Dengue: entenda o que as mudanças climáticas e o desmatamento tem a ver com a expansão dos casos

Pesquisa revela que mudanças climáticas e urbanização aceleram a disseminação da dengue no Brasil, mesmo com avanços na redução da letalidade graças a ciência.

A escalada nos casos de dengue em regiões do Brasil, anteriormente menos afetadas, está sendo impulsionada por sucessivas ondas de calor, um subproduto das alterações climáticas, juntamente com o desenvolvimento urbano incompleto e o intenso fluxo de pessoas. Esta foi a principal descoberta da pesquisa intitulada “Mudanças climáticas, anomalias térmicas e a recente progressão da dengue no Brasil”, conduzida por especialistas do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) em colaboração com o Centro de Supercomputação de Barcelona, na Espanha.

Um artigo divulgado na plataforma Scientific Reports, pertencente ao grupo Nature, destaca que a propagação da dengue para as áreas Sul e Centro-Oeste do Brasil está vinculada a eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, além do avanço econômico em direção à Amazônia, facilitado pela construção de vias e o desmatamento de florestas primárias.

AmazoniaDesmatamento Foto Carl de Souza AFP
foto: Carl de Souza

A importância do fator temperatura

A temperatura é identificada como um elemento ambiental fundamental que influencia a proliferação dos mosquitos e, consequentemente, a transmissão da dengue. A reprodução do mosquito Aedes aegypti ocorre em temperaturas entre 18 e 33 °C, sendo o intervalo de 21 a 30 °C considerado ideal para a manutenção da transmissão da doença, uma condição prevalente na maior parte do território brasileiro.

Dengue: entenda o que as mudanças climáticas e o desmatamento tem a ver com a expansão dos casos

“No interior do Paraná, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul, o aumento de temperaturas está se tornando quase permanente. A gente tinha cinco dias de anomalia de calor, agora são 20, 30 dias de calor acima da média ao longo do verão. Isso dispara o processo de transmissão de dengue, tanto por causa do mosquito quanto pela circulação de pessoas”, afirmou Cristovam Barcellos, pesquisador líder do estudo no Icict/Fiocruz.

A região Sudeste, já familiarizada com ondas de calor frequentes, observou um aumento de dias quentes de 10 para 24 dias por mês. A região Sul, anteriormente com menor incidência de anomalias térmicas, registrou até 10 dias de temperaturas elevadas nos últimos anos.

Desmatamento e Dengue

Barcellos também ressalta que o desmatamento acelerado contribui para a expansão da dengue no Centro-Oeste do país. As áreas afetadas pelo aumento das temperaturas são também as que enfrentam intensa degradação ambiental. Nas cidades localizadas no Cerrado, a existência de “ilhas de calor”, especialmente em bairros periféricos com infraestrutura sanitária precária, complica ainda mais o combate ao mosquito transmissor.

A pesquisa aplicou métodos de mineração de dados para investigar a relação entre anomalias térmicas, variáveis demográficas e as alterações nos padrões de incidência da dengue durante um período de 21 anos (2000-2020) nas microrregiões brasileiras.

O Brasil registrou, até o momento, 1.684.781 casos prováveis de dengue neste ano, acompanhados de 903 óbitos em investigação e 513 mortes confirmadas, conforme os dados mais recentes fornecidos pelo Ministério da Saúde.

Nisia Trindade Minsitra da Saude foto Walterson Rosa MS
A ministra da Saúde, Nísia Trindade – foto: Walterson Rosa/MS

Avanços na redução da letalidade

Embora os números sejam elevados, observa-se uma diminuição nas taxas de letalidade. A proporção de mortes em relação ao total de casos prováveis caiu para 0,03% nas primeiras 10 semanas deste ano, comparado aos 0,07% do correspondente período em 2023. Em relação aos casos graves, a letalidade atual é de 3,4%, uma redução significativa em comparação aos 5,1% registrados no ano anterior.

Ethel Maciel, a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente, esclareceu em uma nota que a taxa de letalidade, diferentemente da taxa de mortalidade, reflete a mortalidade entre os indivíduos efetivamente acometidos pela doença dentro da população em risco.

“Por exemplo: em uma população de 200 milhões de pessoas, se ocorrerem 200 óbitos, trata-se de um evento menos frequente. Se a gente comparar a letalidade de agora com a do ano passado, ela é menor”, destacou. “Atualmente, temos mais pessoas doentes, mas menos óbitos. Isso indica uma melhoria na qualidade da assistência médica, especialmente no diagnóstico e tratamento precoce e adequado.”

Em um artigo para o Um Só Planeta, André Castro Santos aborda possíveis estratégias diante deste cenário. O Brasil se destaca por ser o primeiro país a disponibilizar a vacina contra a dengue no sistema público de saúde, estabelecendo um precedente global. Além disso, Santos enfatiza a importância de prestar atenção à infraestrutura urbana e de investir em educação e informação para a população sobre como prevenir a proliferação dos mosquitos transmissores de doenças como dengue, chikungunya e malária.

Com informações do Um Só Planeta

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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