COP30 destaca sistemas agroflorestais como solução climática e alimentar

Em territórios indígenas e áreas rurais, sistemas agroflorestais regeneram solos, fortalecem comunidades e reduzem emissões com baixo custo e alta diversidade produtiva.

Na COP30, em Belém, a segurança alimentar emergiu como pauta central. Em carta aberta, o presidente do movimento Slow Food, Edward Mukiibi, declarou: “A alimentação é o elo perdido na política climática. Ela é tanto um motor quanto uma vítima da crise climática, mas também tem o poder de se tornar nossa solução mais eficaz quando enraizada nos valores do bem, limpo e justo.”

Segundo a Comissão EAT-Lancet 2025, mesmo com o fim dos combustíveis fósseis, os sistemas alimentares atuais podem levar o planeta além da meta de 1,5 °C. Responsáveis por cerca de 30% das emissões globais, esses sistemas precisam ser reformulados para reduzir impactos ambientais e evitar milhões de mortes prematuras. Na América Latina, mais de 70% dos países enfrentam eventos climáticos extremos que afetam diretamente a produção de alimentos e os meios de subsistência rural.

Nesse contexto, os sistemas agroflorestais ganham destaque como alternativa sustentável. Em Minas Gerais, o Instituto Terra e o povo Krenak colocam em prática um modelo que alia restauração ambiental à produção diversificada de alimentos. Espécies como cacau, mandioca, banana e jenipapo são cultivadas em consórcios adaptados à cultura local, o que reforça a autonomia alimentar e gera renda para a comunidade.

Técnico do Instituto Terra realiza manejo em horta integrada a sistemas agroflorestais.
Iniciativas como as do Instituto Terra fortalecem sistemas agroflorestais em territórios tradicionais, com foco em soberania alimentar e regeneração do solo. Foto: Gabriel Reis/ Valor e Um Só Planeta

No sul da Bahia, Ernst Götsch aplica há décadas os princípios da agricultura sintrópica. Sem uso de irrigação ou insumos externos, sua fazenda mantém solos férteis e temperaturas mais baixas. “O maior insumo externo que você precisa é conhecimento”, afirma. “Com sua capacidade de pensamento abstrato e de construir ferramentas complexas, acredito que o ser humano apareceu neste planeta para dar uma outra dimensão à vida. Vida cria mais vida. Nós não vamos passar fome. Para ter abundância no país, é só envolver a nossa inteligência em um lugar mais benéfico para a vida.”

Para Götsch, políticas públicas e educação são fundamentais para ampliar o uso dos sistemas agroflorestais. “A gente pode ensinar isso nas escolas, mas para isso temos que formar professores. É possível, a passos de aprendizado, de criatividade e mudança de políticas”, conclui.

Ernst Götsch em sua fazenda sintrópica rodeado por vegetação densa de sistemas agroflorestais.
Referência mundial em sistemas agroflorestais, Ernst Götsch aplica na prática um modelo agrícola que alia biodiversidade, produtividade e conhecimento ecológico. Foto: Florian Kopp

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

10 espécies que correm risco de extinção destacadas em 2026

Lista internacional destaca 10 espécies em risco extremo e revela como a biodiversidade ameaçada reflete os impactos da ação humana.

Geleira da Groenlândia sofre rupturas inéditas após décadas de aquecimento

Fraturas inéditas e drenagens abruptas revelam instabilidade crescente em geleira da Groenlândia, impulsionada pelo avanço do aquecimento global.

Brasil: câmeras em ação e a democracia na cabeça

"A democracia não se defende só com voto —...

Das veias abertas ao protagonismo amazônico

"A transformação brasileira pode manter tudo o que temos...

Enfim, destravou o acordo UE–Mercosul. E como isso afeta a ZFM?

“A síntese é esta: o Acordo UE–Mercosul mexe no...