
Nesse momento de pandemia, observamos na mídia informações de todos os tipos sobre alimentação e nutrição, com o objetivo de prevenir ou mesmo curar aqueles que contraíram a COVID-19. O propósito deste artigo é trazer conhecimentos científicos que possam servir de guia para a população sobre escolhas de alimentos que auxiliem o organismo a enfrentar esse problema.
Comecemos então pelo sistema imune, que é constituído por um conjunto de células que protegem o organismo contra microrganismos ou compostos desconhecidos que poderiam causar algum malefício. A nutrição pode modular a resposta imune. Hábitos alimentares saudáveis, com a ingestão dos nutrientes necessários de acordo com a fase de vida, fazem com que o sistema imune esteja melhor preparado para enfrentar a COVID-19. Neste contexto, destacam-se os micronutrientes, constituídos por minerais e vitaminas, sendo os mais relevantes o zinco (Zn), o selênio (Se) e as vitaminas A, C e D.
Zinco
O Zn possui inúmeras funções no organismo. Além da sua importância no sistema imune, atua no transporte de vitamina A, pois a proteína responsável por essa função é dependente de Zn. As melhores fontes de Zn são os mariscos (a ostra em especial), carnes vermelhas, vísceras, fígado, peixes, ovos e cereais integrais. A recomendação de ingestão diária para adultos e idosos é de 8mg para mulheres e de 11mg/dia para homens, com um limite máximo tolerável de 40mg/dia, acima do qual existe a possibilidade de efeitos adversos. No quadro abaixo pode-se observar os teores de Zn em alguns alimentos.

* Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos – TACO. 4. ed. 2017.
Selênio
O Se é outro mineral muito importante para a saúde, devido ao seu poder antioxidante e ação no sistema imune. O Se age em conjunto com a vitamina E, protegendo as membranas celulares contra a peroxidação lipídica. A recomendação de ingestão diária para adultos e idosos é de 55mg, sendo 400mg/dia o valor máximo tolerado, pois o excesso pode levar a efeitos adversos. A castanha-do-brasil é o alimento mais rico em Se, mas deve ser ingerido apenas uma ao dia. Dependendo da procedência, como por exemplo Manaus (AM), recomenda-se ingerir da castanha-do-brasil uma a cada 3 dias. O teor de Se em outros alimentos pode variar de acordo com o teor desse elemento no solo e na alimentação dos animais de criação para consumo humano. A tabela abaixo indica os valores de Se em alguns alimentos.

Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA). Universidade de São Paulo (USP). Food Research Center (FoRC). Versão 7.0. São Paulo, 2019. [Acesso em: 03.04.2020 ]. Disponível em: http://www.fcf.usp.br/tbca
Vitamina A
É outro nutriente com importante função imunomoduladora. Pode ser encontrada pré-formada, já na sua forma ativa, chamada de retinol, em alimentos do reino animal e nos precursores carotenoides provenientes dos vegetais. Os alimentos mais ricos são o fígado, óleos de fígado de peixes (ex. bacalhau) e os vegetais verdes escuros e alaranjados. Assim como as demais vitaminas lipossolúveis, o excesso na dieta pode ser tóxico, principalmente para os idosos com comprometimento renal. A ingestão diária recomendada é de 900mg de retinol para homens e de 700mg de retinol para mulheres, sendo 3000mg de retinol o limite máximo para ambos. Na tabela abaixo podem ser vistos alguns exemplos de quantidades de Vitamina A nos alimentos.

*Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos – TACO. 4. ed. 2017.
Vitamina C
É mais importante antioxidante do organismo em meio aquoso. Muito estudada, com inúmeras indicações para redução do risco e até cura de doenças, principalmente do trato respiratório, entretanto sem comprovação científica robusta. O consumo regular parece ser um fator auxiliar na redução da duração de episódios infecciosos. A recomendação de ingestão diária para adultos e idosos é de 75mg/dia para mulheres e 90mg/dia para homens, com valores mais altos para fumantes (95mg/dia). Embora sem efeitos tóxicos evidentes, uma vez que vitamina C em excesso é eliminado pelo organismo, quantidades muito acima das recomendadas (2,5 a 3,0g) podem causar desconforto intestinal (diarreia osmótica) e alterar resultados de exames clínicos (ex. diabéticos). Frutas em geral fornecem as quantidades de vitamina C necessárias para a ação esperada. A tabela abaixo indica valores de vitamina C em algumas frutas.

Vitamina D
Outro nutriente relevante para o sistema imune, com importante função no tecido ósseo também. A síntese desta vitamina se dá pela exposição da pele humana aos raios solares UV-B. Além dos alimentos fortificados, os óleos de fígado de peixes são fontes naturais de vitamina D. Recentemente foi divulgado na imprensa que indivíduos que contraíram a COVID-19 eram deficientes nessa vitamina, o que era de se esperar, pois os mais afetados pela pandemia eram os idosos, que têm menor exposição solar e pele mais ressecada, ou seja, a síntese da vitamina é menor. As recomendações diárias para adultos e idosos é de 600 UI (15 mg) e o limite superior é de 4000 UI. A tabela abaixo indica os alimentos mais ricos em Vitamina D.

*Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos – TACO. 4. ed. 2017.
Coronavírus e os idosos
A medida que se envelhece o sistema imune pode ficar prejudicado por várias razões:
1) Consumo de dietas desbalanceadas, devido a dificuldades para aquisição e preparo dos alimentos, problemas econômicos e de convívio social, próteses dentárias mal ajustadas, dentre outros, levando a maior monotonia na alimentação;
2) Menor secreção de saliva (o idoso pode não se hidratar adequadamente); maior dificuldade para mastigação dos alimentos; menor secreção de ácido clorídrico no estômago, que causa diminuição da absorção dos minerais (melhor absorvidos em meio ácido) e da digestão de proteínas e diminuição da secreção enzimática no intestino, que prejudica o aproveitamento dos nutrientes;
3) Maior consumo de medicamentos para tratamento de doenças infecciosas e crônicas, como obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e câncer. O uso excessivo de certos medicamentos, como antibióticos, pode causar disbiose, ou seja, desequilíbrio da microbiota intestinal e diminuição dos micro-organismos benéficos para a sua saúde.
Assim, o que fazer no momento para auxiliar e fortalecer o sistema imune? Com orientação nutricional adequada, isso é possível a médio prazo, e a recomendação para os indivíduos idosos é que façam uso de suplementos vitamínicos e minerais que contenham doses baixas, próximas das recomendações de ingestão, auxiliando a melhorar o estado nutricional geral. Associado a essa suplementação, recomenda-se uma alimentação equilibrada, com arroz e feijão, carnes em geral, leite e derivados, ovos, vegetais folhosos e hortaliças e frutas variadas, e a ingestão de quantidades adequadas de água (30-40mL/kg peso corporal), evitando açúcares simples (de adição), excesso de sal e alimentos gordurosos. O nutricionista é o profissional mais indicado para uma orientação adequada e de forma individualizada. Desta maneira, o organismo estará mais protegido, não apenas para enfrentar o coronavírus, mas também para se defender de outras doenças.
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Referências Bibliográficas
1. Cozzolino, SMF. Biodisponibilidade de Nutrientes 5ed. 2015, Editora Manole, Barueri, SP.
2. Cominetti, C. & Cozzolino, SMF. Bases Bioquímicas e Fisiológicas da Nutrição: nas diferentes fases da vida, na saúde e na doença, 2ed 2020, 1378p. Editora Manole, Barueri, SP.
3. Institute of Medicine Dietary Reference Intakes: the essential guide to nutrient requirements. Washington: The National Academy Press; 2006
4. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos – TACO. 4. ed. 2017.
5. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA). Universidade de São Paulo (USP). Food Research Center (FoRC). Versão 7.0. São Paulo, 2019. [Acesso em: 03042020 ]. Disponível em: http://www.fcf.usp.br/tbca
Fonte: Alimentos sem Mitos
