O Brasil conhece esse medo

“A dor da gente não sai no jornal.” A frase de Chico Buarque atravessa o debate eleitoral brasileiro com um desconforto particular. A dor até aparece, por alguns instantes, entre uma propaganda e outra. O que raramente consegue é permanecer tempo suficiente para cobrar responsabilidade. Uma família sem casa, uma comunidade intoxicada, um trabalhador sem atendimento, uma mãe procurando alguém levado pelo Estado. Logo chega outra notícia, outra indignação, outro inimigo escolhido para ocupar a conversa.

O Brasil conhece esse mecanismo. Atravessou uma ditadura que prendeu, torturou, censurou e fez desaparecer pessoas enquanto prometia defender a ordem. Conheceu famílias obrigadas a procurar seus mortos e cidadãos que aprenderam a medir palavras dentro da própria casa. A democracia brasileira carrega essa experiência, embora uma parte do país tenha sido educada para tratá-la como exagero dos atingidos.

Brasil conhece
Estudantes contra a ditadura eram duramente reprimidos pelos militares. (Foto: Evandro Teixeira)

A distância entre quem sofre a violência e quem a considera necessária ajuda a explicar a sobrevivência da tentação autoritária. Quem está protegido costuma imaginar que a arbitrariedade possui endereço fixo. Acredita que a repressão alcançará o criminoso, o estrangeiro, o militante, alguém cuja história desconhece e cuja ausência não alterará sua rotina.

O segundo turno de 25 de outubro de 2026 ocorre diante de uma escolha ainda aberta. O Congresso foi eleito, mas a Presidência continua em disputa. E o Executivo terá de se relacionar com um Legislativo no qual, segundo a análise do Observatório do Clima, 409 dos 594 parlamentares apresentam baixa ou muito baixa convergência com a agenda ambiental e climática. No Senado, a proporção chega a 79%. Esse resultado aumenta o peso da decisão presidencial sobre fiscalização, orçamento e proteção social. (tre-sp.jus.br⁠, oeco.org.br⁠)

Para compreender o alcance dessa escolha, vale olhar os Estados Unidos sem o encantamento que sua riqueza costuma produzir. Sob Donald Trump, o poder público oferece exemplos concretos do que acontece quando a promessa de restaurar a grandeza de um país admite tornar parcelas de sua população mais vulneráveis.

Nos primeiros 500 dias do segundo mandato, 52 pessoas morreram sob custódia do ICE, o serviço de imigração e alfândega. O levantamento da Human Rights Watch e da Physicians for Human Rights aponta uma taxa de mortalidade quase quatro vezes superior à registrada durante o governo Biden. (hrw.org⁠)

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A palavra “custódia” deveria interromper a leitura. Essas pessoas estavam sob controle do Estado. Dependiam dele para receber um medicamento, chegar a um médico, ser ouvidas quando o corpo apresentava sinais de perigo. Nenhuma irregularidade migratória autoriza a suspensão dessa responsabilidade. Entre a ordem de deter e a morte de um detido existem decisões, procedimentos e autoridades que precisam responder.

O vocabulário da invasão facilita o afastamento moral. Quando o imigrante passa a ser apresentado como parte de uma ameaça indistinta, sua história perde importância. Desaparecem o trabalho, os filhos, o tempo vivido naquele país. A pessoa passa a caber numa categoria contra a qual se promete agir com dureza. A população é estimulada a avaliar a força da operação antes de perguntar o que aconteceu com quem foi levado.

A mesma disposição alcança os pobres. A contagem oficial americana de janeiro de 2024, anterior ao segundo mandato de Trump, encontrou 771.480 pessoas sem moradia, incluindo quem estava em abrigos. Quase 150 mil eram crianças. A crise vinha de antes e atravessava governos; exigia uma resposta proporcional à sua dimensão. (endhomelessness.org⁠, huduser.gov⁠)

Em julho de 2025, Trump assinou uma ordem que incentivava a ampliação da internação involuntária em determinadas situações e medidas de remoção de acampamentos. O documento associava essas iniciativas à restauração da ordem pública. (whitehouse.gov⁠)

Quem passa por uma pessoa pedindo dinheiro pode desviar os olhos. Um governo dispõe de meios para retirá-la dali. O problema é que remover a presença da pobreza não assegura moradia, tratamento nem renda. A mendicância incomoda a paisagem; o abandono que a produz exige enfrentar escolhas econômicas e responsabilidades que a fotografia da rua vazia deixa fora do enquadramento.

Essas escolhas aparecem no orçamento. O Congressional Budget Office estimou que a legislação fiscal e de gastos sancionada em julho de 2025 reduziria, em média, os recursos anuais dos domicílios entre os 10% mais pobres em cerca de US$ 1.200, enquanto os 10% mais ricos ganhariam aproximadamente US$ 13.600, no período analisado. Para a mesma lei, projetou 10 milhões de pessoas adicionais sem seguro de saúde em 2034, comparativamente ao cenário de referência. (cbo.gov⁠, apnews.com⁠, ccf.georgetown.edu⁠)

A asfixia social tem uma materialidade que a disputa das redes frequentemente apaga. Está na consulta adiada, na prestação que consome a alimentação, na necessidade de continuar trabalhando com dor. Uma família perde margem de escolha até depender de favores para obter aquilo que deveria conseguir como direito. Nesse ponto, o medo do abandono passa a organizar sua vida.

Nas guerras, a perda alcança sociedades inteiras. Em setembro de 2026, uma missão independente da ONU descreveu os civis iranianos como presos entre a repressão do próprio governo e o conflito mortal com Estados Unidos e Israel. Em Gaza, o relatório humanitário de 2 de outubro advertia que a falta de recursos reduziria refeições e distribuição de alimentos, enquanto novas mortes continuavam sendo registradas. (ohchr.org⁠, ochaopt.org⁠)

A linguagem estratégica acomoda expressões como pressão, objetivo e capacidade militar. Para quem está no território, as consequências incluem perder a casa, interromper o tratamento, procurar comida e não saber se a escola voltará a funcionar. Responsabilizar governos e grupos armados exige conservar essas pessoas dentro do debate. A condição civil de uma criança não muda conforme o país onde nasceu ou o regime sob o qual vive.

Também por isso a ciência incomoda projetos de poder que desejam controlar sua própria avaliação. Ela mede danos, acompanha doenças, verifica o clima e pode demonstrar que uma decisão oficial produz resultados diferentes dos anunciados.

A National Science Foundation informou o cancelamento de financiamentos de pesquisas consideradas incompatíveis com suas novas prioridades, incluindo trabalhos sobre justiça ambiental, diversidade e desinformação. A própria agência esclareceu que esses encerramentos não pressupunham falhas ou má conduta dos pesquisadores. (nsf.gov⁠)

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Alex Wong / Getty Images

O corte alcança mais que uma rubrica. Dispersa equipes, interrompe investigações e diz aos pesquisadores quais assuntos poderão custar sua continuidade profissional. A censura encontra no orçamento um instrumento capaz de produzir silêncio sem precisar proibir cada palavra.

A pressão sobre a educação segue o mesmo caminho. Harvard enfrentou o congelamento anunciado de bilhões de dólares após rejeitar exigências do governo e obteve uma decisão judicial favorável em setembro de 2025. O conflito mostrou a dimensão da pressão e a importância de ainda haver instituições capazes de limitá-la. (news.harvard.edu⁠)

Mulheres, pessoas trans e outras minorias também encontram seus direitos transformados em terreno de mobilização política. A ordem de Trump que restringiu o reconhecimento federal das identidades de gênero e a legislação húngara que abriu caminho para proibir eventos do orgulho LGBT mostram como decisões apresentadas em nome da proteção podem diminuir a liberdade de grupos específicos. (whitehouse.gov⁠, europarl.europa.eu⁠)

Esses grupos não compartilham uma única experiência. Compartilham, nessas situações, o risco de ter sua proteção submetida à aprovação moral da maioria. Quando a dignidade depende dessa aprovação, qualquer diferença pode ser convertida em justificativa para restringir direitos.

Na Amazônia, a discussão chega a territórios onde o abandono já pesa demais. Ciência, educação e proteção ambiental sustentam a possibilidade de transformar biodiversidade em conhecimento, emprego e renda. A segurança das comunidades permite viver e produzir. O atendimento de saúde e a escola permitem permanecer. Retirar essas condições amplia a dependência de quem já dispõe de poucas alternativas.

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A defesa da floresta em pé exige instituições capazes de enfrentar interesses poderosos. Precisa de fiscalização, pesquisa e participação de quem vive no território. Um governo que desqualifica essas capacidades compromete a promessa de desenvolvimento antes mesmo de discutir seus projetos econômicos.

O eleitor brasileiro tem direito de conhecer esse conjunto de consequências. Pode estar cansado, ressentido, inseguro ou decepcionado. Nenhuma dessas experiências é desprezível. Mas sua insatisfação pode ser mobilizada para entregar mais poder a quem, depois, reduzirá os meios de cobrar respostas.

A tentação autoritária trabalha sobre essa exaustão. Promete resolver depressa e apresenta os limites ao governante como obstáculos à vontade popular. O tribunal incomoda, a imprensa atrapalha, a universidade doutrina, o fiscal impede, a minoria exige demais. Aos poucos, acumula-se uma lista de pessoas e instituições que deveriam se calar para que o governo pudesse agir.

O Brasil já conheceu o resultado de conceder ao poder essa licença. Conheceu também o longo trabalho necessário para recuperar liberdades e reconstruir garantias. Essa memória precisa participar da eleição com a mesma força das promessas.

Até 25 de outubro, ainda é possível exigir que cada candidatura explique a quem pretende proteger, quais limites aceitará e o que fará quando seus interesses forem contrariados pela lei, pela ciência ou pelos direitos de alguém sem influência.

A dor da gente precisa permanecer no jornal por tempo suficiente para chegar a essas perguntas. Sobretudo a dor de quem não tem dinheiro para contratar defesa, comprar atendimento, mudar de país ou escapar de um território ameaçado. É essa população que depende mais diretamente das garantias públicas e que menos poderá suportar uma nova experiência de abandono acompanhada de repressão. Seu futuro também estará na urna, mesmo quando sua voz não conseguir atravessar o ruído da campanha.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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