Guerra e Pandemia

“É preciso encerrar logo esse ciclo depressivo da economia para atenuar o sofrimento do povo brasileiro. Para absorver a subutilização de homens e máquinas, são indispensáveis reformulações na atual política econômica a serem implementadas a partir do início de 2021, quando finda o auxílio emergencial e poderá ser preservado o teto das despesas do Governo Federal.
Se nada for feito, o País ficará esperando o trem do crescimento que não vem, provavelmente porque deve estar fora dos trilhos.”

Paulo Haddad
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A comparação que tem sido utilizada pelas autoridades brasileiras na qual o contexto histórico de uma pandemia assemelha-se ao contexto histórico de uma guerra de grandes proporções, mostra-se útil ao cobrar da população um comportamento de responsabilidade social, de convivência civilizada e de atitudes preventivas do que fazer e de como fazer em seu cotidiano, mas torna-se equivocada quando se refere à preservação constitucional das liberdades civis e à política a ser adotada durante e após os impactos econômicos e sociais da pandemia.

Em primeiro lugar, durante uma guerra de maior escala e intensidade, ocorrem a dramática perda de milhões de vidas humanas e a destruição generalizada do capital físico dos países beligerantes. Na Primeira Grande Guerra, França e Alemanha perderam milhões de vida dos seus povos e cerca de 55 por cento da riqueza ou do capital nacional, sendo que na II Grande Guerra as perdas foram ainda maiores.

No caso da pandemia, como a que estamos vivendo atualmente, ocorrem a formação da capacidade ociosa no sistema produtivo e a elevação das taxas de desemprego e de subemprego da força de trabalho. Dessa forma, enquanto numa nação, após o término de uma grande guerra, o problema central é a reconstrução e a recuperação de sua economia, o que pode levar pelo menos uma década, a questão principal nesta pandemia é formular e implementar políticas de curto prazo para ativar a demanda agregada de consumo, de investimento ou de exportações, abrindo espaço para a retomada do crescimento sustentado.

Haddad
Paulo Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco

Em segundo lugar, como analisou o historiador Walter Scheidel da Universidade de Stanford, nos países que participaram das duas guerras mundiais, ocorreu uma cadeia de eventos que serviram para reduzir drasticamente as desigualdades sociais na distribuição da renda e da riqueza, que haviam se acumulado na segunda metade do século 19 e no início do século 20. Entre esses eventos, ele destaca: a perda de capital (riqueza) pela destruição, pela expropriação ou pela inflação; o declínio da remuneração do capital devido à intervenção governamental no sistema tributário com impactos mais altos e progressivos, assim como nos controles de preços e rendimentos.

No caso brasileiro, estaremos saindo do ciclo da pandemia com grave e profunda piora na distribuição da renda e da riqueza, ou seja, com mais pobres e miseráveis entre nós, o que ainda não se tornou evidente devido à correta decisão do Governo Federal ao instituir, em grande escala, o auxílio emergencial. Os eventos portadores dessa maior concentração são: a elevação nas taxas de desemprego e do subemprego; a perda de renda das famílias da classe média se contrapondo à manutenção de ganhos dos detentores da riqueza financeira; o baixo nível de crescimento da economia.

É preciso encerrar logo esse ciclo depressivo da economia para atenuar o sofrimento do povo brasileiro. Para absorver a subutilização de homens e máquinas, são indispensáveis reformulações na atual política econômica a serem implementadas a partir do início de 2021, quando finda o auxílio emergencial e poderá ser preservado o teto das despesas do Governo Federal.

Se nada for feito, o País ficará esperando o trem do crescimento que não vem, provavelmente porque deve estar fora dos trilhos.

Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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