Estudo recente acende alerta para o Dia da Biodiversidade sobre o impacto profundo do aquecimento global, alterações nos regimes de chuva, acidificação dos oceanos e eventos climáticos extremos na fauna global – incluindo a Amazônia
No Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado em 22 de maio, a comunidade científica lança um alerta: as mudanças climáticas já ameaçam mais de 3,5 mil espécies animais, revelando uma crise global em curso. Os dados são de um estudo recém-publicado na revista científica BioScience, que avaliou 70.814 espécies animais pertencentes a 35 classes do reino animal, com base em dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
A pesquisa foi liderada pelo ecólogo William Ripple, da Universidade Estadual do Oregon (OSU). Os resultados revelam que os efeitos da crise climática, como aquecimento global, alterações nos regimes de chuva, acidificação dos oceanos e eventos climáticos extremos, já impactam diretamente a fauna mundial, ameaçando a estabilidade ecológica e a sobrevivência de espécies inteiras.
“Estamos no início de uma crise existencial para os animais selvagens da Terra”, afirmou Ripple. “Até agora, a perda de biodiversidade foi impulsionada principalmente pela exploração excessiva e destruição de habitats, mas o agravamento das mudanças climáticas está prestes a se tornar a terceira grande ameaça.”
O aumento da temperatura global, impulsionado principalmente pela queima em larga escala de combustíveis fósseis como petróleo e gás, além de outras atividades humanas como o desmatamento e a urbanização, modifica ambientes como florestas tropicais, recifes de coral, tundras e zonas úmidas, o que impacta espécies que precisam de condições climáticas estáveis e específicas para sobreviver.
Muitas são forçadas a migrar em busca de condições mais adequadas, mas nem todas conseguem: um exemplo são os recifes de corais, que sofrem branqueamento por causa do aumento da temperatura dos oceanos.
Amazônia no Dia da Biodiversidade
Entre os biomas mais ameaçados está a Amazônia, uma das regiões mais biodiversas do planeta. Segundo matéria do portal Estado de Minas, estima-se que a floresta abriga mais de 390 bilhões de árvores, representando cerca de 16 mil espécies distintas. Além disso, possui uma fauna extremamente rica, composta por 2,5 milhões de espécies de insetos, mais de 2,2 mil espécies de peixes, 1.294 aves, 427 mamíferos, 428 anfíbios e 378 répteis. Essa diversidade é fundamental para a manutenção dos processos ecológicos, como polinização, dispersão de sementes, controle biológico e regulação do ciclo da água.
Secas, incêndios florestais, enchentes e tempestades mais frequentes e intensas também afetam diretamente a sobrevivência das espécies e a integridade de ecossistemas como a Amazônia, reduzindo a disponibilidade de alimento e abrigo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a floresta concentra metade dos focos de fogo no Brasil.
Escassez de dados desafia conservação
Apesar dos números alarmantes já revelados sobre os impactos da crise climática na fauna global, seu verdadeiro alcance segue parcialmente oculto pela falta de dados abrangentes. Segundo os cientistas, mais de 60% dos grupos animais ainda não foram avaliados em relação à sua vulnerabilidade climática, o que impede uma compreensão precisa sobre o risco real enfrentado pela biodiversidade global.
Mesmo entre as espécies avaliadas, há uma concentração desproporcional de atenção nos vertebrados, que representam menos de 6% das espécies conhecidas, mas dominam os registros da Lista Vermelha da IUCN. Isso significa que a grande maioria dos invertebrados — como insetos, moluscos, crustáceos e outros organismos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas — segue ignorada, embora estejam entre os grupos mais sensíveis às variações climáticas.
“Precisamos com urgência de um banco de dados global sobre eventos de mortalidade em massa causados pelo clima e de avaliações mais frequentes e abrangentes sobre a capacidade de adaptação das espécies”, defende Ripple.