A economia interna da Amazônia

“Desenvolver a Amazônia exige mais que um plano ou um projeto; exige ciência, ainda não disponível. Enquanto a ciência não vem, é só atropelos.”

Juarez Baldoino da Costa
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A visão de que o Brasil não se desenvolverá sem passar pela Amazônia não encontra amparo na realidade fática da história até então do país e do mundo.

Ouça a sua razão, Amazônia esfumaçada!"
Amazonólogo, economista, MSc em Cultura Amazônica.

O modelo e o estágio atual de desenvolvimento do G20 medido pelo PIB nos países melhor colocados neste ranking adveio de territórios, políticas, conhecimento, ações e contextos próprios, inclusive culturais, de cada um deles, obviamente em nada relacionados ao meio ambiente de espectro amazônico por ser ambiente inexistente em seus domínios. A exceção seria pelo viés do colonialismo remoto de exploração de recursos da região amazônica no século XVI por alguns países, mas ainda assim, somente a Espanha, destes países colonialistas, está entre os 20 mais desenvolvidos.

Ao aspirar melhora em sua colocação neste mesmo ranking de desenvolvimento, o Brasil, ao pretender e perseguir o mesmo modelo internacional forjado sem a existência da Amazônia, já consolidado e avançando mundo afora, igualmente até poderia também prescindir da Amazônia, já que todos os demais o conseguiram também sem Amazônia.

Este fato nada tem a ver com a necessidade premente de desenvolver a Amazônia que poderá somar neste cenário econômico, como já vem somando e já somou em períodos passados, guardadas as devidas proporções temporais.

A Amazônia tem duas principais âncoras econômicas: o Polo Industrial de Manaus que nada tem de Amazônia e cabe 100% num bairro qualquer de S. Paulo ou de Fortaleza, e a província de Carajás, cujas jazidas de seu subsolo também nada tem a ver com a Amazônia da superfície, a exemplo das jazidas de ferro de Minas Gerais ou da Austrália que igualmente nada tem em comum com a Amazônia florestal.

Como província mineral, atividade dissociada do bioma, seu grande potencial aguarda exploração, porém no momento e no tempo do mercado, e não do proprietário. Carajás no Pará é um exemplo assim como Pitinga no Amazonas, ambas em produção atendendo seus mercados, e por outro lado o nióbio dos 6 Lagos ao Norte do Amazonas que não têm qualquer perspectiva para os próximos 200 anos em razão da mina de Araxá em Minas Gerais atender mais de 90% do mercado mundial.

Gado e soja igualmente não pertencem a Amazônia principalmente porque precisam é que não haja floresta para serem rentáveis, como ocorre nos pampas e no cerrado brasileiros ou nas plagas Argentinas ou Norte Americanas. É inviável colher soja sem as colheitadeiras motorizadas que precisam de terrenos planos e sem árvores por quilômetros de extensão.

A Amazônia biológica teria outras importantes contribuições a ela intrínsecas e exclusivas por explorar e pesquisar, além simplesmente da atual exploração de madeira bruta e sem valor agregado. Uma delas é a propalada geração de umidade para Itaipú e para as plantações do Centro Oeste, neste caso sem qualquer ação humana. Dar valor econômico a este efeito climático é até possível, embora cobrá-lo parece absurdo. Junto com a umidade vai o oxigênio, teoricamente purificado. Como cobrar?

O também propalado crédito de carbono é outro recurso, este mensurável e negociável, que também não demanda qualquer ação humana, e até pelo contrário, é tanto mais valorizado e gerado quanto menos houver ação sobre a floresta.

Há ainda o valor agregado imaginário, sem entrar no mérito, que é atribuído aos produtos que venham a ser produzidos na região, desde que mantendo sua conservação. A princípio não vem ao caso se é um valor legitimo ou comprovável, mas o fato é que ele é real. Pode-se até questionar e mudar esta visão, mas enquanto ela persistir, está sendo e será sempre considerada pelo mercado. Quando a visão for outra, e somente quando for, o mercado se converterá. O mercado vai eliminando os desalinhados que não entenderem esta dinâmica.

Talvez não haja no planeta um lugar com tanto valor sem ação humana, e que se desvalorize tanto pela sua interferência.

Este cenário não é para quem pretende benefícios imediatos para sí, numa visão mais romântica e bairrista de meros desejos de curto prazo. Trata-se de refletir com o longo prazo.

Desenvolver a Amazônia exige mais que um plano ou um projeto; exige ciência ainda não disponível. Enquanto a ciência não vem, é só atropelos.

Juarez Baldoino da Costa
Juarez Baldoino da Costahttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Juarez Baldoino da Costa é Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

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