Com foco no P. vivax, a vacina brasileira contra a malária pode reforçar o combate à doença na Amazônia, que concentra mais de 95% das infecções contraídas no país.
A vacina brasileira contra a malária causada pelo parasita Plasmodium vivax recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar testes em humanos. Batizada de Vivaxin, a formulação busca prevenir a variedade predominante no país, para a qual ainda não existe imunizante disponível no mundo.
A primeira etapa clínica reunirá 48 adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, que nunca tiveram malária. Com seleção prevista para novembro, o estudo avaliará a segurança da vacina, possíveis reações e a produção de anticorpos.
Os participantes serão divididos entre grupos que receberão o imunizante ou placebo. O protocolo estabelece três aplicações, com intervalos de 28 dias, e acompanhamento durante um ano. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União em 7 de outubro.
A vacina brasileira contra a malária resulta de uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), o Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a farmacêutica Cristália, responsável pelos lotes destinados aos testes.
Perspectiva para a Amazônia
O avanço tem relevância para a região amazônica, que concentra mais de 95% dos casos de malária contraídos no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, o país registrou 118.037 infecções locais em 2025, queda de 15% em relação ao ano anterior. A meta nacional é interromper a transmissão local até 2035.
Transmitida pela picada de fêmeas do mosquito Anopheles infectadas, a doença provoca febre, suor excessivo, cansaço e dores no corpo. Na Amazônia, dificuldades de acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à prevenção ampliam os desafios de controle.
Caso a segurança seja demonstrada na fase inicial, a vacina brasileira contra a malária poderá avançar para estudos com mais participantes. A previsão dos pesquisadores é envolver cerca de 300 pessoas no Brasil, principalmente na Amazônia, e, posteriormente, outros países.
Ainda não há prazo para concluir o desenvolvimento. O pedido de registro à Anvisa dependerá dos resultados de todas as etapas clínicas, incluindo a avaliação de eficácia.
Como a vacina atua
A formulação utiliza uma proteína produzida em laboratório que reúne componentes de três variantes da PvCSP, presente na superfície do parasita. Associada a um adjuvante, substância que intensifica a resposta imunológica, ela pretende estimular anticorpos capazes de bloquear a entrada do P. vivax nas células do fígado.
Essa etapa antecede a chegada do parasita aos glóbulos vermelhos e o aparecimento dos sintomas. Nos testes pré-clínicos com camundongos e primatas, a combinação apresentou segurança e proteção. Esses resultados ainda precisam ser avaliados em humanos.
O desenvolvimento da vacina brasileira contra a malária começou no início dos anos 2010 e recebeu apoio da FAPESP, da Finep e dos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Em outra frente, pesquisadores também estudam uma candidata contra a malária vivax baseada em RNA mensageiro, ainda em testes com animais.