A política, o tratado da democracia ou da agonia

O Tratado da Política é uma das obras de Aristóteles – a referência filosófica maior dos alicerces do pensamento e do conhecimento como nos é dado adquirir e utilizar na modernidade – mais importantes na compreensão do modo de agir e pensar de nossa cultura greco-cristã. Nela estão as premissas e o fundamento dos estudos da polis, aqui entendida como a vida social, suas regras, leis, direitos e responsabilidades coletivas. Estranhamente, apenas neste século XXI veio à luz a tradução direta do grego, colocando ao dispor do público de língua portuguesa o notável tratado de Aristóteles, cuja leitura e estudo se revelam imprescindíveis aos estudantes de Ciência Política, Filosofia, História, Sociologia e Educação. Existem, obviamente, várias versões em Português, algumas feitas do latim e a maioria do árabe, pobres em notas e indicadores elucidativos da compreensão original das categorias aristotélicas, essenciais para compreender o delicado e definitivo papel da Política, um exercício intelectual e conceitual que ajudaria de modo decisivo a retomar o papel dos políticos e de seus eleitores – isto é, o conjunto dos atores sociais – na construção do Estado de Direito, balizando a crítica e a denúncia da desordem social e da inversão de valores e direitos a que estamos submetidos. O Tratado é um manancial de ricas informações sobre a cultura clássica e uma fonte inesgotável de elementos de reflexão que nos ajudam a encontrar respostas para os problemas políticos, éticos e sociais do presente. Em épocas de crise, diz a História do Pensamento, a academia promove o regresso a Aristóteles: foi assim nos séculos XII, XIII e XIV (com Averróis e Tomás de Aquino, seus maiores estudiosos) e foi, também, na segunda metade do século XX, do pós-guerra e agora, com um número crescente de traduções e comentários às obras de Aristóteles. Há que se acreditar na Política como a única via da construção da Democracia, o melhor parâmetro de gestão da sociedade. E é nesse contexto que deve ser interpretada a entrevista do presidente do Grupo Riachuelo, empresário Flávio Rocha, publicada na edição de domingo do jornal O Estado de São Paulo sobre economia e os rumos do governo Dilma. Para ele, a economia brasileira hoje está “Sem projeto e sem propósito”, ou seja, sem os parâmetros de ordenamento das prioridades, necessidades e premissas norteadoras, objetivos e metas da polis, o tecido social. Rocha fala claramente que a atual gestão da presidente cria dois cenários para a economia: “Um é o de uma agonia curta, com impeachment. O outro, de agonia longa, cumprindo três anos e meio de mandato”.

Estopim da mudança

O empresário Flávio Rocha utiliza uma linguagem direta e objetiva, comum a todo aquele que depende das atitudes balizadas pela racionalidade dos argumentos e equilíbrio das decisões. O momento recomenda que se priorize o pensamento (o cogito cartesiano), sem partidarismo revanchista, e sem descuidar dos demais integrantes, incluindo o lado emocional e afetivo da existência, (o sum existencial) para destacar a essência da realidade. “Vamos começar com uma boa notícia. Encerrou- se um ciclo. Um ciclo de ideias ruins, insustentável. A gente já vê os indícios fortes da mudança. A mudança vem da cabeça do eleitor, de um novo personagem que vai mudar a história do País: o eleitor/consumidor/cidadão”. O argumento do empresário é absolutamente aristotélico no sentido do movimento dinâmico entre as expectativas do cidadão e o papel do gestor público. “A nova consciência do eleitor atento sucedeu o eleitor súdito, que era o fiel da balança e representava uma grande base de 60% de pobreza”. Rocha se reporta ao esquema assistencialista para fidelizar o eleitorado, deixando as pessoas com o pires na mão. “Houve uma transformação demográfica e econômica. Hoje, o fiel da balança não é mais a base da pobreza. É o novo consumidor, com condição de resolver as paradas eleitorais que vêm pela frente”. Essa relação entre o Estado e o Cidadão é o esteio vital e crucial do tratado filosófico da Política segundo Aristóteles, onde o cidadão enxerga o Estado na ótica da gestão de seus interesses e, lembra Flavio Rocha, “Não cai mais no mito do Estado que resolve todos os problemas”. Usando uma linguagem cotidiana, o empresário ilustra seu ponto de vista com categorias do cotidiano: “O cidadão vê o Estado como vê a sua operadora de telefonia celular, de TV a cabo. Paga e exige reciprocidade.  Esse novo perfil vai ser o estopim da mudança”.

Distância mortal

Esse distanciamento da sociedade por parte da governança maior do país têm nuances acentuadas no relacionamento do poder central com o modelo Zona Franca de Manaus, açoitado por uma avalanche de descaso político, onde a grande medida da presença federal com a Proposta de Emenda Constitucional, para prorrogar os incentivos fiscais por mais 50 anos, não se fez acompanhar das medidas necessárias de sua viabilidade, competitividade e paulatina independência desses mesmos incentivos. E com isenção fiscal, apenas, nenhum modelo de exceção tributária se sustenta. A ZFM foi prorrogada, mas foi transformada em exportadora líquida de recursos, no direcionamento direto para outras finalidades de verbas da Suframa, necessárias ao seu funcionamento, modernização, infraestrutura urbana e viária do polo industrial, e demais instalações da autarquia em Manaus e em toda a Amazônia Ocidental, incluindo Macapá e Santana. Estrutura mínima de comunicação de voz e dados, de energia e de transporte. Hoje, Manaus é atingida por apagões diários, não apenas nos estabelecimentos produtivos, mas nas residências dos cidadãos. Como ter colaboradores dispostos e atentos aos seus deveres funcionais com as noites insones impostas pela falta de energia? O gestor público confiscou em média 80% dos recursos de pesquisa e desenvolvimento, essenciais para desenvolver a agregação de valor da inovação tecnológica e para ampliação das novas modelagens econômicas da bioindústria. E é escandaloso, a propósito, recolher R$ 50 bilhões para os cofres federais e não ter recursos para recuperar as vias do Distrito industrial. Empresas de grande porte, esteios de segmentos como a Honda, que implantaram em Manaus sua maior unidade fabril de duas rodas, ao redor do mundo, com buraqueiras lunares no acesso a suas instalações. Hoje, os buracos criminosos das vias do Polo Industrial são a melhor tradução do descaso federal, estadual e municipal. É hora de mudar!!!!

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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