O aquecimento dos oceanos modifica correntes marinhas, afeta recifes de coral e pode gerar prejuízos bilionários à economia do mar no Brasil.
Estudos científicos indicam que o fenômeno já impacta diretamente a vida marinha. Pesquisa publicada na Nature Ecology & Evolution aponta que o aumento persistente da temperatura das águas está associado a uma redução anual de até 19,8% na biomassa de peixes no Hemisfério Norte.
A análise reuniu mais de 700 mil estimativas de variação de biomassa em quase 34 mil populações monitoradas entre 1993 e 2021. Ao excluir oscilações causadas por eventos climáticos extremos de curto prazo, os autores identificaram um declínio contínuo ligado ao aquecimento crônico dos mares. Embora o recorte geográfico seja regional, o processo é global. Outro estudo, publicado na Environmental Research Letters, mostra que a taxa de aquecimento dos oceanos aumentou 4,5 vezes nas últimas quatro décadas.
Para o Brasil, os efeitos vão além da biodiversidade. Os últimos dados oficiais estimaram o Produto Interno Bruto (PIB) da pesca e da aquicultura em cerca de R$ 25 bilhões. O aumento da temperatura altera a distribuição das espécies, levando peixes a migrar para áreas mais frias ou profundas. Isso reduz a disponibilidade em zonas tradicionais de captura, afetando a pesca artesanal e industrial e pressionando comunidades costeiras.
Segundo a Marinha do Brasil, aproximadamente 25% da população depende direta ou indiretamente de atividades ligadas ao mar. Os impactos também atingem a infraestrutura. Oceanos mais quentes intensificam a evaporação e ampliam a energia na atmosfera, favorecendo tempestades e ressacas mais severas. Portos estratégicos, como Santos, Paranaguá e Itajaí, enfrentam maior risco de paralisações e prejuízos logísticos.
No turismo, o aquecimento agrava o branqueamento de corais, comprometendo recifes como os de Abrolhos e da Costa dos Corais. A degradação reduz o potencial do mergulho e enfraquece barreiras naturais contra a erosão costeira.
Há ainda reflexos na aquicultura. A acidificação associada ao aumento de CO₂ dificulta a formação de conchas de moluscos e crustáceos, elevando custos e riscos para produtores, especialmente em Santa Catarina, responsável por mais de 95% da produção nacional de moluscos.
Com projeções indicando que o aquecimento dos oceanos deve persistir nas próximas décadas, mesmo em cenários de menores emissões, os impactos econômicos tendem a se intensificar e a redefinir prioridades na agenda climática e produtiva do país.