Bioeconomia na margem e no volume

“Quem lidera as pesquisas sobre o tambaqui é a Embrapa de Tocantins, em parceria com uma iniciativa europeia de estudos em aquicultura, de orçamento ínfimo diante das verbas de P&D das gigantes da bolsa norte-americana. Ao atrair para a Amazônia parte dos orçamentos de P&D das grandes multinacionais de biotecnologia, pesquisas como a do Aldessandro serão rotina, permitindo aos amazônidas enriquecerem tanto na margem quanto no volume, por cadeias produtivas que hoje sequer imaginamos.”

Por André Ricardo Costa
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A escolha pela Bioeconomia para substituir o modelo ZFM é certeira. O mundo está numa corrida para dominar as cadeias produtivas relacionadas à biotecnologia. Mais de 10% das empresas listadas nas bolsas norte-americanas são de alguma forma voltadas a este segmento, reconhecendo um potencial de ganho de US$ 4,9 trilhões de dólares em termos de capitalização de mercado.

As três maiores multinacionais de biotecnologia destinam anualmente 57 bilhões de dólares somente a projetos de P&D, e empregam centenas de milhares de pessoas. Algumas atuam em cadeias produtivas próximas a existentes no PIM, como instrumentos eletrônicos de biomedicina. Atrair seus investimentos pode ser uma das chaves para efetivar a transição da ZFM para a Bioeconomia.

Laboratorio da Coordenacao de Biotecnologia Vegetal no Centro de Biotecnologia da Amazonia Manaus Lalo de AlmeidaFolhapress
Pesquisadoras trabalham no Laboratório da Coordenação de Biotecnologia Vegetal no Centro de Biotecnologia da Amazônia, no Distrito Industrial, em Manaus – Lalo de Almeida/Folhapress

As demais, geralmente relacionadas à farmácia, medicina diagnóstica e alimentos, dependem de esclarecer os caminhos entre a pesquisa básica e a oferta de bens e serviços ao consumidor final. A questão é como viabilizar isso usando nossos recursos naturais de modo que com o passar dos séculos a Amazônia tenha cada palmo de sua superfície relacionado a atividades produtivas que não lhes descaracterizem enquanto bioma.

Os caminhos da geração de valor mostram duas formas de solucionar isso. Cada cadeia produtiva precisa ter de antemão a ideia se seu produto vai ser item de luxo, de elevadíssimo valor agregado, pelo qual consumidores de alta renda estariam dispostos a pagar elevadas quantias. Seria tratar nossos frutos, dos quais tanto nos orgulhamos, como os mediterrâneos tratam a uva ou a azeitona.

Bioeconomia na margem e no volume
Uma das iniciativas apoiadas pelo PPBio é a Yara Couro, que comercializa couro sustentável de peixes amazônicos para a indústria da moda

O famoso “ganhar na margem”, também aplicado pelos suíços quanto ao queijo, chocolate e relógios, pelos japoneses quanto ao gado wagyu, pelos alemães quanto aos automóveis. A biotecnologia nos dispensaria de depender de produtos exóticos em monocultura intensiva e abreviaria centenas de anos de seleção. Todo solo amazônida estaria envolvido em sistemas agroflorestais sustentáveis, em máxima produtividade e valor.

O “ganhar no volume”, como é a lógica do agronegócio que resolve os IDHs dos municípios do Centro-Oeste brasileiro, poderia ser aplicado na Amazônia em contextos que não concorrem com o bioma. Exemplo recente é o conjunto de pesquisas, como a do doutorando pela UFAM Aldessandro Amaral, que descobre técnicas de aquicultura de aumentar o peso máximo do tambaqui, redução do ciclo de cultivo e aumento da conversão alimentar.

Agroindustria Brasileira Foto divulgacao

A técnica é valiosa pela produtividade e respeito ao meio ambiente não apenas amazônico como global. O procedimento de esterilização dos peixes permite-lhes serem cultivados como espécie exótica, possibilitando a outras regiões ganharem mais dinheiro com a produção de tambaquis que propriamente a Amazônia. Estilo seringueira/Malásia.

Para evitar esse cenário, é urgente demarcar a superfície de nossos rios como há séculos a Europa demarcou o solo e encerrou a escassez medieval. São 7,5 milhões de km² à nossa disposição. A estratégia atual, de apenas dar alevinos, nos limita a produzir anualmente não mais que 21 toneladas de peixes, enquanto a produção brasileira de carne bovina é de 9 milhões de toneladas.

Quem lidera as pesquisas sobre o tambaqui é a Embrapa de Tocantins, em parceria com uma iniciativa europeia de estudos em aquicultura, de orçamento ínfimo diante das verbas de P&D das gigantes da bolsa norte-americana. Ao atrair para a Amazônia parte dos orçamentos de P&D das grandes multinacionais de biotecnologia, pesquisas como a do Aldessandro serão rotina, permitindo aos amazônidas enriquecerem tanto na margem quanto no volume, por cadeias produtivas que hoje sequer imaginamos.

Andre Ricardo Costa
André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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