O Brasil que Brasília e São Paulo ainda não enxergam

O país segue sendo percebido como algo pequeno e simples. É inacreditável como um país complexo, grande, diverso e plural seja reduzido a um conjunto de simplificações incompatíveis com a sua grandeza. É como se estivéssemos parados num tempo remoto do passado, onde as distâncias fossem pequenas, a significância econômica estivesse apenas no entorno da capital e as populações fossem homogêneas.

A diversidade contemporânea, a pluralidade social, cultural e econômica é enorme, a grandeza e complexidade de difícil compreensão, com um eixo comum de legislações e padrões comportamentais na forma de fazer negócios ou se relacionar. Ainda não está aceito pelas mentes mais brilhantes de Brasília e São Paulo que o protagonismo nacional econômico é distribuído e não mais centralizado. Enquanto não houver esta “mudança de chave”, acompanhada pelo jornalismo econômico nacional, teremos dificuldade de sair da armadilha do pequeno crescimento.

Pode ser cinismo ou ignorância em vários pequenos vídeos de WhatsApp, Instagram ou YouTube, que influenciam significativamente o diálogo econômico contemporâneo. Ora se verificam textos e mais textos criticando os investimentos públicos, ora se verifica a necessidade de investimentos. Ora o que norteia a discussão pública é a crítica para grandes obras, porque o governo “não tem dinheiro”, ora a crítica é a falta de obras. A crítica mais curiosa da última semana foi o baixíssimo volume de desemprego, que veio associada com a crítica da falta de profissionais. O que nos falta, ao que me parece, é um consenso mínimo sobre o que é a rota de crescimento para um país tão diverso.

Com a diversidade que temos, haverá Estados onde investimentos são fundamentais, mas haverá outros que já possuem uma situação melhor, onde os investimentos precisarão ser voltados para uma maior qualificação de mão de obra.

BRASIL QUE BRASILIA
Fundação FAS

Por exemplo, enquanto em Estados como o Amazonas ou Pará, precisamos de grande qualificação de mão de obra, investimentos nos sistemas de ciência, tecnologia e inovação, associados com pesados recursos para infraestrutura, em Estados do Sudeste, como São Paulo ou Rio de Janeiro, o investimento mais apropriado será provavelmente voltado para ampliação da cobertura da formação de pessoas, reduzindo as deficiências de mão de obra qualificada e o custeio para a manutenção do que existe e que se deteriora a olhos vistos.

Encontrar soluções únicas para um país complexo e grande como o Brasil fará com que tenhamos sempre descompassos entre necessidade e realização. Outro efeito que teremos é um aumento progressivo nas desigualdades regionais. Precisamos ajustar as políticas públicas nacionais reconhecendo a diversidade de necessidades.

É necessário mudar a dinâmica dos tetos de gastos, pois eles farão total sentido em regiões onde já há população, produção e dinâmica econômica ampla e ele não fará nenhum sentido nas regiões isoladas, onde os efeitos de investimentos não serão inflacionários, mas, ao contrário, com a criação de uma base de geração de riqueza, com desenvolvimento, ao invés de crescimento inflado. Está na hora de evoluirmos as conversas sobre o país para além de interesses familiares ou paroquiais.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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