A escola pública diante da IA e da desigualdade que pode aumentar
“O acesso à Inteligência Artificial acompanha as diferenças de renda e escolaridade no Brasil. Mariana Leite defende formação de professores, infraestrutura e uma aprendizagem que ajude os estudantes a questionar, criar e aplicar conhecimento à própria realidade“
Entrevista realizada pelo editor-geral Alfredo Lopes – Brasil Amazônia Agora
No episódio anterior, Mariana Leite propôs um exercício simples. Depois de consultar uma Inteligência Artificial, fechar a resposta e tentar explicar, com as próprias palavras, o que havia sido compreendido. A dificuldade de realizar essa tarefa pode revelar a distância entre receber informação e aprender.
Na escola, essa questão ganha uma dimensão coletiva. Alunos chegam à sala de aula com condições muito diferentes de acesso à tecnologia, de acompanhamento familiar e de domínio da leitura. A possibilidade de consultar uma ferramenta de IA se incorpora a essas diferenças, enquanto os professores precisam decidir como utilizá-la em atividades que produzam aprendizagem.
Os números ajudam a compreender o ponto de partida. Segundo a TIC Domicílios 2025, entre os usuários de internet, o uso de IA generativa alcança 69% na classe A e 16% nas classes D e E. A distância também aparece na escolaridade, com 59% entre aqueles com ensino superior e 17% entre os que têm ensino fundamental. São diferenças que antecedem a chegada dessas ferramentas e influenciam as oportunidades de aproveitá-las. (cetic.br)
É nesse contexto que Mariana situa a responsabilidade da educação pública. Sua iniciativa de oferecer gratuitamente uma apostila e capacitação para professores se relaciona com uma preocupação mais ampla, presente nesta entrevista: preparar quem acompanha a formação dos estudantes e conhece as dificuldades concretas da sala de aula.
Neste sétimo episódio, retomamos a quarta pergunta da entrevista. Os trechos da resposta foram organizados por tema, com pequenos ajustes de edição.
BAA — O Brasil ainda apresenta grandes desigualdades no acesso à educação tecnológica. Sua iniciativa de oferecer gratuitamente uma apostila e capacitação para professores demonstra preocupação com essa realidade. Que papel a educação pública deve desempenhar para evitar que a IA amplie essas desigualdades?
Uma tecnologia que encontra oportunidades desiguais
Mariana Leite
No Brasil, a discussão sobre IA na educação precisa começar pelo recorte da desigualdade. O acesso e o uso dessas ferramentas ainda estão concentrados nas camadas sociais e educacionais que já tinham mais vantagem antes da IA.
Se as escolas públicas não reagirem, a IA pode acelerar a desigualdade que já existe, porque quem já tinha vantagem educacional e de acesso vai aprender a usar essas ferramentas mais rápido e melhor.
Mas o ponto que considero mais importante é também como ensinar. A tentação óbvia é tratar IA como mais um conteúdo isolado, uma disciplina nova, mais uma ferramenta.
Aprender a questionar a resposta
Mariana Leite
A IA precisa ser considerada de forma transversal, apoiando as áreas do conhecimento, e não empilhada como mais uma matéria.
Não adianta ensinar a ferramenta se a escola não formar, ao mesmo tempo, pensamento crítico, analítico e empreendedor, porque sem isso a pessoa aprende a usar o botão, mas não aprende a questionar a resposta, criar algo novo com ela ou aplicar isso na prática da própria vida.
Na prática, o papel da educação pública deveria ser formar curiosidade, criando o hábito de experimentar, questionar, criar e aplicar, em vez de só consumir resposta pronta.
A infraestrutura que precisa acompanhar a proposta
Mariana Leite
Também não basta falar em IA sem falar em infraestrutura. Para muitas escolas públicas, o desafio ainda passa por conectividade, equipamentos, plataformas seguras, proteção de dados e suporte técnico.
Sem isso, “ensinar IA” vira mais uma exigência para redes e professores que já operam com recursos limitados.
A formação começa por quem ensina
Mariana Leite
Um aluno que aprende matemática usando IA de forma crítica sai sabendo mais matemática e mais sobre como pensar; um aluno que só copia a resposta da IA sai sem nenhum dos dois.
A diferença entre essas duas trajetórias está em como a escola ensina a se relacionar com a tecnologia e suas aplicações na vida e na sociedade.
E para isso precisaremos começar a preparar os professores com mais afinco e atenção, porque eles vão multiplicar esse conhecimento e essa dinâmica do uso da IA pelos alunos.
O que essa discussão exige da Amazônia
A proposta de Mariana oferece um critério para pensar a adoção da IA nas redes amazônicas. Uma atividade precisa fazer sentido para o currículo, para a turma e para as condições de trabalho do professor. A escolha da plataforma vem acompanhada de outras decisões, entre elas o tempo destinado à formação, a manutenção dos equipamentos e a possibilidade de dar continuidade ao trabalho quando a conexão falha.
Há caminhos pedagógicos que podem aproximar a tecnologia da experiência dos estudantes. Uma turma pode confrontar uma descrição gerada por IA sobre seu município com documentos, entrevistas e observações locais. Pode verificar se uma explicação sobre os rios corresponde ao que os moradores conhecem, identificar ausências num texto sobre a história regional ou examinar o raciocínio utilizado para resolver um problema matemático. São possibilidades de trabalho, cuja pertinência depende da idade dos alunos e da orientação docente.
Nessas atividades, o professor acompanha como a turma formula perguntas, reúne evidências e revê conclusões. O conhecimento da comunidade também participa da aprendizagem, oferecendo elementos para reconhecer generalizações e erros que uma resposta bem escrita pode encobrir.
A formação docente precisa ter espaço na jornada de trabalho, continuidade e apoio pedagógico. Uma oficina pode abrir possibilidades; incorporá-las ao ensino requer tempo para experimentar, discutir resultados com colegas e adaptar as atividades. A disposição individual dos professores ganha alcance quando encontra uma política educacional capaz de sustentá-la.
A preocupação de Mariana com a desigualdade atravessa toda essa discussão. Se a escola consegue oferecer orientação e condições de uso a quem dispõe de menos recursos fora dela, amplia as oportunidades de aprendizagem. É nesse trabalho cotidiano, feito de planejamento, acompanhamento e revisão, que a Inteligência Artificial poderá contribuir para a educação pública.
No próximo episódio, a conversa avança para as aplicações da IA na Amazônia. Bioeconomia, logística, saúde, educação e monitoramento ambiental entram em pauta, com atenção às possibilidades de transformar conhecimento tecnológico em benefícios para a região.
- Episódio 1 — O que o MIT está discutindo e por que a Amazônia precisa prestar atenção
- Episódio 2 — A infraestrutura invisível da IA: a nova corrida por energia, chips e data centers
- Episódio 3- Quem será o fornecedor da soberania brasileira em Inteligência Artificial?
- Episódio 4 – A IA vai substituir profissões ou transformar o trabalho por dentro?
- Episódio 5 – Como aprender IA sem desaprender a pensar
- Episódio 6 – Como preservar a autonomia de pensar quando a IA tem uma resposta para tudo