Aduana, economia e ideologia

Dois assuntos trouxeram inspiração para a Coluna desta sexta-feira. O primeiro diz respeito ao compromisso da presidente Dilma Rousseff, na visita feita a Roraima no último dia 7, de construir “…uma aduana brasileira no porto de La Guanta, na Venezuela, para beneficiar o comércio com este estado fronteiriço e estimular a exportação de alimentos.” Aduana, ou Alfândega (do árabe al-fundaq, “hospedaria”), é uma estrutura portuária, com papel de repartição governamental oficial, de controle do movimento de entradas e saídas de mercadorias para o exterior ou dele provenientes, responsável, inclusive, pela cobrança dos tributos pertinentes. A obra seria novamente financiada com os recursos do BNDES – para onde, desde 2009, foram repassados parte dos recursos da TSA, verbas contingenciadas da Suframa – como o Porto de Mariel, em Havana. Embora não traga, diretamente, benefícios para a logística dos produtos da Zona Franca de Manaus, pelo ônus rodoviário, o porto de Roraima na Venezuela, enfim, devolveria a região – Amazônia Ocidental – os recursos que aqui foram gerados. Roraima, além da flexibilização ambiental – ninguém conserva patrimônio natural sem base econômica – precisa de mais acessibilidade para sua integração na região Norte. Esta meta demandaria que fosse concretizada a promessa da ferrovia para Guiana, potencializando Roraima, numa estratégia brasileira do final do século XX, que buscou retomar o pensamento público que originou a BR-174 (1980/1990), para maior integração do Brasil com o Norte da América do Sul. Com essa retomada, o prof. Dr. Augusto Rocha, da Ufam, e Coordenador de Logística do CIEAM/FIEAM, destacou o papel do IIRSA, uma iniciativa de integração do continente sul-americano, ensaiada há 15 anos, para formular estratégias conjuntas a partir da Amazônia, com foco na diversificação e adensamento da economia (transportes e negócios), muito mais do que o primado da ideologia. A ferrovia entre Roraima e Georgetown e a conexão rodo-fluvial entre Amazonas e Manta, no Equador, foram propostas inteligentes e coerentes, em defesa do adensamento de negócios, abandonadas em nome do imediatismo de operações sombrias que tiraram da ZFM a competitividade da modernização logística/portuária. E pior: tiraram do Brasil a oportunidade de inscrever nessa integração sua vocação de prosperidade e modernidade a partir da Amazônia. Os estudiosos e os policy-makers dos países da região e de fora dela, estão de modo geral convencidos de que também aqui se desenrolam eventos e ventos ideológicos que poderão confirmar, ou jogar por terra, a validade das teorias e análises voltadas para uma adequada compreensão da natureza e das tendências dominantes do atual sistema internacional. A Guerra Fria acabou? A satelização da Amazônia em órbitas ideológicas permitirá a retomada da integração em moldes da expansão econômica, científica, de inovação dialogal entre biotecnologia, tecnologia da informação e computação, ou irá submetê-la ao esquerdismo extemporâneo e estéril? A parceria entre o CMA e o MCTI, ora sob jugo do PCdoB, com quem se ensaiou enfrentamento bélico no, Araguaia nos anos 70, vai além do jargão ideológico? Tomara!

Estabelecimentos produtivos

Outra inspiração se refere à lembrança da professora Bertha Becker, a geógrafa que mergulhou na alma e nas oportunidades coerentes e promissoras da Amazônia, propondo a instalação de estabelecimentos produtivos, na perspectiva de suas vocações econômicas, como melhor estratégia de conservação florestal. Sua figura apareceu numa correspondência com o mestre Marcovitch, para alinhar os atores de alguns eventos que o CIEAM está promovendo em parceria com empresas e instituições de ensino e pesquisa na formação de novas atividades econômicas atreladas ao modelo industrial da ZFM. Um deles é conquistar apoio ao Programa de Mestrado da Economia Sustentável da Amazônia, reunindo USP e UEA, Seplan-cti, e parceiros habituais, para alinhar, nivelar, partilhar saberes e fazeres amazônicos, em projetos coerentes com a biodiversidade, a geodiversidade, a aquicultura, a nutracêutica e a dermocosmética, como sugeria Bertha Becker. Outro tema/problema na mesma inspiração, que deverá ocorrer na última semana do mês de setembro, diz respeito ao debate sobre a potencialidade da indústria de cosméticos e nutracêuticos, a partir da castanha e pupunha, com professores da USP, Silvia Cozzolino à frente, UEA, INPA, EMBRAPA e UFAM. São mais de 100 mil trabalhos já localizados sobre essas duas espécies amazônicas, no portal Scfinder, que faz um relato aos trabalhos científicos e acadêmicos relacionados à Química, e sua presença na biologia e na indústria. Este portal, subvencionado pelo governo americano, é acessível gratuitamente às instituições federais, seus pesquisadores, a um custo milionário por parte do CNPq, o Conselho Nacional de Pesquisa. Quem quiser empreender com profissionalismo precisa acessar esse banco de dados. Obrigatoriamente. Como obrigatório é revisitar Bertha Becker.

Amazônia excluída

Num ensaio geopolítico que busca responder a essa questão, e que pode ajudar a entender a distância do Brasil de si mesmo, a professora Bertha Becker mergulha na metodologia inovadora de Celso Furtado, de  aproximar a análise econômica da análise histórica, para que todos possamos entender a razão da inclusão do café e a exclusão da borracha na compreensão do Brasil a partir da Amazônia, no limite, feita pelo próprio Furtado, em sua Formação Econômica do Brasil. São poucas as menções da Amazônia na economia açucareira nos séculos XVI e XVII, apesar da forte presença da Amazônia maranhense neste item. É curiosa a sugestão de complementaridade entre o Nordeste e a Amazônia que, certamente, influiu nas políticas nacionais de desenvolvimento regional, tradicionalmente atrapalhada. Na Geografia do Sudeste, Norte e Nordeste são a mesma coisa, como se a Cabanagem ocorrerá entre as Heroínas de Tejucopapo. Seguem assim permeando indistintamente tucupi com acarajé, e caldeirada de carne de sol.

As ervas do sertão

Com as ervas do sertão amazônico e não nordestino e a economia da borracha e da castanha,  o que merece ser explicitado é que a Amazônia teve uma história diferente da brasileira. Dela se tomou posse e a região permaneceu por séculos sob processos ligados diretamente ao contexto internacional e à metrópole, praticamente à parte do Brasil. E isso perdura aos nossos dias. Becker aponta para os desafios históricos das relações da região Norte com os centros de poder, revelando que a problematização da Amazônia envolve a questão nacional. Falávamos sobre isso na Follow-Up de ontem, ao destacar o papel das Forças Armadas na manutenção da presença, zelo e guarda da Amazônia como ideia de Nação. A Amazônia, portanto, constitui um espaço de imensurável valor estratégico para a economia mundial, o que explica a constante interferência de forças externas na região e a dificuldade de integrá-la aos Estados nacionais até hoje. A partir do século XVI, fase em que a ciência moderna começa a estruturar-se, desbravadores percorrem o que é hoje a Amazônia e produzem preciosos relatos para a Europa sobre o mistério amazônico. O empenho em encontrar novas riquezas e terras estimulou a organização de grandes e custosas expedições científicas, desde fins do século XVIII e sobretudo no início do século XIX, que desenvolveram sistematicamente a pesquisa, a informação e o conhecimento sobre a região, com destaque para naturalistas alemães e ingleses. Só o Brasil ainda não atentou para o Brasil amazônico. Voltaremos.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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