Agora, o FMPES

É pura balela a ideia que o PIM colabora pouco para nosso desenvolvimento social. Além do emprego e renda, o consumo intermediário, e a arrecadação do ICMS, pelos três fundos o PIM aportou R$ 20,5 bilhões aos cofres do governo do estado. Pelo FMPES, foram R$ 1,71 bilhões. Dinheiro supostamente carimbado para pequenos empreendedores, principalmente para o interior

O modelo Zona Franca de Manaus não é plenamente usufruído. Nem de longe. Tem muitas deficiências a serem sanadas, como a ineficácia nas exportações ao exterior, falta de impulsos e coordenações endógenas e lacunas no uso de insumos locais.

Contudo, ao passo que é fonte de valor, emprego, renda, e arrecadações tributárias, também tem permitido o comportamento caroneiro e expropriador, sobretudo por parte das autoridades locais. Há burocracias que prejudicam o ambiente de negócios, incidência de carga tributária oportunista sobre bens inelásticos e uso ineficiente de recursos que poderiam impulsionar a prosperidade da nossa população.

Este é o caso do FMPES. Uma das três contrapartidas há décadas pagas pelas indústrias para usufruto dos incentivos estaduais. Em evidência da curva de Laffer, a arrecadação de ICMS diretamente pagos pelo PIM é a maior fonte de recursos do governo do estado. Não bastasse, as indústrias incentivadas ainda pagam para arrecadar, por meio dos três fundos de contrapartidas, o FTI, UEA, e o FMPES. Ao menos pelo declarado nas leis constituintes, seus propósitos são fomentar projetos de desenvolvimento complementares ao PIM, mais ligados às potencialidades regionais e resolução de gargalos nas cadeias produtivas.

FMPES
Imagem criada por Inteligência Artificial

É pura balela a ideia que o PIM colabora pouco para nosso desenvolvimento social. Além do emprego e renda, o consumo intermediário, e a arrecadação do ICMS, pelos três fundos o PIM aportou R$ 20,5 bilhões aos cofres do governo do estado. Pelo FMPES, foram R$ 1,71 bilhões. Dinheiro supostamente carimbado para pequenos empreendedores, principalmente para o interior. O mediador escolhido é a Afeam, substituta do BEA, que poderia cumprir algo como o “BNDES amazonense”.

Mas não cumpre. Primeiro, as devoluções ao governo fazem do FMPES uma fonte indireta de manutenção da máquina governamental. Desde 2019 o fundo recebeu R$ 1,2 bilhões do tesouro amazonense, mas devolveu R$ 864 milhões. Aplicação líquida de apenas R$ 390 milhões nesse período.

Segundo, pelos incentivos ao “não-empréstimo”. Em vez de procurar apoio dos bancos comerciais, a Afeam depende de sua própria política de análise de crédito. Ineficaz, fez registrar R$ 78 milhões em provisões líquidas para devedores duvidosos somente em 2023. Com a taxa de administração atrelada ao patrimônio líquido do fundo, tenta evitar que o acúmulo de despesas com provisões reduza a base de cálculo da taxa de administração.

DALL·E 2024 08 27 17.10.09 A modern financial themed image featuring stacked coins and bar graphs overlayed with a bokeh effect. The image should have a blue toned color scheme

Porém, o pior dos incentivos é o pagamento, pela Afeam a seus colaboradores, da participação nos resultados. Induz à retenção dos recursos em aplicações financeiras, fonte de receitas maiores e mais seguras que os juros dos empréstimos aos pequenos empreendedores.

Das demonstrações contábeis auditadas disponíveis no seu website, salta aos olhos que em quase todos os anos o estoque de recebíveis das operações de crédito tenha sido bastante inferior ao total retido nas aplicações financeiras em Disponibilidades. A diferença aumenta sobremaneira ao se considerar os investimentos em Instrumentos Financeiros. Daí ficou fácil obter os R$ 26 milhões que perfazem a média anual das receitas financeiras da Afeam desde 2014. Total de R$ 252 milhões.

Nada a questionar em termos legais. Tudo dentro da lei. Prevalece é a cobrança para fazer render melhor esse dinheiro gerando valor no setor produtivo local. A Afeam poderia ser até mais que um “BNDES do Amazonas”. Efetuando parcerias transparentes com bancos comerciais, universidades, instituições de pesquisas, consultores e entidades empresariais. Seria uma plataforma de rentabilização das nossas cadeias produtivas. Um salto, ganho generalizado.

Andre Ricardo Costa
André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

Artigos Relacionados

O acordo Mercosul-União Europeia e a nova geografia da competitividade

Em tempos de guerras tarifárias e reorganização das cadeias...

Chuvas no Rio Grande do Sul afetam quase 60 mil pessoas em 218 cidades 

Chuvas no Rio Grande do Sul afetam quase 60 mil pessoas em 218 municípios, deixam 488 desabrigados e mantêm rios sob alerta de inundação.

Enchentes no Rio Grande do Sul revivem riscos de 2024 e expõem fragilidades 

Enchentes no Rio Grande do Sul atingem 169 municípios, deixam mais de 1000 fora de casa e mantêm o alerta para novas chuvas.

Crime organizado na Amazônia ameaça povo indígena na fronteira entre Brasil e Peru

Crime organizado na Amazônia avança sobre terras indígenas, ameaça lideranças ashaninka e pressiona Brasil e Peru a reforçarem a segurança.

Como se preparar para enfrentar os efeitos da estiagem severa é tema do Diálogos Amazônicos

"Fundação Getulio Vargas (FGV) promove, na próxima segunda-feira (27),...