Análises de DNA confirmaram cada nova espécie de cogumelo encontrada nas Reservas Cristalino, em Mato Grosso. Duas espécies se destacam pela coloração verde incomum no gênero estudado.
Uma nova espécie de cogumelo verde, batizada de Hygrocybe cristalinoensis, está entre quatro fungos descritos pela ciência nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino, no norte de Mato Grosso. Publicada na revista científica Phytotaxa, a pesquisa combinou análises genéticas e de características físicas para diferenciar os organismos de espécies já conhecidas.
Os exemplares foram coletados em trilhas de floresta de terra firme nos municípios de Alta Floresta e Novo Mundo, entre 2018 e 2019. Todos pertencem ao gênero Hygrocybe, que inclui cogumelos de cores variadas, mas no qual a pigmentação verde é incomum.
A investigação foi liderada pela bióloga Juli Simon Cardoso, doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O trabalho integra o Projeto Fungos do Cristalino, dedicado ao levantamento desses organismos na Amazônia meridional.
Fotografias deram origem à investigação
O caminho até a descrição científica começou com registros da parataxonomista alemã Susanne Sourell. Durante visitas anuais ao Cristalino, ela fotografava cogumelos e publicava as imagens no grupo Cogumelos do Brasil, no Facebook.
As características dos exemplares despertaram a atenção de especialistas e aproximaram Susanne de Juli Simon, que já pesquisava o gênero Hygrocybe. A colaboração avançou para coletas e exames em laboratório.
Para confirmar cada nova espécie de cogumelo, as pesquisadoras compararam sua aparência, estruturas microscópicas e sequências de DNA com informações de fungos já descritos. Esse conjunto de evidências sustentou a identificação das quatro espécies.
Verde intenso e chapéu que se rompe
A Hygrocybe cristalinoensis apresenta coloração verde ao longo do corpo e borda branca e franjada no chapéu. Encontrada na trilha do Francisco, em 2019, recebeu o nome em referência às reservas e ao rio Cristalino.
Na mesma trilha, em 2018, foi coletada Hygrocybe viridilacerata. Também verde, essa nova espécie de cogumelo se diferencia pela transformação durante o amadurecimento: o centro do chapéu se rompe e adquire aparência semelhante à de uma estrela.
As outras duas espécies foram registradas na trilha da Castanheira, em 2019. Hygrocybe pegleri tem pé com mais de dez centímetros e pequenas escamas amarronzadas no chapéu. Seu nome homenageia o micólogo David N. Pegler.
Já Hygrocybe vinaceosquamulosa possui chapéu escamoso com tonalidades entre o arroxeado e o avermelhado, além de esporos alongados. Até o momento, essa espécie e H. cristalinoensis são conhecidas apenas dos locais onde foram coletadas. Novas pesquisas são necessárias para esclarecer sua distribuição.
Conhecer para conservar
As reservas ficam próximas ao Parque Estadual Cristalino, em uma região conectada a outras áreas protegidas e territórios indígenas. A conservação desses ambientes fortalece sua relevância diante da pressão do desmatamento no sul da Amazônia.
Os fungos participam de processos essenciais ao funcionamento das florestas, como a decomposição da matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes. Muitos também mantêm associações com plantas que favorecem a absorção de nutrientes do solo.
Apesar dessa importância, grande parte da diversidade de fungos permanece sem descrição científica. Para Juli Simon, identificar e nomear uma nova espécie de cogumelo cria a base para investigar suas relações ecológicas e ampliar sua presença nas políticas de conservação.
A descoberta ainda não permite afirmar que os quatro cogumelos tenham aplicações medicinais ou sejam seguros para consumo. Essas possibilidades dependem de investigações específicas. O Projeto Fungos do Cristalino reúne a Fundação Ecológica Cristalino, o Laboratório de Micologia da UFSC e Susanne Sourell, com colaboração internacional e bolsas do CNPq e da Capes. Além da pesquisa, a iniciativa já produziu dois guias fotográficos para divulgar a diversidade encontrada na região.