Plantas zumbis desenvolveram a habilidade singular de sobreviver completamente desidratadas, entrando em um estado de dormência extrema e “revivendo” com a presença de água
Em um futuro marcado pelas mudanças climáticas, evento climáticos extremos, como enchentes e secas prolongadas podem tornar-se cada vez mais comuns. Para a agricultura, longos períodos sem chuva podem prejudicar, e muito, no sucesso de alguns tipos de cultura.
Mas a solução parece possível: pesquisadores descobriram recentemente alguns tipos de “plantas zumbis”, ou “plantas de ressureição”, que são capazes de sobreviver por meses sem água, mesmo com folhas escuras e frágeis. No momento em que recebem água novamente, voltam a ficar verdes em questão de horas.

O que são as “plantas zumbis”?
As chamadas “plantas de ressurreição” são um grupo muito raro dentro das angiospermas, que são as plantas produtoras de flores. Entre as 352 mil espécies floridas conhecidas, apenas 240 desenvolveram a habilidade singular de sobreviver completamente desidratadas, entrando em um estado de dormência extrema e “revivendo” com a presença de água. Elas podem tolerar perdas de água de mais de 95%, enquanto plantas convencionais morrem quando perdem de 10% a 30% de água.
Curiosamente, essas plantas não estão relacionadas entre si; cada uma evoluiu essa capacidade de forma independente, o que indica que diversas linhagens conseguiram acessar um conjunto genético ancestral comum, uma espécie de “caixa de ferramentas” no DNA, ativada em situações de seca prolongada e severa.
Elas são encontradas em ambientes hostis, como encostas rochosas e solos de cascalho, principalmente na África do Sul, Austrália e América do Sul. A semelhança nas estratégias de sobrevivência entre espécies tão distintas reforça a ideia de que contam com mecanismos genéticos compartilhados e profundos.

Plantas de ressureição na agricultura
A ocorrência cada vez mais frequente de secas repentinas e fora de época tem tornado a adaptação à escassez de água uma necessidade urgente na agricultura. Por isso, cientistas como Jill Farrant, professora de tolerância à dessecação da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, entrevistada em reportagem da BBC, têm investigado os mecanismos genéticos e fisiológicos dessas plantas para tentar transferir sua habilidade para cultivos agrícolas comuns, tornando-os mais resilientes à seca e ajudando a garantir a segurança alimentar diante das mudanças climáticas.
“Simplesmente não teremos alimentos suficientes”, prevê Farrant, se a crise climática continuar em seu ritmo atual. “Por isso, precisamos ser extraordinariamente criativos.”

Pesquisas recentes lideradas pela pesquisadora revelam que a resistência à dessecação em plantas de ressurreição pode estar ligada a genes já presentes nas sementes da maioria das plantas com flores, como arroz, milho e trigo.
Isso significa que a criação de cultivos resistentes à seca pode não exigir modificações genéticas transgênicas, ou seja, não é necessário inserir genes de outras espécies, o que antes era esperado pelos pesquisadores. Em vez disso, seria possível reativar, por meio de engenharia genética ou edição genômica, os mesmos mecanismos usados pelas sementes para sobreviver sem água.
Apesar de ainda contar com alguns desafios, como a possibilidade de a ativação desse genes interferir na produtividade de uma plantação – algo negativo quando se trata de agricultura – essa descoberta abre caminhos mais acessíveis e socialmente aceitos para desenvolver lavouras mais resilientes às mudanças climáticas. “Elas poderão ter baixo rendimento, mas o agricultor de subsistência ainda terá um produto”, explica Farrant. “Independentemente de chover por 10 dias ou por dois anos.”
