Varíola dos macacos preocupa pela possibilidade de se tornar endêmica no mundo

Eliseu Waldman recomenda medidas não farmacológicas de isolar o paciente, usar máscara e fazer uma boa higienização das mãos, já que a transmissão da doença se dá pelo contato com as lesões cutâneas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu por não categorizar a varíola dos macacos como emergência internacional, mas a doença preocupa por sua velocidade de disseminação e consequente possibilidade de se tornar endêmica em boa parte do globo. O Ministério da Saúde do Brasil confirmou 76 casos da doença no último domingo. A rápida disseminação “sugere que ela [a doença] talvez já estivesse circulando, porque cresce muito rapidamente e simultaneamente em vários países”, afirma Eliseu Waldman, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição. Os surtos anteriores estavam circunscritos a situações como viagens e importação de roedores para pesquisas laboratoriais.

Atualmente, a categoria de emergência global se aplica apenas à pandemia de coronavírus e à pólio. Waldman explica que um dos critérios dessa classificação é uma disseminação ampla que exija um esforço organizado dos países, com impacto no trânsito e comércio internacionais. “Creio que o que levou as autoridades a não declararem a emergência ainda é justamente o pequeno impacto no trânsito internacional e no comércio.”

Animais domésticos

Outra questão que acende um sinal de alerta é em relação aos animais domésticos, envolvidos numa das maiores epidemias desse século, ocorrida nos Estados Unidos, conta o professor, “o que aumenta o risco de que essa infecção se torne endêmica”. Há chances de esses animais se tornarem hospedeiros de zoonoses, assim como roedores e primatas.

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Eliseu Waldman – Foto: Researchgate

Para lidar com a varíola, as autoridades de saúde precisam monitorar os novos casos, em especial os autóctones, aqueles de transmissão local, e seus contatos, estabelecendo um sistema de notificação para o isolamento dos pacientes. “O que seria importante, e isso internacionalmente não é disponível, é a vacinação dos contatos.” Somente alguns países, como Inglaterra e Estados Unidos, estão vacinando, mas não há estoque para todos, além de grande parte das agências regulatórias não terem aprovado o produto.

Como a transmissão se dá principalmente pelo contato com as lesões cutâneas que a doença provoca, e que podem durar até quatro semanas, Waldman recomenda as medidas não farmacológicas de isolar o paciente, usar máscara e fazer uma boa higienização das mãos.

Texto publicado originalmente por Jornal da USP

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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