Mais de 90% das espécies de fungos nunca foram descritas; entenda por que isso importa

Lista nacional amplia a proteção dos fungos ameaçados de extinção e exige mais pesquisas para revelar espécies essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas brasileiros. 

O Brasil passou a reconhecer oficialmente 24 fungos ameaçados de extinção, incluídos pela primeira vez na lista nacional de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Publicada em junho de 2026, a medida garante ao Reino Fungi o mesmo status legal de proteção concedido à fauna e à flora.

O avanço ocorre diante de uma ampla lacuna científica. Das aproximadamente 3 milhões de espécies de fungos que podem existir no planeta, mais de 90% ainda não foram descritas. Mantido o ritmo atual de pesquisas, seriam necessários mais de mil anos para catalogar toda essa diversidade.

A entrada dos fungos ameaçados de extinção nas políticas ambientais resulta da mobilização de pesquisadores e instituições como o Grupo de Especialistas em Fungos do Brasil, o Centro Nacional de Conservação da Flora e a Rede de Taxonomistas da Funga do Brasil. O trabalho ajudou a consolidar informações na plataforma Flora e Funga do Brasil.

Em entrevista ao Mongabay, o biólogo Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirmou que a lista encerra uma ausência histórica na legislação, mas representa apenas o início do processo. Para ele, será necessário ampliar o levantamento de espécies, avaliar riscos e incluir os fungos ameaçados de extinção em programas efetivos de conservação.

Espécies indicam qualidade ambiental

Os fungos exercem funções essenciais nos ecossistemas. Eles decompõem matéria orgânica, participam da ciclagem de carbono e nutrientes e estabelecem relações fundamentais com plantas e outros organismos. Algumas espécies dependem de condições muito específicas, como grandes troncos de árvores antigas que caem naturalmente em florestas preservadas.

“Os fungos funcionam como uma bandeira. Eles mostram que os ambientes naturais estão muito impactados, somando-se à mensagem de alerta que já tínhamos com a fauna e a flora”, afirmou Drechsler-Santos. 

Por essa razão, a redução e a degradação dos habitats estão entre as principais ameaças. Os fungos ameaçados de extinção também sofrem com incêndios, espécies exóticas invasoras e animais introduzidos nos ambientes naturais.

Nas matas nebulares do Sul do Brasil, por exemplo, a presença de gado compromete a regeneração da vegetação pelo pisoteio e pelo consumo de plantas jovens. Algumas espécies, como o javali, também causam danos ao revolver e destruir o solo. Esses impactos atingem ambientes frágeis, dependentes de condições específicas de temperatura e umidade.

A inclusão dos fungos na lista nacional também deve produzir efeitos sobre o licenciamento ambiental. Áreas onde eles ocorrem precisarão receber atenção em Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto Ambiental. Dependendo do risco identificado, a presença dos fungos ameaçados de extinção poderá influenciar decisões sobre obras e empreendimentos.

Conservação dentro e fora da natureza

A proteção pode ocorrer de duas maneiras complementares. A conservação in situ mantém as espécies em seus habitats por meio de unidades de conservação e da definição de áreas prioritárias. Já a estratégia ex situ preserva material genético fora do ambiente de origem.

Uma das iniciativas nessa área é a Coleção de Fungos Ameaçados do Brasil, coordenada pelo grupo de pesquisa MIND.Funga. O projeto mantém culturas vivas em laboratório para conservar espécies a médio e longo prazo e, futuramente, possibilitar sua reintrodução na natureza.

Voltada aos fungos ameaçados de extinção, a coleção busca evitar que espécies endêmicas desapareçam antes mesmo de serem plenamente estudadas. Algumas podem ter apenas poucas décadas de sobrevivência caso as pressões sobre seus habitats continuem avançando.

Drechsler-Santos também aponta a ciência cidadã como aliada para reduzir o déficit de informações. Fotografias registradas em aplicativos, plataformas especializadas e redes sociais podem ajudar a localizar espécies e mapear sua distribuição. Em um país continental e detentor de uma parcela expressiva da biodiversidade mundial, ampliar a formação de micologistas e o financiamento científico será decisivo para revelar e proteger um reino ainda pouco conhecido.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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