Carbono de guerra: o preço da violência e a utopia da paz possível

“Nossa homenagem a Caetano Scannavino, Coordenador do Saúde&Alegria e membro do Observatório do Clima, autor do editorial Carbono de guerra publicado na Folha deste 18 de julho de 2025

E se não existisse a guerra? O mundo seria outro. A Amazônia respiraria. O Sahel floresceria. Os orçamentos nacionais seriam instrumentos de vida, não de morte. As armas, transformadas em máquinas agrícolas, placas solares, livros e alimentos. As fadas, enfim, retornariam.

A face invisível das emissões: o carbono das guerras

Desde o Protocolo de Kyoto, em 1997, as atividades militares escapam das obrigações de transparência climática. Se fossem um país, as Forças Armadas do mundo responderiam por cerca de 5,5% das emissões globais de carbono, mais do que toda a aviação civil. Estariam entre os quatro maiores emissores do planeta, atrás apenas de China, EUA e Índia. O Pentágono, sozinho, é o maior consumidor de petróleo do mundo. E ninguém presta contas.

O argumento da “segurança nacional” silencia relatórios e omite impactos

Fala-se de mísseis inteligentes, mas não se quantificam as bombas burras que explodem o clima, devastam florestas, geram êxodos, fome e doença. Reconstruir Gaza, segundo estudo da Social Science Research Network, pode gerar 31 milhões de toneladas de CO₂ — mais que 100 países em um ano. Na Ucrânia, a guerra já teria emitido 200 milhões de toneladas de CO₂ — quase o mesmo que todo o Brasil em 2024.

carbono de guerra
OMM alerta para possível descumprimento de Acordo de Paris (Imagem: mbaysan/iStock) Impactos do carbono

O preço da guerra e a miséria latino-americana

Enquanto os arsenais se multiplicam, o Sul global se endivida. Em 2024, o mundo bateu um novo recorde: US$ 2,7 trilhões em gastos militares. Isso é o dobro do que se precisaria por ano para manter o aquecimento global sob controle. Na América Latina, onde mais da metade da população vive com menos de dois salários mínimos, a desigualdade segue cavando trincheiras.

A lógica da guerra, aqui, é outra

É a guerra contra o investimento público, contra o desenvolvimento regional, contra a justiça tributária. A guerra contra a esperança. As armas, neste lado do mundo, não explodem cidades, mas estilhaçam futuros.

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Um futuro possível: e se as guerras dessem lugar à fraternidade?

E se as fronteiras fossem corredores verdes? E se as indústrias bélicas fossem reconvertidas para biotecnologia, energia limpa, mobilidade sustentável? E se o investimento global de defesa (US$ 2,7 trilhões!) fosse redirecionado para a educação, saúde e adaptação climática?

Imagine o Brasil liderando uma aliança sul-americana para o desarmamento climático

Exportando inteligência ecológica, ciência tropical, energia solar da Amazônia e modelos de bioeconomia justa. Imagine a Colômbia investindo em reflorestamento ao invés de drones de vigilância. Imagine a Bolívia trocando lítio por soberania energética. Imagine a Venezuela transformando petróleo em justiça social.

Imagine um continente onde a guerra não tenha lugar

Onde a segurança seja humana, e não militar. Onde a paz seja feita não pela força das armas, mas pela força da empatia, da cooperação e da regeneração planetária.

Armas sem carbono ou sociedades sem armas?

A indústria bélica tenta se pintar de verde: tanques a hidrogênio, frotas movidas a biocombustíveis, drones “carbon free”. Mas a pergunta essencial permanece: é possível mitigar o carbono da violência? O problema não é só o carbono das guerras, mas a guerra como modelo de mundo.

Uma nova utopia latino-americana

Utopia é um conceito e um propósito coletivo que podemos antecipar se quisermos coletivamente. A América Latina poderia ser o berço de uma nova narrativa civilizatória. Temos a floresta, a água, o sol, a cultura da paz, o saber ancestral e uma juventude vibrante. O que nos falta não é recurso — é ambição ética. Podemos sonhar com cidades que plantam em vez de atirar. Com fronteiras que conectam em vez de separar.

Porque, no fim das contas, a guerra não é inevitável

É um projeto. E projetos – à luz de seus produtos e subprodutos de morte e dor – podem ser substituídos.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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