ZFM: o inimigo não mora ao lado

Temos a conveniente mania de transferir aos outros a responsabilidade daquilo que nos competiria assumir, e o fazemos com prontidão e despudor, como mecanismo sem-vergonha de justificar omissões. É assim que protelemos ad aeternum o enfrentamento dos dilemas do cotidiano e da história de cada um. Sem deixar claro a quem nos referimos, nem aprofundar os fundamentos das acusações, buscamos inimigos com eficácia para esconder a crueza de nossa ineficiência e protelar a constatação de que nosso maior adversário habita em nós mesmos, no marasmo de uma acomodação estéril que leva a elucubração vazia a lugar algum. Eis, quem sabe, o motivo das lágrimas dos insatisfeitos esconderem o lucro de quem faz delas a fabricação dos lenços. Em sua obra clássica, “A Grande Crise”, sobre a debacle da economia do látex,  Antônio Loureiro reporta os segmentos que se beneficiaram com a comercialização da borracha, sem qualquer empenho ou compromisso de planejar seus desdobramentos ou perenizar seus benefícios: o aparelho estatal, que arrecadou 25% de impostos; os exportadores, que compravam a borracha dos aviadores (os intermediários) para revendê-la no mercado exterior; e os intermediários, especuladores das bolsas de Nova York e Londres. Antes de apontar o dedo para a esperteza dos ingleses, que levaram as sementes da seringueira para cultivo inteligente em seus domínios, até hoje não fomos capazes de admitir que essa acomodação vesga – que se regala com o ganho farto – confirma as origens e fundamentos da quebradeira. Um conformismo que se reprisa a farsa da riqueza perene em sua dimensão de tragédia, onde a expectativa da prorrogação legal da ZFM  será a panaceia de todos os males.

Os lucros da economia gomífera reverteram em benefício de outras regiões brasileiras, ampararam a produção cafeeira do Sudeste e serviram para desenvolver as próprias empresas de plantação racional asiática da seringueira. Nesse contexto, é injusto e insensato crucificar o mercenário inglês Henry Wickham, pelo sequestro das sementes, razão formal e aparente da decadência do Ciclo da Borracha e da consequente crise em que entraram os Estados da região  É importante destacar que, além da hévea, os viajanteseuropeus e suas expedições ditas científicas levaram cacau, milho, batata, tabaco, abacaxi, caju, goiaba, maracujá, mandioca, macaxeira, açaí, guaraná, pupunha, além de quinino, cinchona, ipeca, jaborandi, capim-santo… Muitas dessas espécies voltaram em forma de alimentos e medicamentos beneficiados, com agregação de valor, pela indústria estrangeira. Por outro lado, importamos para a Amazônia brasileira e países da América tropical, grande variedade de produtos da Ásia e da África, tais como manga, jaca, café, arroz, cana-de- -açúcar, banana, entre outros, geradores de economia em escala e commodities lucrativas do agronegócio. O que importa, nessareciprocidade de biodiversidade, é identificar quem fez o dever de casa e agregou inovação e valor a esses produtos, o investimento em inovação e desenvolvimento, que este ou aquele país ou cultura aplicou em cada um desses itens do bioma natural.

É importante revisitar alguns lugares comuns da história da agro e da bioindústria para trazer à luz acertos e negligências, atitudes proativas ou condutas de indiferença e omissão. É neste contexto que se deve refletir a economia do látex e a história do desenvolvimento da Amazônia. É preciso, pois, desfocar a questão que acompanha apogeu e decadência nos diversos ciclos econômicos, desde as ervas do sertão ao modelo vigente da economia regional representado pela Zona Franca de Manaus, segundo a qual “o inferno são os outros”, no célebre aforismo do filósofo francês Jean Paul Sartre, para designar a incapacidade do indivíduo em olhar para si mesmo e identificar aí algumas origens substantivas de seus fracassos. Cosme Ferreira, Antônio Loureiro, Djalma Batista, Samuel Benchimol, para citar alguns pensadores da temática, analisam o sequestro das sementes como sequela natural da lógica da dominação, fator de oportunismo e controle estratégico e da hegemonia política que o domínio do conhecimento propicia, pela tecnologia e racionalidade gerencial, o que hoje dá suporte ao chamado planejamento estratégico. É sintomático que, passados cem anos, ainda não retomamos no bioma amazônico a oportunidade apropriada pelos ingleses em seus domínios asiáticos de cultivo racional da seringueira, em seu habitat natural, geneticamente mais promissor e climaticamente mais produtivo.

Da chupeta que acalma os bebês, passando pelo conforto do tênis, a segurança dos preservativos, à assepsia das luvas e a rapidez dos pneumáticos, a modernidade deve à Amazônia infindáveis benefícios. São 50 mil produtos derivados da borracha natural. Hoje, o Instituto Agronômico de Campinas, 127 anos de P&D, entrega clones de 50cm a R$ 4, com vigor e potencial de produção de borracha superiores aos materiais mais plantados no Estado de São Paulo. Por conta da pesquisa, os seringais mais produtivos do mundo estão em São Paulo, o maior produtor de látex do Brasil. São 90 mil hectares que geram 15 mil empregos no campo, e ene vezes mais na indústria, comércio… Emprego, riqueza, impostos. As pesquisas da Embrapa – na biqueira da ZFM e na ilharga de uma fábrica de pneus, que importa de outros estados a metade do látex que produz – vão na mesma direção e patamar de demonstração no retorno de investimentos. Além da borracha natural, a Embrapa, ao lado do INPA, sabe tudo de óleos vegetais, com fins energéticos, alimentares e cosméticos, item da Nutracêutica, a indústria do rejuvenescimento, cardápio generoso de P&D, que a ZFM costuma esnobar. Enfim, o ministério do Desenvolvimento, trezes anos depois de sua implantação, ainda procura saber o que fazer com o CBA, um megainvestimento das empresas locais em Biotecnologia, atento à manifestação de múltiplos atores locais para confiar sua gestão à Embrapa, com a ajuda institucional de um conselho competente e representativo dos interesses da socioeconomia local. Para a economia alternativa da prorrogação da ZFM, são antigas e escandalosamente óbvias, as trilhas de adoção das novas matrizes econômicas pra começar a conversar…

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Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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