“Polarização, anarquia e uma conversa durante uma corrida de Uber”
Por Alfredo Lopes
A partir de um episódio relatado pela neurofisioterapeuta Marla Doce
Marla Doce, a neurofisioterapeuta que me atende, trouxe outro dia uma história dessas que passam longe das grandes tribunas, embora tenham bastante a dizer sobre o país. Durante uma corrida de Uber, a conversa com o motorista chegou às eleições no Brasil e no Amazonas. Em algum momento, ele se declarou anarquista.
A palavra poderia ter encerrado a prosa. Temos adquirido certa prática em interromper a curiosidade assim que alguém anuncia uma posição diferente da nossa. O interlocutor recebe uma classificação, a classificação dispensa a escuta, e cada um segue acompanhado de suas certezas. Dentro de um carro, haveria ainda a facilidade de recorrer ao celular e esperar pelo destino.
Marla preferiu perguntar sobre o papel da democracia.
Não sabemos que significado o motorista atribuía à sua declaração. O anarquismo tem uma história política e intelectual que ultrapassa bastante o uso cotidiano da palavra, frequentemente confundida com desordem. Pode haver também, na maneira como alguém se apresenta, o cansaço com os partidos, a revolta contra os privilégios ou a sensação de que as decisões públicas nunca chegam perto de sua vida. Seria preciso ouvi-lo mais para saber.
A pergunta de Marla deixava essa possibilidade aberta. Em vez de exigir uma explicação para o rótulo, levava a conversa para aquilo que os dois poderiam considerar necessário à vida em comum.
Ela explicou que seu candidato e seu voto eram a democracia. A formulação não precisava apagar as diferenças entre candidaturas, seus históricos e compromissos. Indicava o critério pelo qual pretendia fazer sua escolha, uma preocupação com as condições que permitem votar, cobrar, discordar e voltar a escolher.
Há uma experiência muito concreta por trás dessas palavras. Quem depende do próprio trabalho conhece decisões tomadas sem consulta, regras que mudam de longe e autoridades às quais custa chegar. A democracia oferece instrumentos para disputar essas decisões, embora o acesso a eles continue tão desigual quanto tantas outras coisas no Brasil. Sua insuficiência merece cobrança; seu abandono entrega ainda mais poder a quem já dispõe dele.
Marla acrescentou que fora da política não há solução, e que o espaço deixado por ela pode ser ocupado pela intervenção e pela dominação. A observação tocava num ponto que a decepção costuma esconder. Mesmo quando desistimos de participar, continuam decidindo sobre nós. O preço do combustível, as condições de trabalho, o atendimento de saúde e as prioridades do orçamento seguem sujeitos a escolhas. A ausência de quem é afetado facilita a vida de quem escolhe.
No Amazonas, essa distância entre decisão e consequência pode ser medida também em dias de viagem. Uma medida administrativa tomada em um gabinete alcança uma família ribeirinha como falta de transporte, demora no atendimento ou dificuldade para manter um filho na escola. A política acompanha a vida mesmo onde seus representantes raramente aparecem.
Nada disso exige transformar uma corrida de Uber em aula de cidadania. Pelo relato de Marla, houve uma conversa, com a abertura necessária para que uma posição inicial não se tornasse uma obrigação de permanecer nela até o fim.
Talvez seja esse um dos efeitos mais cansativos da polarização. As pessoas passam a defender, além de suas opiniões, a impossibilidade de revê-las. Qualquer concessão parece uma derrota diante de uma plateia que muitas vezes nem está presente. Uma conversa entre duas pessoas acaba carregando as exigências de todas as brigas das redes sociais.
Ali, o desfecho foi outro. O motorista assumiu o compromisso de votar pela democracia.
Seria exagero concluir que abandonou o anarquismo ou que os dois passaram a concordar sobre o Brasil. O episódio permite uma conclusão mais modesta, e por isso mesmo interessante. Eles encontraram um compromisso possível sem precisar resolver todas as diferenças que os separavam.
Marla me contou a história, e fiquei pensando na quantidade de conversas que interrompemos antes de chegar a esse ponto. Às vezes, por impaciência; outras, porque já entramos nelas preparando a resposta. Naquela corrida, uma pergunta permitiu que o motorista dissesse um pouco mais do que o rótulo com que havia se apresentado. Foi o suficiente para que a democracia entrasse na conversa e permanecesse nela até o destino.