Amazonas, difamação sob encomenda

“Reconhecemos que falta governança participativa e efetiva dos recursos gerados pelas empresas. Existe legislação adequada para administrar essa massa de recursos, mas não há disposição do poder público em aplicar na região a riqueza aqui gerada como manda a Constituição.”

Wilson Périco
___________________

Há exatamente três anos, o jornal Financial Times e sua revista de Investimentos, a fDIntelligence, reconheceu nosso programa de desenvolvimento regional, a Zona Franca de Manaus, com premiações na área de Melhor Alternativa de Investimentos e Sustentabilidade. O mesmo reconhecimento já havia sido formalizado pela União Européia, UE, no contexto Desenvolvimento associado ao Meio Ambiente, da Agenda 21 e pela Organização Mundial do Comércio, OMC, quando advertiu a utilização irregular dos incentivos da indústria paulista e exaltou o Polo Industrial de Manaus, por sua performance nos serviços ambientais e redução das desigualdades inaceitáveis entre o Norte e o Sul do Brasil. Curioso é perceber que alguns setores e alguns atores da mídia nacional, a serviço sabe-se de quem, seguem requentando chavões antigos para atingir a reputação de quem aqui vive, trabalha e gera receita pública em exaustão a despeito dos estigmas e insinuações falaciosas de paraíso fiscal.

Aprovação e aplausos

As razões do reconhecimento da idoneidade da ZFM, por parte de organismos e instituições sérias, são similares aos motivos que levaram o Congresso Nacional a prorrogar, em 2014, por mais 50 anos, a contrapartida fiscal para ampliar e diversificar este programa de acertos. À parte a PEC 45, no contexto da Reforma Fiscal, que tem uma agenda mal disfarçada de eliminação da ZFM, o Senado Federal, com sua PEC 110, já reconheceu o direito e a segurança jurídica de nossa economia. A mesma manifestação foi consignada pela presidência da República: “ enquanto houver Zona Franca de Manaus haverá soberania do Brasil sobre a Amazônia”. Daí a nossa indignação com mais uma peça de difamação e perseguição do editorialista Celso Ming, um inveterado caluniador da economia do Amazonas.

Falta interlocução construtiva

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-09-10-at-14.43.42-3-801x630.jpeg
Wilson Périco é economista, empresário, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas e Coordenador da Convergência Empresarial do Amazônia.

Queremos interlocução construtiva, baseada em fatos, não em boatos. Há poucos estudos sérios sobre a ZFM. Um deles, Vitor Possebom, de 2017 (“Free trade zone of Manaus: an impact evaluation using the Synthetic Control Method”), publicado na Revista Brasileira de Economia, reconhece o aumento do poder aquisitivo na massa de trabalhadores. Outro, da FEA/USP, doutorado sobre Distribuição da Riqueza da ZFM, de Jorge Bispo, mostra que 54,42% da riqueza aqui produzida é recolhida pela União Federal e usada para outros fins, que não são as ações para reduzir as desigualdades regionais. São muito mais de R$ 17 bilhões em receitas tributárias para a União somente em IPI, além de receitas aos cofres do estado do Amazonas, do município de Manaus, das contribuições como contrapartida em investimentos em P&D, etc. Isso tudo supera em muito os R$25 bilhões alegados com frequência pelos arautos da maledicência. Esses gastos tributários são receitas hipotéticas que a União receberia de impostos se as empresas atuassem no Sudeste. Se saírem de Manaus, com certeza, não irão adotar o Custo Brasil em sua planilha de investimentos.

Benefícios efetivos e emperrados

O poder público não aplica R$0,1 na ZFM. Muito pelo contrário. O programa, entretanto, sustenta a Universidade do Estado do Amazonas, em seus 61 campi, em todos os municípios do Amazonas, o Projeto Atto (Observatório da Torre Alta da Amazônia) e o indescritível Festival de Parintins. E já financiou por dois anos o projeto Ciência sem Fronteiras. A ZFM gera 500 mil empregos diretos, indiretos e induzidos para um estado de pouco mais de 4 milhões de habitantes. E o Amazonas tem apenas 0,6% de todos os estabelecimentos industriais com 5 ou mais trabalhadores presentes no território nacional, embora represente 1,4% de todo o PIB brasileiro ou 1,3% de todo o pessoal ocupado nas empresas industriais. Seria essa a causa o rombo fiscal do Brasil, com apenas 8% das isenções tributárias? O Sudeste gasta mais de 50% das vantagens fiscais do Brasil.

Falta gestão e compromisso

Reconhecemos que falta governança participativa e efetiva dos recursos gerados pelas empresas. Existe legislação adequada para administrar essa massa de recursos, mas não há disposição do poder público em aplicar na região a riqueza aqui gerada como manda a Constituição. O último estudo, feito pela Fundação Getúlio Vargas, mostra os Impactos, efetividade e oportunidades da Zona Franca de Manaus. Para cada 1 real dos supostos gastos tributários, a ZFM põe R$1,50 no bolso do cidadão. Ora, se 8% do bolo fiscal gera tantos benefícios e geraria muito mais se houvesse seriedade na gestão da riqueza, por que a hipocrisia dos escribas não direciona suas infâmias para quem utiliza, à revelia da Lei Maior, a metade dos incentivos fiscais do Brasil cobrando-lhes a devida contrapartida de benefícios a favor do cidadão contribuinte?

Artigos Relacionados

O Brasil descobriu que gerar energia limpa não basta

O primeiro leilão nacional de sistemas de armazenamento marca...

Onda de calor nos EUA pode quebrar mais de 90 recordes nesta semana 

Onda de calor nos EUA pode quebrar mais de 90 recordes, manter noites acima de 27°C, ampliar riscos à saúde e pressionar serviços de emergência.

Eleições na Amazônia 2026: Pará chega às urnas com legado ambiental marcado por avanços e contradições

Pará chega às eleições de 2026 com avanços na bioeconomia, queda recente do desmatamento, mas impasses sobre petróleo e povos indígenas.

Mutirão: a metodologia amazônica para equacionar entraves

A Amazônia desenvolveu, ao longo de séculos, uma tecnologia...