Dragas de garimpo retornam ao rio Madeira e agravam situação em meio à maior seca em décadas

Em um cenário de nível histórico de baixa no rio Madeira, dragas de garimpo invadem a área, desafiando as recentes ações de fiscalização, e agravam a crise ambiental

O rio Madeira, um dos principais afluentes do Amazonas, enfrenta uma crise sem precedentes com o nível das águas caindo para 79 cm, um recorde histórico de baixa. Esta situação crítica é acentuada pela invasão de dragas de garimpo que, apesar das recentes operações de fiscalização, continuam a operar impunemente.

A seca extrema que afeta a região é a mais severa em 57 anos. O boletim mais recente do Serviço Geológico do Brasil (SGB) confirma que o nível do rio já estava abaixo de 1 metro na semana passada, e continua a recuar. Esse fenômeno coloca em risco os ribeirinhos que dependem do rio para sua sobrevivência, resultando em bancos de areia que dificultam a navegação e a pesca.

Além disso, os moradores tradicionais das margens do Madeira acreditam que a atual crise resulta de uma combinação de fatores, incluindo a falta de chuvas e o garimpo ilegal, conduzido por dragas que operam no principal afluente do rio Amazonas, que faz com que agrave ainda mais a situação.

Em um cenário de nível histórico de baixa no rio Madeira, dragas de garimpo invadem a área, desafiando as recentes ações de fiscalização, e agravam a crise ambiental
Imagem de 2021/foto: Bruno Kelly

Em visita à região de Humaitá, no estado da Amazonas, a Folha de S. Paulo constatou a presença de mais de 100 dragas de garimpo ao longo de um trecho de 100 km do rio Madeira. Essas dragas variam de gigantescas embarcações equipadas com sistemas de sucção e trituração avançados a balsas menores usadas por comunidades locais. Muitas das dragas maiores, que possuem ar-condicionado e motores hidráulicos, estão novamente em operação, após 15 dias da destruição de 459 dragas pela Polícia Federal (PF) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

As dragas são responsáveis por uma alteração drástica no leito do rio, um problema agravado pela seca. A atividade contínua dos garimpeiros, muitas vezes usando mercúrio de forma indiscriminada, está causando danos ambientais profundos. A situação é ainda mais alarmante considerando que o garimpo ilegal é uma prática bem estabelecida na região, frequentemente resistindo às operações de repressão.

Reação e resistência dos garimpeiros

A recente operação da PF e do Ibama, que destruiu centenas de dragas, provocou um protesto violento em Humaitá, onde garimpeiros tentaram atacar as autoridades com rojões e invadir prédios públicos. Apesar da operação, muitas dragas, especialmente as de maior porte, permanecem ativas. Garimpeiros alegam que as ações da fiscalização foram insuficientes e que algumas dragas foram poupadas.

Em um cenário de nível histórico de baixa no rio Madeira, dragas de garimpo invadem a área, desafiando as recentes ações de fiscalização, e agravam a crise ambiental
foto: André Dib

A presença contínua de balsas e dragas de garimpo reflete uma estratégia dos garimpeiros de se instalar em áreas mais próximas das cidades para evitar a fiscalização. A resposta dos órgãos federais, segundo Joel Araújo, superintendente do Ibama, tem sido estratégica, mas reconhece que a quantidade de dragas é tão grande que uma única operação não pode resolver o problema de forma definitiva.

Impactos econômicos e ambientais

A crise no rio Madeira tem impactos profundos para as comunidades locais. Muitos ribeirinhos, que tradicionalmente dependem da pesca e da agricultura familiar, estão vendo suas condições de vida se deteriorarem. As dragas de maior porte, que custam mais de R$ 1 milhão, são frequentemente geridas por intermediários, enquanto os donos dessas embarcações criminosas delegam a operação de garimpagem. Essas dragas contribuem significativamente para a degradação ambiental.

Embora ilegal, o garimpo é visto como um complemento importante de renda agricultura familiar, da pesca e do extrativismo. De acordo com garimpeiros mais experientes afirmam que uma draga pequena, cujo deslocamento precisa de um rebocador, custa aproximadamente R$ 40 mil e R$ 70 mil.

Com isso, a contínua destruição e reconstrução de balsas demonstram a resiliência e adaptação dos garimpeiros às condições adversas e à fiscalização. Muitos garimpeiros que perdem suas embarcações acabam migrando para a agricultura familiar, cultivando bananas e outros produtos na região.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

O Amazonas precisa de escolhas à altura de seu povo

"Examinar trajetórias, cobrar preparo e reconhecer o espírito público...

Conheça as propostas de meio ambiente dos candidatos ao governo do Mato Grosso 2026

Conheça as propostas dos principais candidatos ao governo de Mato Grosso para bioeconomia, desmatamento, povos indígenas, energia e clima.

Segurança no trânsito em Manaus: Abraciclo celebra 50 anos em nome da vida

"Na Semana Nacional de Trânsito, a entidade que representa...

O compromisso com o Amazonas atravessa as eleições

“Sem vinculação partidária ou eleitoral, o CIEAM tem razões institucionais para cobrar a preservação das garantias da Zona Franca e a transformação dessas conquistas em investimento, emprego e desenvolvimento regional.”