativos recomendada ao cacique Raoni. Como mulher amazônida, considero que respeitar sua vontade e seu conforto também integra a defesa dos direitos indígenas. Trata-se do direito de viver o tempo restante com dignidade, assistência, autonomia possível e pertencimento.

A floresta conhece os ciclos da matéria. Folhas caem, águas recuam, árvores antigas devolvem nutrientes ao solo e a vida prossegue em outras formas. Raoni ensinou ao mundo a ouvir uma parte dessa sabedoria. Talvez agora possamos retribuir, oferecendo-lhe presença, respeito e silêncio ao redor de suas escolhas.

Que ele permaneça junto aos seus. Que não lhe faltem cuidado, alívio e afeto. E que o país aprenda, diante desse ancião, a reconhecer a dignidade de uma vida inteira também na maneira como acompanha o seu poente.

Artigos Relacionados

Nosso compromisso com o futuro do Amazonas

O setor produtivo assume sua parte na construção de...

Estudo da UFPR liga desmatamento na Amazônia à queda de chuvas no Paraná

Estudo da UFPR liga o desmatamento na Amazônia à redução de chuvas no Paraná, com riscos para lavouras, água e hidrelétricas.

A parte preservada da Amazônia está esquentando 3 vezes mais rápido que o resto da floresta

Aquecimento na Amazônia avança em áreas preservadas e eleva extremos de calor e seca, aponta estudo internacional.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui