“Nosso papel deve ser o de promover pontes, não muros. Temos legitimidade para propor uma nova agenda de comércio global — baseada em sustentabilidade, inclusão, ciência e cooperação. O Brasil no tabuleiro global precisa afirmar sua vocação para o diálogo, fugindo da lógica do cassino geopolítico e reafirmando, com convicção, que o futuro do planeta não pode depender de blefes bem ensaiados, mas de pactos reais e corajosos“
Em tempos de tensão geopolítica e rearranjos comerciais globais, o mundo assiste, mais uma vez, ao exercício performático de Donald Trump, que ressurge com sua cartada favorita: o blefe. Ao anunciar uma elevação drástica de tarifas sobre produtos chineses, estimados na ordem de 125%, e ao provocar uma imediata retaliação de Pequim, o presidente americano mostra que continua jogando pôquer com as relações internacionais. Mas é preciso lembrar: a geopolítica não é um cassino.
Trump é dono de cassino, mestre no jogo da ambiguidade radical. Blefar, nesse contexto, é tática de intimidação, não de solução. Trata-se de induzir o outro ao erro com jogadas que testam a estabilidade emocional e a capacidade estratégica dos adversários. O problema — para ele — é que a contraparte, o governo chinês, opera em outro código mental, milenar, paciente e cirúrgico, baseado na sabedoria de Sun Tzu: “a suprema arte da guerra é vencer sem lutar”.
O que está em jogo
Estamos diante de dois gigantes que, apesar das aparências, se completam. Um, os Estados Unidos, afundado em déficits fiscais crescentes, tentando manter a supremacia econômica e militar à base de tensão e protecionismo. O outro, a China, um colosso industrial e tecnológico, cuja estratégia de longo prazo depende de estabilidade global para continuar expandindo sua esfera de influência.
Como já alertaram estrategistas da velha guarda, ambos têm o que o outro precisa, e a saída racional seria um acordo ganha-ganha. Mas a racionalidade, em tempos de populismo e nacionalismos inflamados, virou artigo de luxo. A Organização Mundial do Comércio (OMC), sem rodeios, prevê um colapso das relações comerciais internacionais, com uma retração de até 80% nos fluxos globais. Isso não é exagero: é o prenúncio de um caos possível — e evitável.
Se a retórica hostil evoluir para ação militar ou rupturas comerciais profundas, o planeta entra em rota de colapso definitivo. É o cenário de um mundo que escolheu a bravata no lugar da diplomacia, o medo no lugar da cooperação.
E o Brasil com isso?
O Brasil, nesse intervalo de três meses de recuo estratégico de Trump, poderia sonhar em se apresentar como alternativa. Mas é preciso ser honesto: não somos, ainda, uma candidatura competitiva nesse tabuleiro. Nosso sistema capitalista é arcaico, excludente e enredado em um Cipoal Tributário que assusta até os mais otimistas. A recente reforma tributária, ao invés de simplificar, ampliou o labirinto burocrático e afastou ainda mais a promessa de um capitalismo inteligente e distributivo.
Como bem insiste o líder empresarial Jaime Benchimol, é preciso que o Brasil se reconcilie com o capitalismo. Isso significa abraçar o mercado, sim, mas sem abrir mão da exigência inegociável de que a riqueza precisa ser distribuída com inteligência e equidade. Um país não prospera com um consumo travado e uma maioria barrada no baile.
O Brasil tem ativos extraordinários. Tem floresta, biodiversidade, água, energia limpa, gente capaz. Mas não pode cair na armadilha do extrativismo predatório, que transforma o acervo da natureza em almoxarifado de exportação sem valor agregado. Essa escolha — que já fere a floresta — também ameaça o próprio agronegócio, especialmente o do Centro-Oeste, que depende do equilíbrio hídrico gerado pela Amazônia.
Diplomacia: nosso trunfo legítimo
Se há algo que o Brasil tem de sobra, é credibilidade diplomática. Somos, ao longo da história, referência em negociações multilaterais, moderação ativa e construção de consensos. Agora, num mundo intoxicado por fanfarronices autoritárias, o país pode oferecer algo raro: lucidez, mediação e propósito comum.
Nosso papel deve ser o de promover pontes, não muros. Temos legitimidade para propor uma nova agenda de comércio global — baseada em sustentabilidade, inclusão, ciência e cooperação. Devemos fugir da lógica do cassino geopolítico e afirmar, com convicção, que o futuro do planeta não pode depender de blefes bem ensaiados, mas de pactos reais e corajosos.