Vale mais prevenir ou remediar? Eduardo Leite alerta que prejuízo com desastre no Rio Grande do Sul pode chegar a R$ 10 bilhões

Cálculos estimam enormes perdas econômicas em decorrência do desastre no Rio Grande do Sul, e evidenciam a necessidade de revisões na legislação ambiental para prevenir futuros desastres.

A crise provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul destaca não apenas as perdas econômicas significativas, mas também levanta questões sobre a eficácia da atual legislação ambiental do estado. Com o potencial de causar perdas bilionárias na arrecadação do ICMS, o governo estadual busca apoio federal enquanto enfrenta críticas de especialistas sobre as leis que poderiam agravar futuros eventos climáticos extremos.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, alertou que as enchentes devem resultar em perdas de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões na arrecadação do ICMS até o final do ano. Desde maio, o estado já deixou de arrecadar R$ 1,6 bilhão devido às inundações.

“Se o dinheiro não for recomposto, haverá recursos para reconstruir [o estado], mas os serviços à população terão perdas. Vamos trabalhar para que não haja atraso de salários [aos servidores estaduais], mas teremos que atender menos a população em várias frentes”, destacou Eduardo Leite

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foto: Diogo Zacaria/MF

Solicitação de apoio federal

Durante reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário de Apoio à Reconstrução, Paulo Pimenta, Leite solicitou que a União compense integralmente essas perdas. A proposta inclui a avaliação bimestral da arrecadação comparada ao ano anterior e a utilização dos recursos economizados com a suspensão das dívidas do estado para despesas de custeio.

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Decisão do STF e avaliação de especialistas

Recentemente, o STF solicitou que o governo estadual se manifeste sobre a atual legislação ambiental, alvo de críticas por facilitar a degradação ambiental. Pesquisadores da UFRGS argumentam que as leis vigentes podem agravar eventos climáticos extremos ao permitir o uso inadequado do solo e a supressão da vegetação.

A Lei 15.434/2020, aprovada na gestão anterior de Eduardo Leite, introduziu mais de 200 alterações no Código Ambiental, incluindo a revogação de proteções para florestas e vegetação nativa. Especialistas afirmam que essas mudanças fragilizam a prevenção de desastres naturais, especialmente em áreas ribeirinhas.

Facilitação do licenciamento ambiental

A nova legislação criou o sistema de Licença Ambiental por Compromisso (LAC), permitindo licenças simplificadas via internet. Especialistas criticam a transparência e a eficácia dessa modalidade, que pode substituir as três etapas tradicionais do licenciamento ambiental.

Vale mais prevenir ou remediar? Eduardo Leite alerta que prejuízo com desastre no Rio Grande do Sul pode chegar a R$ 10 bilhões
Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul (Foto: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini)
Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul (Foto: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini)

A Secretaria de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul defende que a LAC representa apenas 1% das licenças emitidas desde 2021 e que o órgão continua a emitir licenças e fiscalizar posteriormente. O governo argumenta que a modernização da legislação equilibra proteção ambiental com desenvolvimento econômico.

Injeção de recursos federais

Paulo Pimenta, secretário de Apoio à Reconstrução, afirmou que a União analisará a execução orçamentária do estado e, se necessário, implementará medidas compensatórias. Entre as ações já adotadas, estão a antecipação de repasses do FPE e FPM para o Rio Grande do Sul.

Os recursos federais serão destinados à compra de equipamentos, como máquinas e diques, para apoiar a reconstrução do estado. O governo federal também estuda a possibilidade de usar esses recursos para auxiliar diretamente a população afetada, dependendo de uma consulta ao TCU.

“Assim como antecipamos os repasses do FPE e do FPM [fundos de Participação dos Estados e dos Municípios], outras medidas podem ser adotadas [para o Rio Grande do Sul]. Não haverá óbice para encontrar mecanismos de compensação. Agora, o importante é acompanhar a execução orçamentária até junho e ver a diferença. Vamos trabalhar em cima desses números”, explicou o ministro Pimenta

Futuro da legislação ambiental

Especialistas sugerem que a atual legislação ambiental do Rio Grande do Sul necessita de revisão para fortalecer as medidas preventivas contra desastres naturais. A preservação de florestas e áreas ribeirinhas é crucial para mitigar os impactos das enchentes.

“Essas leis colocadas em prática, se [forem] mantidas, vão facilitar a gravidade desses eventos extremos porque há uma facilitação muito grande em alterações do uso do espaço. Há diminuição de proteção de florestas e facilitações de processos que, acumulados, podem agravar uma futura situação de catástrofe”, disse o pesquisador Gonçalo Ferraz, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do estado (UFRGS).

Vale mais prevenir ou remediar? Eduardo Leite alerta que prejuízo com desastre no Rio Grande do Sul pode chegar a R$ 10 bilhões

O professor Gonçalo enfatiza a importância de equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental. Decisões empresariais devem considerar os limites saudáveis para atividades potencialmente danosas ao meio ambiente, saúde pública e economia.

“Não é para caracterizar negativamente quem está puxando a indústria do estado ou o desenvolvimento econômico. É para lembrar que é saudável o estado arbitrar essa competição entre interesses e ir checando e colocando alguns limites saudáveis a atividades que podem ser danosas para o ambiente, para a saúde e, eventualmente, para a economia, como vimos agora”, avaliou.

Com informações da Agência Brasil

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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