Expansão da soja e da pecuária, concentração empresarial e conflitos sobre políticas ambientais ajudam a explicar a força do agro-bolsonarismo no Centro-Oeste e nas bordas da Amazônia, segundo Fernando Rugitsky.
As regiões de expansão da soja e da pecuária consolidaram uma base eleitoral bolsonarista capaz de contrabalançar a força de Lula no Nordeste. Essa é a avaliação do economista Fernando Rugitsky, pesquisador da SOAS, da Universidade de Londres, em entrevista à BBC News Brasil. Para ele, o agro-bolsonarismo combina interesses econômicos de produtores rurais, conflitos sobre a proteção ambiental e uma divisão territorial do voto.
Os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 ilustram esse contraste. No Nordeste, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 63,77% dos votos, contra 30,85% de Flávio Bolsonaro (PL). Já no Centro-Oeste, a vantagem foi do candidato do PL, com 56,51%, enquanto o presidente alcançou 32,62%.
Rugitsky identifica uma sobreposição entre os territórios da produção de soja e carne e o apoio ao bolsonarismo. Essa base atravessa o interior do Sul e do Sudeste, o Centro-Oeste e as bordas sul e leste da Amazônia. Segundo sua análise, a consolidação do agro-bolsonarismo tornou a disputa presidencial mais equilibrada e ampliou o peso das grandes metrópoles do Sudeste na definição do resultado. “De certa forma, o grande Centro-Oeste, se a gente quiser chamar assim, deu à direita uma base territorial equiparável à base do Nordeste para o PT.”
Produtores sob pressão econômica
O pesquisador situa as origens do agro-bolsonarismo nas transformações da agropecuária desde o início dos anos 2000. A expansão das lavouras e das pastagens ocorreu junto ao fortalecimento de grandes empresas compradoras, que passaram a exercer influência sobre contratos e condições de comercialização.
Na soja, ele destaca as tradings ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus. Na carne, cita JBS, Marfrig e Minerva. A concentração em poucos compradores cria uma relação desigual com os numerosos produtores que fornecem a essas companhias.
Nesse cenário, Rugitsky chama atenção para uma camada intermediária de agricultores e pecuaristas. São proprietários que contratam trabalhadores, mas têm menos poder econômico que os grandes grupos empresariais. Na caracterização apresentada pelo economista, esse segmento se distingue da agricultura familiar e dos trabalhadores rurais.
Além da pressão comercial, esses produtores enfrentaram custos para se adequar às políticas de controle do desmatamento. Segundo ele, propriedades maiores tinham mais estrutura para cumprir as exigências, enquanto parte dos produtores intermediários encontrava dificuldades de acesso ao crédito para elevar a produtividade sem ampliar a área ocupada.
Essa combinação favoreceu a aproximação com lideranças conservadoras e, posteriormente, com Bolsonaro. Para Rugitsky, a mobilização teve impulso nas camadas intermediárias e ganhou espaço em entidades do setor e no Congresso.
Proteção da floresta no centro do conflito
O economista associa parte dessa articulação às políticas ambientais que reduziram o desmatamento entre 2004 e 2012. Ele ressalta, porém, que reconhecer os conflitos provocados por sua implementação não significa defender a flexibilização da proteção da Amazônia. “É importante deixar claro que a redução do desmatamento não é só uma conquista a ser celebrada, mas também uma necessidade urgente da política brasileira.”
Em sua avaliação, o governo Bolsonaro atendeu a demandas ideológicas do agro-bolsonarismo ao enfraquecer a fiscalização e as capacidades institucionais da política ambiental. Isso, entretanto, não alterou a estrutura econômica que subordinava produtores às grandes empresas compradoras.
A retomada do controle do desmatamento no terceiro governo Lula voltou a alimentar o antagonismo com o PT. Ao mesmo tempo, segundo Rugitsky, o fortalecimento da representação agropecuária no Congresso criou obstáculos ao avanço de medidas de proteção territorial e à reconstrução de instrumentos ambientais.
Crescimento vivido de formas diferentes
As diferenças entre o desempenho da economia nacional e o das cadeias agropecuárias também ajudam a explicar a persistência do agro-bolsonarismo, afirma o pesquisador. Segundo os números apresentados na entrevista, o PIB brasileiro cresceu, em média, 1,4% ao ano no governo Bolsonaro e 3% nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula. No agronegócio, as médias foram de 7,7% e 3,2%, respectivamente. Na cadeia da soja, passaram de 23,1% para 1,7%.
Rugitsky atribui grande parte desse contraste aos preços internacionais e à disputa comercial entre China e Estados Unidos. Assim, enquanto a economia brasileira acelerou, regiões dependentes do agro experimentaram uma desaceleração em seus principais setores. “Acho que o agro-bolsonarismo não é só um movimento político-social, mas explicita também uma cisão econômica do território brasileiro.”
Para ele, essa experiência regional dá sustentação material à identidade política do movimento. Sua continuidade, contudo, também depende de fatores que escapam aos governos brasileiros, como mudanças climáticas, decisões comerciais da China e oscilações dos mercados internacionais.