Indígenas Yanomami vão ao STF para impedir garimpeiros em comissão do Senado

A Uruhi Associação Yanomami ingressou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para impedir que garimpeiros ilegais sejam ouvidos pela comissão temporária do Senado sobre a crise Yanomami. De acordo com a entidade, o convite do colegiado a representantes do garimpo representa um desvio de finalidade, já que o seu foco deveria ser a situação das comunidades indígenas.

A comissão do Senado prevê a realização de uma audiência nesta 4ª feira (22/3) para debater “a visão dos garimpeiros e das entidades afins”. Para os representantes Yanomami, essa ação indica que “a comissão está caminhando para ter uma finalidade totalmente diversa, servindo, inclusive, de ouvidoria – com voz ativa – aos criminosos que praticam diversos ilícitos nas comunidades indígenas ou os que representam”. Agência Brasil e g1 deram mais informações.

O trabalho da comissão vem sendo bastante contestado. Inicialmente, o grupo era composto por apenas cinco senadores, sendo três defensores do garimpo em Roraima – inclusive seu presidente, Chico Rodrigues (PSB). Depois das críticas de entidades indígenas, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, incorporou outros três senadores. Mesmo assim, a insistência dos representantes de Roraima em ouvir os garimpeiros ilegais segue causando incômodo entre os indígenas.

Enquanto isso, o g1 informou que uma perícia feita pela Polícia Federal em indígenas de 14 localidades da Terra Yanomami identificou altos níveis de contaminação por mercúrio.
Yanomami
Balsa de garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, dezembro de 2015 |Guilherme Gnipper-FUNAI

Segundo a análise, mais de 76% das pessoas com amostra coletada apresentaram concentração de mercúrio superior a 1 micrograma por grama, limite definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como seguro para a saúde humana.

Em algumas amostras, a concentração chegou a 10 microgramas por grama. A concentração média também ficou bem acima desse limite, com aproximadamente 4,37 microgramas por grama. A contaminação por mercúrio é consequência direta do garimpo ilegal no território Yanomami, já que o metal é amplamente utilizado na extração de ouro, e está diretamente associado a ocorrência de doenças no sistema nervoso, além de problemas no desenvolvimento de fetos durante a gravidez.

Ainda sobre o garimpo na Terra Yanomami, a investigação da Polícia Federal sobre a exploração sexual de adolescentes e mulheres por garimpeiros apontou para a conexão do esquema com facções criminosas. Quatro pessoas foram presas até agora, incluindo duas irmãs, acusadas de aliciar as vítimas com ofertas falsas de emprego nas redes sociais. A notícia é do g1.

Em tempo 1: A PF realizou nesta 3ª feira (21/3) mais uma fase da Operação Alfeu, que mira o garimpo dentro da Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso. A ação foi deflagrada de forma simultânea e coordenada com operações de outros órgãos, como o Exército Brasileiro, a Polícia Militar Ambiental do MT e a FUNAI. Agência Brasil e g1 abordaram a notícia.

Em tempo 2: Contrariando a posição dos Ministérios da Justiça, do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, a Advocacia Geral da União (AGU) apresentou parecer ao STF defendendo o princípio da “boa fé” na comercialização de ouro no Brasil. Essa regra, prevista na Lei do Garimpo de 2013, isenta os compradores de certificar a origem legal da mercadoria, baseando-se apenas em uma declaração de boa fé dos vendedores.

De acordo com essas pastas, em interpretação amplamente apoiada por especialistas, esse princípio permite a “lavagem” do ouro e é um dos fatores por trás da explosão do garimpo ilegal na última década. Ainda assim, a AGU manteve o argumento de que a revogação dessa regra pioraria o ambiente regulatório. A Folha deu mais informações.

Texto publicado em CLIMA INFO

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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