“Eu, Curupira, sigo correndo entre as árvores. Meus pés voltados para trás confundem quem quer destruir, mas apontam o caminho certo a quem vem em paz. Se querem um Mapa do Caminho, olhem para mim”
Falaram em Mapa do Caminho lá nas terras de concreto e ar-condicionado, e eu, que guardo as veredas da floresta desde o primeiro trovão, escutei daqui, entre o som das cigarras e o cheiro da terra molhada. Fiquei pensando: eles querem desenhar o caminho que esqueceram de seguir. Mas caminho não se desenha, meus filhos — caminho se escuta. A terra fala, o vento sopra, o rio avisa. Só quem põe o pé descalço entende o rumo.
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Dizem que esse mapa nasceu em Dubai, no meio do deserto. Lá onde o petróleo brota em vez de rio e o sol castiga sem floresta para amansar o calor. Agora o mapa chega à Belém, cidade que respira umidade e esperança. Vejo gente do mundo inteiro, uns de terno e gravata, outros de olhar cansado e fé no peito, tentando decidir o que eu já sei há séculos: não há futuro possível se a fogueira do homem continuar queimando o coração da Terra.
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Marina, filha das águas, fala com o tom das folhas. André, o diplomata, costura palavras como quem tece cipó entre galhos frágeis.
E o presidente, que conhece o cheiro do barro, disse mais de uma vez:
“Vamos fazer o mapa do caminho para nos livrar dos combustíveis fósseis.” Eu o ouvi.
E o vento também ouviu. Mas lá longe, nas terras de areia e fumaça, os donos do petróleo cruzaram os braços. Fecharam questão contra o mapa. Não querem abrir mão da riqueza que escorre negra e quente, como se não percebessem que ela é o suor da Terra febril, pedindo repouso.
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A França acenou com cortesia. Os outros ainda calculam ganhos e perdas, olhando o mundo por cima de planilhas, sem notar o chão que se move. E o Brasil, coitado e valente, carrega nas costas o peso e a honra de tentar ser farol. O Itamaraty teme o isolamento — e com razão. Mas quem anda comigo sabe: às vezes é preciso andar sozinho para ensinar os outros a voltar.
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Eu, Curupira, sigo correndo entre as árvores. Meus pés voltados para trás confundem quem quer destruir, mas apontam o caminho certo a quem vem em paz. Se querem um Mapa do Caminho, olhem para mim. Sou o mapa, o aviso e a memória. Sou o guardião das trilhas que ligam o homem à sua origem. E se me ouvirem com atenção, saberão: o futuro não se negocia — se protege.
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Em Tempo
Pra que serve a democracia?
Os verdadeiros donos da casa — os povos originários da Amazônia — fecharam nesta sexta-feira, 14 de novembro, as portas principais do Palácio dos Bacanas, onde acontecem as grandes reuniões no ar refrigerado. Fizeram-no em protesto, não por vaidade, mas por dignidade. Enquanto os chefes de Estado discutiam sob luz fria e café estrangeiro, as verdadeiras autoridades estavam do lado de fora, agasalhadas por um calor sem árvores, sem sombra e sem brisa dos rios.
De Nova Iorque, a ONU protestou, dizendo ser “uma questão de segurança”. Mas aqui, sob o sol amazônico, todos sabem: não é segurança — é justiça climática. Ou precisa desenhar