“El Niño e a necessidade mostram como crises climáticas podem acelerar soluções simples, locais e inventivas, transformando desafios da Amazônia em oportunidades para startups, pesquisadores e novos empreendedores”
Há uma velha pedagogia da necessidade que costuma aparecer quando os sistemas convencionais deixam de funcionar. É quando falta energia, quando a água escasseia, quando o rio baixa demais, quando o calor ultrapassa os padrões conhecidos ou quando uma comunidade fica isolada que alguém olha para os recursos disponíveis e pergunta: o que podemos fazer com aquilo que temos aqui?
Essa pergunta deveria ocupar um lugar central no universo das startups amazônicas.
O El Niño, com seus efeitos sobre temperatura, chuvas, secas e regimes hidrológicos, torna essa reflexão ainda mais urgente. Na Amazônia, os extremos climáticos rapidamente deixam o terreno das estatísticas meteorológicas e entram na vida cotidiana. Afetam o transporte de pessoas e mercadorias, o abastecimento de água, a produção de alimentos, a geração de energia, a saúde das populações e a capacidade de comunidades inteiras permanecerem conectadas aos serviços básicos.
Cada dificuldade dessas contém também um problema tecnológico esperando solução.E uma das melhores histórias para compreender essa lógica começou muito longe dos laboratórios sofisticados.
Durante os apagões que atingiam o Brasil, em 2002, o mecânico Alfredo Moser procurou uma maneira de iluminar sua oficina durante o dia. Utilizou uma garrafa PET preenchida com água e uma pequena quantidade de alvejante, instalada no telhado. A luz solar atravessava a garrafa e se espalhava pelo ambiente. A solução simples deu origem ao que ficou conhecido como Lâmpada de Moser e acabaria inspirando o movimento internacional Liter of Light e, posteriormente, o Litro de Luz no Brasil. (litrodeluz)
Há muita tecnologia escondida nessa simplicidade.
Existe compreensão de um problema concreto, aproveitamento de materiais disponíveis, baixo custo, facilidade de replicação e possibilidade de adaptação. São justamente algumas das características mais importantes daquilo que hoje chamamos de inovação frugal.
A Amazônia é um dos maiores laboratórios possíveis para esse tipo de inteligência aplicada.
Pensemos na seca extrema.
Quando rios deixam de funcionar como as grandes estradas naturais da região, precisamos apenas discutir embarcações maiores ou podemos criar sistemas menores, modulares e adaptados à variação do nível das águas?
Quando uma comunidade isolada depende de diesel caro para produzir eletricidade, quais combinações locais de energia solar, armazenamento, biomassa e eficiência energética podem substituir progressivamente esse combustível?
Quando o calor aumenta dentro das casas, escolas e postos de saúde, quais materiais amazônicos, sistemas de ventilação, coberturas, sombreamentos e técnicas construtivas poderiam reduzir a temperatura sem depender permanentemente de aparelhos de ar-condicionado?
Quando a água disponível perde qualidade durante uma estiagem severa, por que não multiplicar sistemas baratos de filtragem, monitoramento e tratamento concebidos para comunidades pequenas?
Quando produtores perdem alimentos porque não possuem refrigeração adequada, há espaço para desenvolver câmaras frias solares, embalagens inteligentes, secagem, conservação e pequenas unidades de processamento.
E quando a comunicação desaparece justamente nos momentos mais críticos, precisamos de soluções descentralizadas de conectividade e energia capazes de funcionar durante emergências.
Isso é território para startups.
Nós nos acostumamos demasiadamente à imagem da startup associada a aplicativos, plataformas digitais e modelos importados de grandes centros tecnológicos. A Amazônia apresenta outra agenda. Aqui, há um imenso campo para empresas que resolvam problemas materiais.
Água. Energia. Calor. Transporte. Alimento. Resíduos. Conectividade. Saúde. Monitoramento ambiental. Habitação. São mercados e, ao mesmo tempo, necessidades humanas elementares.
Uma startup amazônica capaz de desenvolver uma solução simples para uma comunidade isolada pode descobrir que seu mercado potencial está muito além daquela comunidade. Regiões tropicais da África, da Ásia e da América Latina convivem com desafios semelhantes. Aquilo que funciona em Autazes, Tefé, Parintins ou São Gabriel da Cachoeira pode algum dia encontrar aplicação no Congo, na Indonésia ou nas Filipinas.
É assim que uma limitação geográfica pode se converter em vantagem tecnológica.
Por isso, universidades, institutos de pesquisa, incubadoras, empresas e investidores precisam olhar com mais atenção para aquilo que poderíamos chamar de tecnologia da necessidade.
Temos uma extraordinária rede de conhecimento acumulado na Amazônia. Pesquisadores estudam há décadas água, biodiversidade, materiais, clima, energia, alimentos, florestas e populações tradicionais. Ao mesmo tempo, milhares de moradores carregam um conhecimento prático construído pela convivência diária com rios, chuvas, secas, calor e distâncias.
O encontro dessas duas inteligências pode produzir empresas extraordinárias.
A startup entra justamente aí, transformando conhecimento em protótipo, protótipo em produto e produto em solução acessível.
Não precisamos esperar que todas as respostas venham prontas de fora.
O desafio oferecido aos jovens inventores, engenheiros, programadores, designers, pesquisadores e empreendedores amazônicos é observar novamente aquilo que está diante de seus olhos.
Uma caixa-d’água. Uma canoa. Uma bateria descartada. Uma fibra vegetal. Uma casca. Uma semente. Um painel solar. Um motor. Uma garrafa PET. Um aparelho celular sem sinal. Uma comunidade que precisa conservar pescado por algumas horas a mais.
Um agricultor que precisa saber quanto ainda existe de água no solo. Uma escola que precisa continuar funcionando durante uma seca extrema. Grandes empresas podem nascer de problemas aparentemente pequenos.
Alfredo Moser não estava tentando criar uma organização internacional quando colocou uma garrafa no telhado. Estava tentando iluminar sua oficina. Anos depois, aquela solução atravessaria oceanos e inspiraria projetos destinados a levar iluminação a populações sem acesso adequado à eletricidade.
É uma história que merece ser contada aos nossos empreendedores.
O próximo “litro de luz” amazônico talvez esteja neste momento dentro de uma universidade, numa oficina mecânica, numa comunidade ribeirinha ou na bancada improvisada de algum estudante.
O El Niño e os extremos climáticos estão deixando uma extensa lista de problemas diante de nós. Eles precisam ser enfrentados pelo poder público, pela ciência e pelas grandes empresas, mas existe nesse cenário uma avenida enorme para uma nova geração de empreendedores.
Procuremos os problemas. Conversemos com quem convive com eles. Entremos nas comunidades. Chamemos pesquisadores. Façamos protótipos. Testemos. Erremos barato. Corrijamos depressa.
E vamos construir soluções que possam ser fabricadas, reparadas e multiplicadas por aqui.
A Amazônia precisa de tecnologias de alta complexidade. Precisará de inteligência artificial, biotecnologia, novos materiais, satélites, sensores e sistemas avançados de armazenamento de energia.
Mas continuará precisando daquela inteligência que reconhecemos imediatamente quando a encontramos: a capacidade humana de olhar para uma dificuldade aparentemente insolúvel, juntar os recursos disponíveis e inventar alguma coisa que funcione.
É dessa matéria que também são feitas as grandes inovações.
E justamente dessa combinação entre ciência sofisticada, conhecimento amazônico e simplicidade engenhosa que talvez surjam algumas das startups mais interessantes da próxima década.