Desmatamento, violência e pandemia: tempos cruéis e futuro incerto na Amazônia

Jessica Brice e Michael Smith descreveram na Bloomberg a situação cada vez mais dramática da Amazônia brasileira, assolada por desmatamento, queimadas, grilagem e garimpo, pela conivência criminosa do governo Bolsonaro com atividades ilegais na região e pela pandemia de COVID-19, que ainda causa problemas floresta adentro. A reportagem destacou como o projeto político de destruição ambiental da era Bolsonaro retomou ideias e conceitos dos tempos da ditadura militar que enxergam a floresta como um empecilho para o crescimento econômico. A conclusão é preocupante: se a devastação continuar, a Amazônia pode entrar em um “caminho sem volta” de degradação ambiental, para prejuízo do Brasil e do mundo.

No Globo Rural, Daniel Vargas (FGV Agro) sintetizou o drama amazônico em quatro atos. Primeiro, a intensificação do desmatamento a partir dos anos 1980, que despertou a atenção do mundo para a situação da floresta. É nesse contexto que surgem os primeiros esforços de conservação – e os primeiros episódios de violência contra ativistas ambientais, como o ex-seringueiro Chico Mendes. Segundo, a implementação bem sucedida de um plano de combate ao desmatamento a partir dos anos 2000, que resultou numa queda de mais de 80% das taxas de desmate a partir de ações de comando-e-controle. Terceiro, o fracasso na construção de um projeto econômico alternativo, de promoção do desenvolvimento sustentável, na região amazônica. Finalmente, o “clímax”: a volta ao passado, com o desmatamento em alta e o governo conivente.

Para piorar, a pandemia segue agravada na Amazônia. De acordo com dados coletados pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), o número de mortos na região da floresta superou os 100 mil nesta semana. Grupos indígenas foram atingidos em cheio pela crise sanitária: as invasões de terra e a intensificação de atividades ilegais dentro de seus territórios, como o garimpo, os deixaram mais expostos ao novo coronavírus. Ao mesmo tempo, a vacinação segue lenta em toda a Pan-Amazônia.

No Brasil, além da falta de vacina, a corrupção também tem sido um obstáculo na vacinação indígena. De acordo com o G1, lideranças indígenas denunciaram que ao menos 106 doses da Coronavac destinadas à Terra Indígena Yanomami foram vendidas a garimpeiros em troca de ouro por servidores da secretaria especial de saúde (SESAI), ligada ao ministério da saúde. A Carta Capital também repercutiu o caso.

Em tempo: No UOL Tab, Ricardo Abramovay (USP) escreveu sobre o Plano de Recuperação Verde (PRV) do Consórcio de Governadores da Amazônia, que vem sendo apresentado a governos e empresas no exterior para facilitar a atração de recursos financeiros e, ao mesmo tempo, driblar a frustração internacional com o governo Bolsonaro. Abramovay enxerga na proposta duas virtudes fundamentais: ela consegue agregar vertentes políticas diferentes em torno de um objetivo comum e reinsere o Brasil na discussão internacional sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável, agendas deixadas de lado por Bolsonaro.

Fonte: ClimaInfo

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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