Relatórios globais revelam que o Sul Global sofre os maiores impactos ambientais e sociais

Com menos recursos e maior vulnerabilidade climática, o Sul Global enfrenta desafios para encontrar o próprio caminho de desenvolvimento sustentável.

Faltando pouco mais de um mês para a COP30, dois relatórios internacionais lançam um alerta sobre os riscos ambientais e sociais a nível global. Cientistas confirmaram por meio do Planetary Health Check a transgressão de sete dos nove limites planetários e ressaltam a importância da defesa por um novo modelo de desenvolvimento, capaz de unir justiça social e equilíbrio ecológico, com atenção especial ao contexto do Sul Global.

O conceito de Limites Planetários, criado pelo Stockholm Resilience Centre, define os processos fundamentais para manter a estabilidade do sistema terrestre. Segundo a atualização de 2025, os limites já ultrapassados envolvem biodiversidade, mudanças climáticas, uso da terra, ciclos de nitrogênio e fósforo, uso de água doce, poluição química e acidificação dos oceanos. Apenas dois limites — o ozônio estratosférico e a carga de aerossóis atmosféricos — permanecem dentro da zona segura.

Gráfico dos limites planetários destacando os processos ecológicos já ultrapassados
Foto: Azote for Stockholm Resilience Centre, CC BY

Ao mesmo tempo, as pesquisas científicas passam a se voltar também para o fator social. Um estudo publicado na revista Nature, atualiza as informações sobre a Economia Donut. O modelo de análise desenvolvido pela economista Kate Raworth propõe que o desenvolvimento humano aconteça entre dois limites: o social (necessidades básicas) e o ecológico (fronteiras do planeta). Hoje, 85% da população mundial vive abaixo da linha de pobreza social. Além disso, indicadores do modelo como “voz política”, “justiça” e “paz” são os mais críticos.

O estudo mostra que de 2000 a 2022, a taxa média de melhoria social foi de apenas 0,5 ponto percentual ao ano, ritmo considerado lento. Seria necessário avançar 2,8 vezes mais rápido para alcançar os objetivos até 2030. Enquanto isso, a pesquisa afirma também que os países com a maior Renda Nacional Bruta (RNB), onde se encontram os 20% mais ricos da população global, são responsáveis pela maior parte do impacto ambiental, enquanto os 40% mais pobres, em sua maioria concentrados no Sul Global, vivem em situação de privação e sofrem a maioria dos impactos ecológicos e sociais.

Gráfico explicativo do modelo de Economia Donut com zonas de déficit e excesso. Modelo ainda é desafiado por pesquisadores que defendem ser impossível para o Sul Global.
Fonte: Doughnut Economics

Entretanto, os pesquisadores Muhammad Osmar Khan e James Balzer, ressaltam no seu artigo “Reimagining doughnut economics for the Global South” que o cenário do Sul Global apresenta características específicas que exigem repensar o modelo econômico da Economia Donut. Dentre os dados apresentados na pesquisa, estão o de que 85% da população da África permanece sem acesso à eletricidade e no Brasil, 28,5 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar.

Diante desse cenário, os cientistas demonstram que o crescimento justo do Sul Global, a garantia de direitos básicos e a estabilização desse contexto precisam ocorrer previamente para que se possa alcançar um ponto de equilíbrio ecológico e social, como propõe o conceito da Economia Donut. Por enquanto, apesar das contribuições, a teoria de Rasworth ainda é vista como distante para o Sul Global. Para que ocorra é preciso reconhecer desigualdades históricas, incluir saberes de culturais locais e priorizar a justiça ecológica.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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