Mural gigante em SP denuncia bilionários dos EUA por destruir floresta amazônica

Família bilionária dos EUA é acusada de destruir floresta amazônica e o Cerrado, ampliando lucros com práticas agropecuárias devastadoras

Em meio a um cenário de desmatamento alarmante na Amazônia e Cerrado, a família Cargill-MacMillan, uma das mais ricas dos Estados Unidos, vê sua fortuna questionada pela associação com práticas ambientais destrutivas. Com um patrimônio conjunto de aproximadamente US$ 60 bilhões, a família – pouco conhecida pelo público – controla a gigante agrícola Cargill Inc., acusada de impulsionar a expansão agropecuária e a consequente destruição de áreas naturais no Brasil. O ativista brasileiro Mundano, autodenominado “artivista”, busca trazer o nome dos Cargill-MacMillan para o centro das discussões ambientais, ressaltando a necessidade de responsabilização pelas ações da empresa no Brasil.

A Cargill, uma das maiores empresas privadas dos EUA, é apontada como uma das protagonistas do desmatamento para a produção de commodities agrícolas como soja e milho, comercializadas globalmente. Na última sexta-feira, dia 25 de outubro, Mundano inaugurou em São Paulo um mural monumental, com 1.581,60 m², para dar visibilidade à destruição que associa à Cargill e cobrar o cumprimento de compromissos ambientais.

Pintada com cinzas da floresta amazônica e outros biomas devastados, a obra denuncia o uso contínuo de áreas desmatadas pela Cargill para obter matérias-primas e pressiona pela eliminação desses produtos até 2025 – uma promessa feita pela própria família no ano passado. A imagem retrata Alessandra Munduruku, uma importante líder indígena, reforçando a mensagem de resistência e exigência de mudanças para evitar a degradação dos ecossistemas brasileiros.

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Foto: Luan Rentes/Divulgação

A crítica ambiental e o impacto do mural

O mural, situado na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, oferece uma vista impactante para milhares de pedestres e motoristas e torna-se um marco visual e crítico contra o desmatamento. Pintado com as próprias cinzas das florestas e lama de enchentes do Rio Grande do Sul – eventos agravados pelas mudanças climáticas –, o mural carrega, segundo Mundano, o peso de simbolizar a destruição provocada pelo agronegócio. “O artivismo é uma maneira de alertar sobre a emergência climática, o maior desafio da humanidade”, explica Mundano, que desde o início de sua carreira utiliza intervenções urbanas para questionar impactos socioambientais e cobrar responsabilidade corporativa e governamental.

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O mural é de autoria do ativista Mundano e ilustra uma floresta destruída ao fundo, e a imagem da indígena Alessandra Munduruku – Ricardo Yamamoto/Divulgação

Mundano e a organização ambiental Stand.earth planejam levar o protesto para os Estados Unidos, diretamente à porta dos Cargill-MacMillan. A Stand.earth, parceira do projeto e responsável pela campanha Burning Legacy, criará cartazes com as cinzas das florestas brasileiras e mensagens diretas aos membros da família, com dizeres como: “Cumpra Sua Promessa – Pare a Destruição”. Segundo Mathew Jacobson, diretor da campanha, é urgente que a família reconheça sua responsabilidade ambiental como proprietária da Cargill: “Como proprietários da Cargill, eles são responsáveis por suas ações e podem decidir se seu legado será de preservação ambiental ou de destruição”.

Uma década de promessas não cumpridas

A crítica de Mundano e dos ambientalistas se baseia em uma série de promessas da Cargill ao longo dos anos, que falharam em materializar mudanças concretas. Em 2014, na Cúpula do Clima da ONU, o CEO da empresa, David MacLennan, comprometeu-se a eliminar o desmatamento na cadeia de abastecimento da Cargill até 2020, assinando a Declaração de Nova York sobre Florestas.

Entretanto, cinco anos depois, a empresa não só não cumpriu a meta, como se distanciou publicamente dela. Em 2021, durante a COP26 em Glasgow, a Cargill e outras grandes corporações agrícolas prometeram “interromper a perda florestal” nas cadeias de commodities, mas o compromisso foi criticado por ativistas pela sua linguagem vaga. Relatórios indicam que essa ambiguidade decorre do lobby da Cargill para evitar regulamentações rígidas.

Mais recentemente, em novembro de 2023, a família Cargill-MacMillan renovou a promessa de eliminar produtos oriundos de áreas desmatadas até 2025. No entanto, o compromisso foi novamente questionado por organizações ambientais, que apontam a ausência de definições claras sobre desmatamento e conversão de terras, além da exclusão de áreas significativas, como o Paraguai e a Bolívia, grandes produtores de commodities que compartilham os biomas impactados pela expansão agropecuária.

O agronegócio no Brasil e o papel da Cargill

O impacto das operações da Cargill no Brasil é expressivo. Dados da plataforma Trase mostram que as cinco maiores tradings de grãos – ADM, Bunge, Cargill, COFCO e Louis Dreyfus Company – controlam entre 70% e 90% do comércio mundial de grãos como soja e milho, detendo enorme poder sobre o setor e a capacidade de mudar as práticas de desmatamento. O Brasil, principal produtor global de soja, é um dos mais afetados pela expansão agropecuária, que impulsionou 97% do desmatamento do último ano, conforme o Relatório Anual do Desmatamento da MapBiomas. Em 2023, as queimadas em propriedades rurais brasileiras representaram 39% dos 11,3 milhões de hectares queimados entre janeiro e agosto.

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 Yasuyoshi Chiba/AFP

Esse contexto coloca a Cargill no centro da crise ambiental brasileira. A empresa também enfrenta críticas pelo envolvimento na Ferrogrão, uma ferrovia de quase mil quilômetros que deve atravessar áreas sensíveis da Amazônia para facilitar a exportação de grãos, comprometendo terras indígenas e áreas de preservação. A Ferrogrão representa um projeto de infraestrutura que, segundo a organização Amazon Watch, “sacrificaria a Amazônia e o Cerrado, violando os direitos dos povos indígenas e comunidades locais”. A Cargill já foi denunciada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) por falhas na verificação da legalidade ambiental de produtos provenientes de áreas desmatadas no Brasil.

A voz dos ativistas

Ativistas como Alessandra Munduruku e Mundano defendem que a transformação da cadeia de fornecimento global das gigantes do agronegócio é essencial para a preservação ambiental. Alessandra, retratada no mural, critica o impacto do agronegócio em seu território e busca alertar para os riscos da destruição ambiental. “Espero que quem passar por esse prédio se veja mais como parte da natureza e se enfureça com os que estão a destruindo”, declarou a líder indígena.

Para Mundano, a escolha de representar Alessandra como figura central do mural simboliza a resistência da floresta contra o avanço do agronegócio e reforça a importância de preservar o território indígena frente às demandas globais de commodities. A Stand.earth, junto a outros ativistas e organizações, continua monitorando as promessas da Cargill e aponta que a empresa tem papel fundamental na cadeia de destruição, especialmente considerando que a Cargill é a terceira maior trader de soja em áreas desmatadas do Brasil.

Resposta da Cargill

Em nota, a Cargill afirma respeitar a liberdade de expressão de Mundano, mas rebate as críticas, alegando que o mural se baseia em “informações imprecisas” e que suas “afirmações distorcem o trabalho da Cargill e suas cadeias de fornecimento”. A empresa reafirma seu compromisso com a eliminação do desmatamento e conversão de terras até 2025, afirmando que suas ações são voltadas à proteção dos direitos humanos e à promoção de cadeias de abastecimento sustentáveis. A Cargill declarou ganhos de US$ 160 bilhões no ano fiscal de 2024, mostrando o peso de suas operações na economia global e a urgência de compromissos mais eficazes para responder às críticas e demandas ambientais.

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