Suframa: a falta que a autonomia faz

Até quando vamos precisar da anuência de Brasília para levar adiante os projetos de desenvolvimento em que acreditamos e de que padecemos? Por que ficar reféns de anúncios messiânicos do governo central para gerar riqueza e oportunidades na Amazônia se somos nós que conhecemos saídas e atalhos para a prosperidade econômica? Nosso repertório é composto de alternativas mas também de desconfiança que nos permitem detectar as soluções mágicas. São mágicas porque desprovidas de conhecimento e de envolvimento coerente e consistente com esta região. Já temos motivos de sobra para suspeitar de programas produzidos em gabinetes refrigerados dentro do modelo aloprado de planejar sem consultar nem partilhar. Até quando? 

A pirotecnia do modelo Dubai – novas modulações para substituir a ZFM – não é apenas um amontoado de intenções. A principal delas já está em curso. As medidas, aos poucos, vêm à tona, incluindo os alertas e decisões econômicas comunicadas pelo Twitter presidencial. A expectativa de fazer do Conselho de Administração da Suframa-CAS o lócus de decisão gerencial do modelo já está ficando na saudade. Reconhecemos o empenho do Superintendente mas sabemos que os passos dessa estrada tem tudo para dar em nada. Faz lembrar o ministro do Desenvolvimento do governo Dilma, Fernando Pimentel, quando, na carona da Lei de Informática, em 2015, queria beliscar a instalação de uma empresa de celulares, tablets e notebooks, para Belo Horizonte. Quando indagado sobre os direitos de Manaus, ele nos mandou procurar nossa base ecológica. Nem ele sabia o alcance dessa desconversa. E o quanto seu governo travou.

Ora, neste fim de semana, e na carona de Donald Trump, o Presidente resolveu reduzir de 16% para 4% as alíquotas de importação, no vai da valsa dos produtos do Polo de Informática, um tabefe no cocuruto das empresas do setor que serão obrigadas a desmontar seus polos de componentes. Em vez de copiar Trump na proteção das empresas e trabalhadores americanos, que tascou 15 a 25% de taxas para produtos chineses, o Brasil agiu às avessas. Reduziu as taxas de importação para baratear o custo dos produtos do setor. Assim procedendo ele vai jogar, estima-se, 6 mil trabalhadores do Polo Industrial nas ruas da amargura e do desemprego. 

Vamos, então, empregar trabalhadores asiáticos por tabela e decisão  administrativa. Ao menos sua excelência foi honesto e reconheceu publicamente não entender nada de economia quando assumiu o cargo. Entendemos a ilação do Superintendente da Suframa de dizendo ser leviano afirmar que o Plano Dubai pretende extinguir a Zona Franca de Manaus, mesmo tomando bola nas costas. De fato, prometeram-lhe deixar em paz a economia do Amazonas. E promessa está sendo cumprida ao pé da letra. Na paz dos cemitérios. Seja louvada a boa vontade e o otimismo de Alfredo Menezes. Nós só enxergamos a boa vontade alheia se boa vontade existe em abundância em nosso repertório de valores. Às vezes, porém, isso nos cega para as esparrelas do cotidiano vinda daqueles que consideramos parceiro e alinhado com os mesmos propósitos. 

O amontoado de intenções que foram chamadas de Plano Dubai nada tem de novidade, apenas a leviandade do desconhecimento e do açodamento. São tão mirabolantes que dispensaram a convocação dos atores locais para uma troca de ideias e proposições. Os cenários federais são desenhos antigos, certamente sacados de artigos e entrevistas dos estudiosos locais. Essas saídas tem sido postas à mesa da União Federal desde as origens da implementação do Decreto 288/67.  Entretanto, como a ordem é contingenciar e destinar para outros fins a riqueza que aqui tem sido gerada, do jeito que está nada ocorrerá. Pra dar sequência ao plano Dubai ou gestão da ZFM a partir do CAS, não é segredo para ninguém, falta-nos plata e autonomia, e sobra desgoverno e pirotecnia e, de quebra, muita agonia…

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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