Centro Histórico de Manaus: O Triste fim da “Paris dos Trópicos”

“Algo muito contraditório, tendo em vista que, segundo pesquisa do IBGE em 2021, Manaus foi a 5º capital mais rica do Brasil, porém, a realidade é a marginalização de grande parte da população, a 2ª cidade em quantidade de favelas.”

Por Miguel de Oliveira

O centro histórico bem como o centro de Manaus como um todo vive atualmente sua pior fase. A cidade que nos períodos áureos a extração e exportação da borracha ficou conhecida como a “Paris dos Trópicos” sucumbiu ao pior nível da comparação. A região que antes era marcada pela grande “finesse”, imóveis de arquitetura europeia, mercados e comércios estocados de produtos importados e regionais da melhor qualidade e principalmente, a região que muito antes de qualquer outra metrópole brasileira, era de fato internacionalizada, onde muito além de migrantes internacionais, havia a presença forte da cultura desses migrantes, que não obstante as questões comerciais, se apaixonaram pela Amazônia brasileira e fizeram da cidade de Manaus, a sua nova casa.

E com isso, a influência de diversos povos tais quais israelitas, árabes, japoneses, franceses, argentinos dentre muitos outros fizeram o centro de Manaus um “pedacinho do mundo no meio da Amazônia”. Tudo isso em épocas tão longínquas que ao ler os livros de história e ver as fotos, é capaz de pensarmos que seja qualquer outra cidade do mundo inteiro, menos Manaus.

Porém, como em vários outros momentos da história do Brasil, a região Norte voltou ao esquecimento com a mesma rapidez na qual foi alçada ao topo como região economicamente influente. E novamente fomos condenados ao quase total esquecimento até a década de 1970, com a reformulação do pensamento geopolítico nacional, com o então diretor do extinto Serviço Nacional de Inteligência (SNI) o General Golbery do Couto e Silva, a região voltou aos holofotes do Governo Federal, porém, não com boas intenções.

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foto: Tadeu Jnr/Unsplash

Tal plano foi arquitetado devido a conclusão de que a região no estado em que se encontrava (e ainda se encontra) era um alvo fácil para invasões de outros países. Tanto que na década de 1970 foram criados os famosos Pelotões Especiais de Fronteira (PEF) com o objetivo de fortalecer a guarnição militar na região. E houve ainda a criação da famosa Zona Franca de Manaus (ZFM), região com diversos incentivos fiscais para a instalação de fábricas e assim incentivar o desenvolvimento da região.

Porém, o resultado que se discorreu foi apenas “o mais do mesmo”, grandes empresas internacionais se instalaram na região, trazendo consigo produtos importados de alta qualidade e tecnologia, houve o aumento da empregabilidade com abertura de vagas nas fábricas e aumento de renda e oportunidades para a população manauara em conseguir trabalhar nas áreas técnicas na região.

Porém, a equação que era formada de: empresas internacionais repletas de incentivos fiscais + direção das indústrias nas mãos de pessoas de outros estados e países + mão de obra barata = altos níveis de lucros, sendo grande parte deles sendo remetidos para fora, resultados de um “chão de fábrica” nortista e uma diretoria “gringa” ou de pessoas vindas de outros estados, fazendo com que diversos amazonenses e nortistas como um todo passassem (e ainda passam devido ao baixo nível educacional técnico) “apertando parafuso” por toda uma vida até sua aposentadoria, sem quaisquer expectativas de crescimento, visto que ascender aos cargos mais altos há a necessidade falar outros idiomas, realizar especializações que simplesmente não existe na região.

Além de todos esses agravantes pode-se adicionar o clássico preconceito enraizado sobre a população nortista, nas quais são quase equiparados aos animais amazônicos, visto que para grande parte do país a região se resume a apenas “floresta, onça-pintada e indígenas”.

Com todos esses fatores associados, o resultado não poderia ser outro, Manaus que já viveu momentos de destaque econômico e de influência, se reduziu a capital brasileira que, em termos gerais e práticos, não possui saneamento básico (se contentando com um sistema de tubulação de esgoto cujo fim são os rios e igarapés), a uma capital que cresce desordenadamente sem quaisquer planos de infraestrutura (a formação dos bairros na cidade, em sua grande maioria foram formadas pelas famosas “invasões”), a uma cidade cuja ápice da mobilidade urbana são ônibus elétricos que “podem ser contados nos dedos”, dentre outras centenas de problemas.

Algo muito contraditório, tendo em vista que, segundo pesquisa do IBGE em 2021, Manaus foi a 5º capital mais rica do Brasil, porém, a realidade é a marginalização de grande parte da população, a 2ª cidade em quantidade de favelas.

Logo, podemos concluir que há algo de errado. E todas essas condições e contradições estão à olhos vistos nas ruas e
bairros de Manaus, em especial, naquela que anteriormente foi a “joia da coroa” de Manaus, o centro. A região que já foi um dia um lugar almejado para se instalar uma residência ou um comércio, vive um movimento contrário, onde todos que estão, estão fazendo de tudo para não estar mais.

Algo muito contraditório, tendo em vista que, segundo pesquisa do IBGE em 2021, Manaus foi a 5º capital mais rica do Brasil, porém, a realidade é a marginalização de grande parte da população, a 2ª cidade em quantidade de favelas.

Donos de comércio fecham suas portas pela quantidade incessante de assaltos, moradores não vivem na região, mas sim sobrevivem diante a alta violência e criminalidade que tomou conta da região, fazendo que os moradores ou venda, suas casas “à preço de banana” ou em um ato de desespero fujam do lugar que em muitos casos nasceram e foram criados.

O que se vê no centro de Manaus hoje é uma região de total abandono em várias instâncias, abandono da segurança pública, tendo em vista baixo policiamento e efetivo policial, más condições e até falta de equipamentos necessários para garantir a segurança, falta de saneamento básico com esgotos à céu aberto, onde ratos caminham juntos com uma quantidade exorbitante de pessoas em situação de rua, que ou são dependentes químicos e que para financiar seus vícios realizam assaltos e furtos ou pessoas portadores de enfermidades mentais abandonadas e entregues a própria sorte.

Ruas sem a menor condição de trafegabilidade, visto que as ruas e calçadas repletas de vendedores ambulantes, que em muitos casos comercializam alimentos em condições insalubres e/ou produtos sem qualquer procedência e em muitos casos falsificados e importados de forma irregular. Fazendo com que pela praticidade e preço extremamente mais baixo esses conseguem “dominar” a região, visto que os comerciantes lutam para pagar as taxas, impostos e licenças municipais, estaduais e federais enquanto lutam para sobreviver com poucos clientes e muitos criminosos.

Mesmo com tudo isso, o centro ainda é utilizado como “região modelo”, área turística da mais alta qualidade, sendo que, não há placas indicando ruas, não há placas e informativos em língua estrangeira para apoio e suporte aos turistas, a precariedade do suporte ao turista faz com que em muitos casos condicionam os turistas a experiência mais fidedigna da realidade manauara, se assim podemos dizer, ou seja, lhe deixam “à Deus dará”.

A única luz no fim desse túnel quase sem fim seria não somente “jogar dinheiro” de forma desordenada mas sim algo que não é do “costume” dos governantes locais, um plano de revitalização da região composta por equipe multidisciplinar técnica e aplicada em métodos científicos e tecnológicos, algo que talvez nunca vimos ser realizado e na situação em que nos encontramos, não veremos tão cedo.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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