Verticalizar cadeias produtivas, fortalecer a indústria nacional de componentes e incorporar os insumos da floresta à manufatura são caminhos convergentes para ampliar a competitividade da Zona Franca de Manaus e distribuir desenvolvimento pelo Norte e Nordeste. Inspirado pelos alertas do manifesto da Abraciclo, o debate aponta para uma política industrial capaz de integrar inovação, bioeconomia e soberania produtiva.
O manifesto divulgado pela Abraciclo, no contexto de seu Cinquentenário e em defesa da indústria brasileira de duas rodas instalada na Zona Franca de Manaus recoloca em evidência um tema que transcende o setor de motocicletas e bicicletas. O documento reafirma a importância da produção nacional, do cumprimento do Processo Produtivo Básico e da geração de empregos, renda e tecnologia como pilares de uma política industrial comprometida com o desenvolvimento do país.
A indústria brasileira consolidou importantes capacidades de produção ao longo das últimas décadas. Em Manaus, particularmente, formou um dos mais sofisticados parques industriais da América Latina, responsável por milhares de empregos qualificados, investimentos permanentes e crescente incorporação tecnológica. O desafio que se apresenta agora é um passo à frente. Trata-se de ampliar a densidade das cadeias produtivas, fazendo com que uma parcela cada vez maior dos componentes, insumos, tecnologias e serviços utilizados pela indústria seja produzida em território nacional.
Muito além da montagem
Durante muito tempo, a competitividade industrial foi medida pela capacidade de fabricar o produto final. Hoje, o diferencial está na robustez da cadeia de fornecedores.
Cada motocicleta, bicicleta, equipamento eletrônico ou eletrodoméstico reúne centenas de componentes produzidos por empresas distintas. Quanto maior a participação da indústria brasileira nesse processo, maior será a geração de empregos, inovação, arrecadação e conhecimento tecnológico.
É justamente por isso que a verticalização produtiva deve ocupar posição central na política industrial brasileira das próximas décadas. Não basta preservar a indústria instalada. É preciso fortalecer a indústria que abastece essa indústria.
Norte e Nordeste como protagonistas
Essa agenda abre uma oportunidade singular para o Norte e o Nordeste. A expansão da fabricação nacional de componentes pode transformar essas regiões em polos complementares ao Polo Industrial de Manaus, criando uma rede integrada de fornecedores capaz de reduzir custos logísticos, ampliar a competitividade nacional e distribuir investimentos por áreas historicamente menos industrializadas.
Universidades, institutos federais, centros tecnológicos e parques industriais existentes oferecem condições favoráveis para esse novo ciclo de desenvolvimento. Em vez de concentrar fornecedores em poucas regiões do país, o Brasil pode construir uma cadeia produtiva mais distribuída, resiliente e integrada.
A pandemia demonstrou que cadeias excessivamente dependentes de importações tornam economias inteiras vulneráveis às rupturas internacionais. Produzir localmente deixou de representar apenas eficiência econômica. Tornou-se também uma estratégia de segurança produtiva.
A floresta como parceira da indústria
Na Amazônia, entretanto, essa verticalização pode alcançar uma dimensão ainda mais transformadora. O adensamento das cadeias produtivas não precisa limitar-se aos componentes metálicos, eletrônicos ou mecânicos. A própria floresta oferece uma extraordinária plataforma de inovação industrial.
Fibras vegetais, borracha natural, resinas, pigmentos, óleos essenciais e bioativos provenientes da sociobiodiversidade amazônica podem abastecer segmentos tão diversos quanto a indústria de duas rodas, os eletroeletrônicos, a química fina, os cosméticos, a indústria farmacêutica, os novos materiais e as embalagens sustentáveis.
Essa integração entre floresta e indústria – sempre amparada no critério da sustentabilidade – representa uma das maiores vantagens competitivas que o Brasil possui e ainda explora muito aquém de seu potencial.
A nova economia da borracha
Poucos exemplos simbolizam melhor essa oportunidade do que a borracha natural. Durante décadas, os seringais sustentaram parte importante da economia amazônica e abasteciam a indústria em plantas fabris no estrangeiro. Hoje, diante da crescente demanda mundial por matérias-primas renováveis e de baixa emissão de carbono, abre-se a possibilidade de reconstruir essa cadeia sob bases tecnológicas inteiramente novas.
A produção de elastômeros naturais para pneus, sistemas de vedação, componentes técnicos e diversas aplicações industriais pode devolver protagonismo econômico aos seringais, estimular o manejo sustentável da floresta e gerar renda para milhares de famílias extrativistas.
Não se trata de recuperar o passado. Trata-se de construir uma nova economia florestal utilizando ciência, inovação e mercado.
Bioativos que agregam valor
O mesmo raciocínio aplica-se às oleaginosas amazônicas. Andiroba, copaíba, pracaxi, buriti, babaçu, tucumã e inúmeras outras espécies oferecem compostos de elevado valor agregado, reconhecidos internacionalmente pelas indústrias cosmética, farmacêutica, alimentícia e química.
Grande parte desse potencial, entretanto, ainda deixa a Amazônia sob a forma de matéria-prima ou permanece economicamente subutilizada.
Incorporar esses insumos às cadeias industriais significa ampliar o conteúdo regional da produção, estimular a pesquisa científica, fortalecer comunidades extrativistas e consolidar uma bioeconomia capaz de gerar riqueza mantendo a floresta em pé.
Uma política industrial para o século XXI
O fortalecimento da indústria brasileira passa, cada vez mais, pela convergência entre manufatura avançada, inovação tecnológica, sustentabilidade e desenvolvimento regional.
Linhas de financiamento, programas de desenvolvimento de fornecedores, pesquisa aplicada, qualificação profissional e estabilidade regulatória passam a ter importância equivalente aos incentivos tributários.
Nesse contexto, a preservação constitucional da competitividade da Zona Franca de Manaus, consolidada pela reforma tributária, oferece ao país um ambiente de previsibilidade capaz de estimular investimentos de longo prazo.
Esse ambiente precisa agora ser aproveitado para acelerar a verticalização das cadeias produtivas e ampliar o conteúdo tecnológico nacional.
A plataforma bioindustrial brasileira
Este é o desenho do próximo ciclo da industrialização brasileira.
A Zona Franca de Manaus reúne experiência fabril, infraestrutura industrial, centros de pesquisa, universidades, biodiversidade e uma localização estratégica singular. Poucos lugares no mundo conseguem reunir esses ativos de forma tão integrada.
Transformar Manaus em uma plataforma bioindustrial significa conectar ciência, indústria, inovação e floresta numa mesma estratégia de desenvolvimento.
Significa produzir mais componentes brasileiros, incorporar insumos da biodiversidade às cadeias industriais, fortalecer fornecedores nacionais e distribuir oportunidades por toda a região Norte e Nordeste.
O manifesto da Abraciclo recorda que uma indústria forte beneficia trabalhadores, consumidores e toda a sociedade. A próxima etapa consiste em ampliar esse conceito, fazendo da verticalização produtiva e da bioeconomia duas faces da mesma política de desenvolvimento.
O futuro da indústria brasileira dificilmente será construído apenas dentro das fábricas.
Ele dependerá da capacidade de conectar inteligência tecnológica, conhecimento científico, cadeias produtivas robustas e o patrimônio natural que distingue o Brasil diante do mundo.
Esta, com certeza, é a maior contribuição que a Amazônia pode oferecer ao projeto nacional de desenvolvimento: demonstrar que a indústria do século XXI pode crescer a partir da floresta, com a floresta e não apesar dela.