Investimentos estrangeiros na Amazônia

“O caminho que pode presentear um futuro melhor para o investimento estrangeiro, atendendo aos interesses brasileiros e do investidor, será a instalação de uma indústria que faça uso dos recursos da região, voltada para atendimento de mercados globais, com estrutura sustentável e desenvolvimento de Pesquisa e Inovação tecnológica localmente, para usar mão de obra qualificada e não qualificada dos mercados locais”

Augusto Rocha
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Temos uma longa tradição de investimentos estrangeiros na Zona Franca de Manaus (ZFM), afinal a maior parte das empresas instaladas por aqui são de outros países. Os investimentos estrangeiros diretos (FDI, foreign direct investments) estão normalmente associados com busca de recursos, de mercados ou de eficiência. Somos uma área reconhecida como um local interessante para atrair investimentos na busca do mercado nacional, mas não me parece ser o caso de busca de recursos ou de eficiência, pois o nosso isolamento está longe de ser eficiente, apesar de próximo de recursos, mas estes estão quase “intocáveis”, pelo menos para os que seguem a formalidade das leis.

Assim, a nossa área industrial é uma evidência de que somos um polo de atração de recursos para a busca de mercados. Em geral os insumos são importados e as vendas são para o mercado nacional, fazendo uso do diferencial de imposto para as duas condições. Nosso pedágio tributário é menor do que em outras regiões e isso compensa o expressivo custo de logística. Tirando estes aspectos, a nossa atratividade é mínima para captar investimentos.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Seguir a atrair investidores industriais com um apelo tributário e de acesso à mercados será cada vez mais difícil, por conta da ociosidade e escalas atingíveis mundo afora, ou talvez interessante se for considerada a nova situação cambial, onde há uma relativa redução dos custos para uma empresa estrangeira operar por aqui. Assim, novamente se abre uma oportunidade para atração de indústrias, com o propósito de acessar o mercado brasileiro, caso a relação cambial permaneça como a atual.

Entretanto, carece-nos uma abertura ou desregulamentação, ou liberalização para a atração dos demais tipos de investimentos estrangeiros. Aqueles que venham para cá em busca de recursos, que nos tornam únicos, mas não exclusivamente com o propósito extrativista de terra-arrasada, onde, por exemplo, extraem-se minérios, mas não se agrega recurso local. Seria um equívoco seguir direção já experimentada em outras áreas da região Norte, como Carajás ou a Serra do Navio ou até mesmo de agronegócio no estilo do Centro-oeste, com a soja ou gado.

O caminho que pode presentear um futuro melhor para o investimento estrangeiro, atendendo aos interesses brasileiros e do investidor, será a instalação de uma indústria que faça uso dos recursos da região, voltada para atendimento de mercados globais, com estrutura sustentável e desenvolvimento de Pesquisa e Inovação tecnológica localmente, para usar mão de obra qualificada e não qualificada dos mercados locais.

Se conseguirmos construir este cenário, será possível evoluir para o terceiro tipo de atração de investimentos estrangeiros, como uma evolução, na busca da eficiência. Caso isso tenha sucesso, teremos construído efetivamente, o sonho de uma área pujante: atrair todo o tipo de investimento estrangeiro, por motivos de recursos, mas não puramente extrativista, mas também por eficiência e pelo que nós possuímos e somos. Este é um caminho que pode ser trilhado na região e a concepção deste modelo pode e precisa ser realizada.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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